‘Yellowjackets’: Melanie Lynskey fala sobre bastidores e final arrepiante – 20/01/2022 – Cinema e Séries

‘Yellowjackets’: Melanie Lynskey fala sobre bastidores e final arrepiante – 20/01/2022 – Cinema e Séries



The New York Times

ALERTA: A entrevista contém grandes “spoilers” sobre o final de temporada de “Yellowjackets”.

Melanie Lynskey e eu vamos conversar sobre a trágica reviravolta no final do último episódio da temporada de “Yellowjackets” dentro de alguns momentos. Mas eu ainda estou em choque com os minutos iniciais.

Shauna, na banheira, com uma faca elétrica? “Quem diria, não é?”, disse Linskey, 44, que interpreta a versão adulta de Shauna em “Yellowjackets”, uma série de terror psicológico muito elogiada da rede Showtime —e ​disponível no Brasil pela Paramount+.

A história fala de um time escolar de futebol feminino que fica isolado em uma região selvagem do Canadá depois de um acidente de avião em 1996. Vimos o suficiente para saber que o tempo que elas passaram nos bosques não terminou bem, especialmente para as integrantes do time que terminaram literalmente esquartejadas e comidas pelas sobreviventes. Mas fica bem claro que sobreviver –o que significa, em resumo, se ver reduzida a matar e ao canibalismo– também teve seu preço.

Um exemplo é a relativa calma com que a Shauna adulta desmembra seu novo namorado –para esconder as provas de que o matou acidentalmente com uma outra faca, não elétrica.

“Há momentos dessa personagem em que precisamos nos lembrar de que ela funciona em piloto automático”, disse Lynskey sobre Shauna. “Acontece um problema e ela simplesmente funciona como se o importante fosse resolver aquela parte do problema antes que um problema diferente apareça. Ela está tentando simplesmente dar um passo depois do outro”.

Lynskey, atriz neozelandesa cuja cadência vocal se transforma facilmente em sotaque americano no seu trabalho em “Yellowjackets”, estava falando do quarto de sua filha, na semana passada em Atlanta. (“Estou me escondendo”, ela explicou). Lynskey está lá para filmar “Candy”, uma série em produção para o serviço de streaming Hulu. Na nova série, ela interpreta uma mulher na ponta oposta da lâmina: Betty Gore, de Wylie, Texas, assassinada a machadadas por sua amiga Candy Montgomery, em 1980.

“Gosto de coisas um pouquinho sombrias”, disse Lynskey. “Gosto de ver a maneira pela qual pessoas comuns podem chegar ao ponto do desespero”.

Os papéis importantes de Lynskey em “Yellowjackets”, pelo qual ela conquistou uma indicação ao Critics Choice Award, e em “Não Olhe Para Cima”, sátira apocalíptica repleta de estrelas na Netflix, são apenas os sucessos mais recentes em uma carreira que, nos últimos anos, incluiu trabalhos importantes em “Togetherness” (2015/2016), série da HBO; no filme “Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo” (2017), de Macon Blair, muito elogiado pela crítica; e na série histórica “Mrs. America” (2019), da FX no Hulu.

Mas ainda que seus papéis e os orçamentos de seus trabalhos venham crescendo, eles ainda são do tipo que a atriz ama interpretar: mulheres reais, com rugas, curvas e tudo mais. “Há muitas mulheres parecidas comigo no mundo”, disse Lynskey sobre Shauna e sua aparência ligeiramente desleixada. “Isso sempre foi importante para mim”.

Na entrevista, ela discutiu as teorias prediletas dos fãs, a determinação quase inacreditável de Shauna e a única coisa que ela disse aos roteiristas que sua personagem nunca faria. Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

Vamos começar pelo começo: Onde é que Shauna encontra a determinação necessária para esquartejar seu amante em uma banheira? Nós já podemos perceber esse aspecto quando ela está perdida nos bosques, ainda adolescente, e se oferece como voluntária para cortar a garganta do cervo.

Minha esperança é que a série venha a nos mostrar membros de sua família, para que possamos compreender por que ela é do jeito que é. Ela parece ser uma pessoa completamente autossuficiente antes mesmo de se ver aprisionada naquela situação. Acredito que exista algo dentro dela que é um pouco assustador até para ela mesma, mas essa parece ser a parte mais honesta daquilo que ela é.

Não é só a jovem Shauna que abate animais como adulta, a série a mostra estripando um coelho na cozinha. Você sente alguma repulsa ao ver sangue?

Sou vegetariana. Não como carne desde os 10 anos de idade. Não quis fazer a cena usando um coelho de verdade, e por isso o pessoal construiu um coelho simulado, um trabalho absurdo, com imãs e pedaços grudados juntos. Parecia real demais!

Em que mais você é semelhante e diferente de Shauna?

Ela consegue adotar uma fachada fria e calculista que eu não sei se tenho. Imagino que sim, porque é algo que consigo externar. Mas também é alguém com grande capacidade de amar, e isso nos torna semelhantes. Ela é muito mais confiante do que sou, mas mesmo assim tem momentos de dúvida, que podem conduzi-la a alguns de seus maiores erros.

