Wolfgang Tillmans investiga natureza artificial da visão – 05/11/2022 – Ilustríssima

Wolfgang Tillmans investiga natureza artificial da visão – 05/11/2022 – Ilustríssima


[RESUMO]Exposição do celebrado fotógrafo Wolfgang Tillmans no MoMA, em Nova York, reflete a respeito do ato de olhar, livremente e sem medo, as coisas ao nosso redor, e de como as imagens resultantes disso podem nos conduzir a novas percepções sobre as pessoas e a vida.

No romance de Machado de Assis “Esaú e Jacó” (1904), há um episódio em que o conselheiro Aires vê um burro empacado apanhando do carroceiro. Depois de algum tempo, o burro decide se mover e o conselheiro lê nos olhos do animal um monólogo que diz:

“Anda, patrão, atulha a carroça de carga para ganhar o capim de que me alimentas. Vive de pé no chão para comprar as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te chame um nome feio, mas eu não te chamo nada; ficas sendo sempre o meu querido patrão. Enquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o teu domínio não vale muito, uma vez que não tiras a liberdade de teimar…”.

Voltando a si, o conselheiro percebe a impropriedade do monólogo inventado: “Vê-se, quase que se lhe ouve a reflexão, notou Aires consigo. […] Assim foi; não lhe deu nada nos olhos, a não ser a ironia e a paciência, mas não se pôde ter que lhes não desse uma forma de palavra, com as suas regras de sintaxe. A própria ironia estaria acaso na retina dele. O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido de eco ao silêncio”.

Não se pode ver nem ouvir sem a interveniência da linguagem. Não se pode nem mesmo imaginar um monólogo fantástico como o do conselheiro sem a sua mediação. Mas essa ironia, latente, declarada por Machado de Assis, através da projeção que Aires teima em fixar na retina do burro, é avessa a qualquer forma de exteriorização.

Diante dela, nada subsiste: desaparecem o burrinho, o carroceiro, o conselheiro, o leitor, tudo. Mas, e se pudéssemos voltar a confiar em nossos sentidos e, a partir deles, na possibilidade de apreender os acontecimentos que estão à nossa volta? E se, além disso, pudéssemos nos surpreender e maravilhar novamente com as coisas, com os seres e os afetos, através dos quais outras realidades podem se desvelar?

Essas são questões que norteiam a produção visual do fotógrafo Wolfgang Tillmans, que acaba de abrir a sua primeira grande retrospectiva no MoMA, em Nova York, intitulada “To Look Without Fear” (olhar sem medo).

Nascido em 1968 em Remscheid, Alemanha, Tillmans estudou no Poole College of Art and Design, em Bournemouth, Inglaterra, e, ao longo dos anos, tem colecionado diversos prêmios e honrarias (a exemplo de ter sido o primeiro artista não britânico a ganhar o Prêmio Turner, em 2000).

A partir da década de 1990, fotografou o ambiente das festas e raves londrinas e nova-iorquinas —particularmente, o mundo da subcultura dessas cidades, defendendo a liberdade de gênero e sexual e os direitos gays.

Ele fotografou a capa do álbum “Blonde”, de Frank Ocean, além de contribuir para i-D Magazine e muitos outros periódicos, sem nunca ter demonstrado preocupação em discriminar a sua fotografia como sendo ora comercial, não artística, ora o oposto.

Ao longo de quase três décadas de produção, Tillmans se interessou pela história da fotografia, voltando a explorar técnicas e estratégias de captação de imagem testadas pelos fotógrafos que o antecederam.

Nos retratos de Aphex (“Aphex Twin”, 1993), de Chloë Sevigny (“Chloë”, 1995) ou na foto singela de uma amiga com seu filho (“Rachel Auburn & Son”, 2005), sentimos o mesmo tipo de rigor quanto à composição que há nas fotografias de August Sander (1876-1964).

Wolfgang Tillmans fotografou movimentos sociais e políticos, como a manifestação na Union Square, em Nova York, em 2014, contra a morte de Eric Garner por policiais brancos, ou a invasão da Crimeia no mesmo ano e a supressão dos direitos LGBTQIA+ na Rússia. Todavia, mesmo em fotos assim, produzidas na rua ou em condições adversas do ponto de vista do observador, ele nunca perde o controle sobre o motivo.

Tillmans entende que, entre o olho e a coisa vista, há a visão, que sempre se produz como um constructo, como algo feito artificialmente. Nada do que vemos é realmente natural. A foto que fez de um tucano (“Tukan”, 2012) mostra a ave pousada na beirada de um comedouro: a imagem sempre traz algo de previsibilidade, de um sentido imediatamente já dado, de um é “isto!”, e que precisa necessariamente de um contexto —ou de outras imagens ao seu lado— para ser convenientemente lida.

O que é visto antes e o que é visto depois modifica a impressão que acolheremos do bicho, nunca verdadeiro em si mesmo. Para o artista, o tucano serve também como metáfora, pois quando o pássaro nos olha, este move a cabeça com seu grande bico para um lado ou outro, exibindo apenas um olho a cada vez, como a lente (o olho) da câmera.

Em “To Look Without Fear”, Tillmans expõe em paredes, painéis e mesas fotografias de várias dimensões e formatos, em preto e branco ou coloridas, de diferentes épocas, com cópias digitais, impressões e reproduções em papel.

Há também imagens em formato de selos postais, um trecho do livro “Close to the Knives”, de David Wojnarowicz, um envelope da Fedex com selos e carimbos alfandegários, assim como músicas de seu álbum (“Moon in Earthlight”, 2021).

