Voltar para casa e o aprendizado de história – 20/01/2022 – Claudia Costin

Voltar para casa e o aprendizado de história – 20/01/2022 – Claudia Costin


Num livro belíssimo, Jenny Erpenbeck, premiada escritora alemã, descreve uma casa à beira de um lago, na floresta de Brandemburgo, que vê a história e a vida de alguns personagens que ali tiveram moradia, local de trabalho ou veranearam.

“Visitation”, nome que a obra recebeu em sua tradução inglesa, expõe, a partir da casa construída em 1930 no que viria a se tornar a Alemanha Oriental, parte dos conflitos e agitações do século 20. O terreno em que ela foi erguida também ganha destaque, pela cuidadosa descrição das ações de um jardineiro que adequa plantas e árvores ao gosto de seus sucessivos ocupantes.

A leitura me trouxe à mente os terríveis episódios associados ao nazismo e, posteriormente, ao stalinismo, o que levou os habitantes a acomodações e condutas confusas para poder sobreviver e lidar com suas perdas. Os proprietários judeus tiveram a casa e suas vidas tomadas.

Outra personagem, uma escritora, ao retornar da União Soviética, onde se exilara, vai morar na casa depois que um arquiteto a perdera numa desapropriação e datilografa sempre a mesma linha: “Voltar para casa”. Mas o interessante é a onipresença da casa, lugar de passagem, com nichos de refúgio para eventos que conectam o cotidiano à história, como a cena em que a proprietária, escondida na câmara secreta do closet de um dos quartos, é ali estuprada por um oficial soviético.

Há tempos penso na importância de se trabalhar mais com literatura nas escolas. Os livros de ficção nos permitem entender melhor momentos históricos, ter contato com diferentes culturas e desenvolver empatia. Ao discutir com os colegas as características de personagens, o espírito de época prevalente, o desenrolar da trama e os dilemas éticos, os estudantes têm a chance de exercitar pensamento crítico, entender melhor desafios vivenciados em cada época e ampliar o seu repertório cultural.

Nesta reformulação do ensino médio que o Brasil começa a experimentar, faz sentido aproveitar para promover mais a leitura literária dos jovens, independentemente do itinerário formativo que eles irão selecionar. E a ideia deveria ser não apenas expô-los à literatura brasileira, mas também ao que de mais belo e instigante o mundo produziu, reservando tempo para um debate, em sala de aula, sobre cada obra que merece ser lida.

Para tanto, ajuda o fato de que um número crescente de escolas públicas tem adotado uma jornada em tempo integral, o que permite um processo de ensino muito mais voltado a formar pensadores autônomos, capazes de participar de uma sociedade e de um mundo do trabalho em profunda transformação.


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