E com relação às técnicas de sobrevivência?

Se vou a qualquer lugar, tenho de ler todas as resenhas que encontrar no TripAdvisor e no Yelp para garantir que o hotel seja tão agradável quanto preciso que seja. Sou muito detalhista, toda princesinha. Quando era criança, passei alguns dias em um acampamento na natureza, e a viagem toda foi uma tortura. No final da viagem, todo mundo da classe tinha de escrever uma carta à pessoa que lhes tivesse causado a maior impressão, e eu recebi todas as cartas, porque as pessoas queriam me dizer que “você conseguiu, você sobreviveu. Chorou o tempo todo, mas de alguma maneira conseguiu passar por aquilo”.

Vamos falar sobre Jeff (Warren Kole). Por que Shauna fica com ele?

Antes do acidente de avião, havia uma química e os dois realmente gostavam um do outro, mas Shauna sentia que aquilo era uma coisa temporária. Mas então ela retornou daquela experiência carregada de culpa por ter sobrevivido. E ela não quer lidar com nada disso —guarda tudo bem fundo em si mesma, e sente que a coisa responsável a fazer é casar com Jeff. Ela tem medo de contemplar de mais perto a questão de “quem é essa pessoa com quem estou?”, por medo de encontrar uma resposta difícil. É uma situação semelhante à de Adam [o ex-amante que ela esquarteja na banheira, interpretado por Peter Gadiot], um momento em que ela simplesmente age por impulso. Ela tem medo demais de descobrir alguma coisa que não deseja saber, e por isso permite que aquelas coisas aconteçam com ela.

Quanto você sabia sobre a personalidade de Shauna ao começar a gravar a série?

Os roteiristas tinham me contado o que aconteceu a Jackie [Ella Purnell], porque, quando ela começou a aparecer para mim em flashbacks, eu disse que precisava saber detalhes específicos. E eu sabia da trajetória do relacionamento entre ela e Adam. Sabia da trajetória do relacionamento com Jeff, e que era ele o chantagista. Acho que às vezes os roteiristas têm medo de que, se um ator tiver informações demais, termine por revelar coisas em sua interpretação, mas para mim é útil ter essas informações para poder construir alguma coisa com mais camadas e que seja mais divertida de ver para os espectadores.

Como por exemplo?

Quando Jeff e eu estamos voltando do “brunch” com os pais de Jackie [no episódio seis], eu pergunto: “Você preferiria ter ficado com ela?” E ele responde que “não, ela só foi minha namorada no colegial”. Nunca tínhamos conversado a respeito daquilo, e ele sabia que era algo que Jackie tinha dito porque tinha lido os jornais de Shauna. E assim eu pude reagir a um momento como aquele, como se estivesse pensando que “isso é interessante. Não sei por que ele disse isso, ou de que maneira ele sabe disso”.

Para deixar bem claro, Jackie está com certeza morta? Não está dando uma de Van?

Até onde eu sei. Não vejo de que jeito ela poderia ter retornado depois de congelar até a morte. [Risos] E também acho que o contrato de Ella sempre foi para um ano só de trabalho.

Diversas teorias de fãs sobre Shauna surgiram na mídia social. Você tem alguma favorita?

Foi interessante para mim que ninguém tivesse imaginado que “e se Adam simplesmente gosta dela?” Parte da questão é que a série é de mistério, e ele é um personagem que desperta suspeita. E parte é que eles têm um relacionamento nada convencional, no qual ele é mais convencionalmente atraente do que eu, mais jovem do que, mais magro do que eu. Por isso, é muito difícil para as pessoas aceitar que aquilo que estão testemunhando possa ser simplesmente um relacionamento. E há algumas teorias que são simplesmente loucas demais —há muita gente que diz que “ele é o bebê que Shauna teve depois do desastre”. Eu gostaria de lembrar de todas as mais malucas. Outra engraçada foi “ele é Jackie”.

Que influência você tem sobre o desenvolvimento de sua personagem?

Não acontece sempre, mas há momentos em que leio alguma coisa e digo que “isso simplesmente não parece verdadeiro para mim”. Em um episódio em que eu ia sair para um encontro com Adam, o roteiro dizia que eu roubava roupas de baixo de minha filha —uma tanga— para usar. E eu tive de dizer, “pessoal, antes de tudo, como mãe, de jeito nenhum”. É uma ideia nojenta demais. Sei que Shauna não tem limites, mas isso seria ir longe demais. E, para ser realista, a tanga não serviria em mim. Não existe uma mulher no planeta que assista a uma cena como essa e diga “em minha opinião, ela se sente completamente confortável usando aquela roupa de baixo”. Mas eles sempre me escutam!

Você já sabe alguma coisa sobre a segunda temporada?

Sei que os roteiristas ainda nem começaram as reuniões de argumento, e por isso quero lhes dar algum tempo. Mas com certeza quero fazer perguntas. Acho que eu provavelmente deixo os roteiristas loucos.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original