O espaço expositivo é usado como um écran, onde tudo isso se justapõe, às vezes com a impressão de se tratar de um grande mosaico, irregular, do teto até o chão, com intervalos no meio.

Algumas fotos estão emolduradas, mas a grande maioria é fixada diretamente na parede com o uso de alfinetes de aço, clipes de fichário e fitas adesivas, dando a impressão de que a exposição é, na verdade, um convite ao estúdio do artista, no qual a ordem das coisas está constantemente sendo revista.

Não existe caos. Ao contrário, o mesmo rigor compositivo que se percebe no interior de cada imagem revela-se também na organização, criteriosa quanto à forma e à cor, das lâminas espalhadas pelas paredes e pelas mesas.

Tillmans produziu uma série de imagens do céu e dos astros a partir do telescópio do Observatório Europeu do Sul, no Chile, onde esteve por um período em 2012, mas a sua preocupação em olhar para as estrelas e para o Cosmos, que nos rodeia e nos miniaturiza, data de épocas anteriores.

Um exemplo é a sequência de fotografias de Vênus (“Venus Transit”, 2004), na qual o planeta aparece como um grande óculo cor de rosa com um ponto negro descentralizado. As fotografias de corpos celestes são espécies de comentários à história do aparato, implicando como a ciência, que dele também fez uso, contribuiu para a determinação do modo como vemos o mundo, tanto na pequena quanto na grande escala.

Tillmans não esconde a influência sobre o seu trabalho da produção do astrônomo britânico Warren de la Rue (1815-1889) e suas imagens das diversas fases da Lua, feitas no início do século passado.

Vale lembrar que o uso de projeções do céu como álibi para se pensar sobre o lugar que habitamos também foi uma preocupação de artistas brasileiros das décadas de 1960 e 1970, como Antônio Dias (“Anywhere Is My Land”, 1968) e Evandro Carlos Jardim (“A Noite no Quarto de Cima, Lat. Sul 23º 32’ 36’’, “Long. W. Gr. 46º 37’ 59’’, 1973), entre outros.

No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, Tillmans começou a fazer manipulações em laboratório com a utilização de banhos químicos, sem o uso da câmera, resultando em grandes cópias abstratas indiretamente aludindo a pinturas do Color Large Field (Mark Rothko, Morris Louis, Kenneth Noland, Larry Poons, Helen Frankenthaler etc.). Um exemplo dessa proximidade pode ser visto na obra “6407-35”, de 2007, na qual em meio a um grande campo alaranjado emerge um semicírculo verde cromo.

Outras vezes, a ampliação das imagens provenientes dessas experiências no laboratório (série “Silver”) traz-nos a sensação de imersão em grandes piscinas coloridas e translúcidas, como em “Freischwimmer 231” (nome de um certificado de natação), de 2012.

Em outra fotografia, “La Palma” (2014), uma grande e espessa onda de espuma branca chega à praia, envolvendo e cobrindo o escolho escuro sob uma tênue luz. A espuma adquire caráter plástico escultórico, lembrando a “Conversazione in Giardino” (1896-1897), de Medardo Rosso, além da relação com o cinema contemporâneo.

Em 2005, Tillmans propôs um laboratório de criação de imagens intitulado Truth Study Center (Maureen Paley’s Gallery), entendendo que o processo de produção e seleção (fotografias, impressos de jornais, fotocópias etc.) não deve ser alienado do espectador/participador, principalmente porque as imagens, mesmo de diversas proveniências e prestando-se a diferentes funções, mantêm afinidades estéticas entre si, que cabe ao artista revelar e aproximar do público.

Pode-se pensar a respeito das estratégias internas de seu trabalho como sendo resultantes daquilo que Raymond Williams (1921-1988) designou como “inseparabilidade das estruturas de sentimento”. Uma “estrutura de sentimento” busca dar conta “do pensamento tal como sentido e do sentimento tal como pensado: a consciência prática de um tipo presente, numa continuidade viva e interrelacionada”.

Os aspectos mais sutis e impalpáveis da vida social, cotidiana, que parecem muito frágeis para determinar ou moldar os processos sociais ou serem cientificamente observados, são, na verdade, a base que os constituem.

Semelhantemente, Tillmans reflete sobre a sua vida e interioridade à medida que investiga a natureza da visão e como as imagens, por mais fortuitas que sejam, podem ser caminhos que conduzem à percepção dos sentimentos das outras pessoas.

Segundo ele, o título da mostra, “To Look Without Fear”, veio de uma entrevista na qual falava sobre como queria “encorajar a si e aos outros a usar os nossos olhos livremente e não ter medo de olhar as coisas e ver como a realidade está diante de nossos olhos”.

Em um dos cantos da exposição, há um retrato de Pablo (“Juan Pablo Echeverri”, 2012), um dos colaboradores do artista, morto de malária aos 43 anos, em Lagos, Nigéria. Ele nos olha fixamente, enquanto segura um cigarro, encostado a uma parede pintada de branco e amarelo.

Esse fundo novamente remete à arte, à história da pintura, mas o olhar que nos encara de frente nos lembra que devemos ver o mundo à nossa volta com urgência, como se fosse a primeira vez e a última, sempre.

A fotografia ainda guarda a chancela de meio capaz de nos trazer o “hic et nunc”, o aqui e agora, embora seja impossível suspender, mesmo que por um instante, a artificialidade que lhe é inerente e que faz parte de sua operação, técnica e história.

No entanto, muitos artistas contemporâneos, como Tillmans, buscam camuflá-la em prol da narrativa sobre a sensibilidade como o meio do encontro imediato com a natureza e da esperança de autopreservação de nossa pobre espécie, passageira neste planeta.

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