Torquato e Faustino, mortos em tragédias, projetam grandeza do Piauí – 05/11/2022 – Ilustríssima

Torquato e Faustino, mortos em tragédias, projetam grandeza do Piauí – 05/11/2022 – Ilustríssima


[RESUMO] Estado em que Lula teve a maior votação proporcional, o Piauí é berço de dois poetas imensos, Torquato Neto e Mário Faustino, cujas mortes trágicas e precoces completam neste mês 50 e 60 anos, respectivamente. Militantes da causa poética em canais populares (jornais, música, cinema, palestras), ambos viveram a utopia do novo, da poesia como impulso civilizatório, o que, somado à eleição deste ano, projeta o Piauí, terra também da cajuína e de sítio arqueológico, à lição de democracia.

Desde a noite de 30 de outubro, o Piauí tem mais uma razão para se orgulhar de sua grandeza histórica e nacional. Além de abrigar um raro sítio arqueológico, de destilar a deliciosa cajuína e ser berço de dois imensos poetas brasileiros, o Piauí foi o estado em que o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva obteve seu melhor desempenho: 76,9% dos votos.

Lula também foi o mais votado no município de São Paulo (53,5%), mas a Pauliceia anda desvairada, após o assassinato de um jovem e o apagamento da prova do crime em Paraisópolis (17.out) e quando o bairro nobre dos Jardins virou pasto para um faroeste tupiniquim com destrambelhada pistoleira neofascista (29.out).

O Piauí veio com vitória acachapante contra o achaque genocida institucionalizado pelo desgoverno que vazou no jato de quatro anos o que havia de pior na cloaca da escória nacional.

O poeta piauiense Torquato Neto se matou há 50 anos, em 10 de novembro de 1972, quanto tinha apenas 28. Como um Orfeu-Ícaro ceifado em pleno voo, o poeta piauiense Mário Faustino morreu em 27 de novembro de 1962, aos 32 anos: perto de aterrissar em Lima (primeira escala), o Boeing da Varig para Los Angeles espatifou-se no Cerro de La Cruz e os destroços foram parar na Ciudad de Dios (Peru). Os dois piauienses tinham uma certa obsessão poética pela morte.

Naturais de Teresina, atuaram como militantes da causa poética em canais populares —transfusores elétricos e sanguíneos de poesia. Armaram suas trincheiras crítico-combativas no jornal, aquela utopia mallarmaica.

Como jornalistas no Rio de Janeiro, fizeram de suas colunas bastiões inventivos, instrumentos de difusão, plataformas propulsoras de polêmica: Faustino (com estudos, resenhas, traduções) em Poesia-Experiência, no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, de 1956 a 1958; Torquato (comentários, notas, poemas) em Geleia Geral, na Última Hora, de agosto de 1971 a março de 1972, de segunda a sábado, com esporádicas exceções.

De talhe clássico, Faustino moldou-se em Ezra Pound (“make it new”), com o lema “repetir para aprender, criar para renovar”. Desbragado tropicalista, Torquato modulou lemas de Décio Pignatari (“geleia geral”) e Sousândrade (“coro dos contentes”) em emblemas atuais e atuantes ainda no século 21. Dando bandeira, ambos acolheram e semearam os grãos do nutrimento de impulso civilizatório pregado pela PC, o partido da Poesia Concreta.

Augusto de Campos escreveu sobre os dois: “Mário Faustino, o Último Versemaker” (1967) e “Como É, Torquato” (1973). Ambos foram editados na coleção “Núcleo de Atualidades” (editora Max Limonad): “Torquato, Neto: Os Últimos Dias de Paupéria” (1982; organização de Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão) e “Mário Faustino: Poesia Completa / Poesia Traduzida” (1985; organização de Benedito Nunes).

Eles viveram a urgência do tempo. Torquato viveu (não tão tranquilamente) “todas as horas do fim” (diz no poema “Cogito”). O único livro publicado em vida por Faustino chama-se “O Homem e sua Hora” (1955).

São dele os versos declamados em agonia pelo também poeta e jornalista Paulo Martins em “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha: “Não conseguiu firmar o nobre pacto / Entre o cosmos sangrento e a alma pura/ […] Tanta violência, mas tanta ternura”. Estão no poema “Balada (em memória de um poeta suicida)”. Uma homenagem por antecipação ao vate confrade piauiense?

Torquato, o bardo atormentado da tropicália, nasceu em 9 de novembro de 1944. Passou uma temporada rimbaudiana no hospício do Engenho de Dentro. É autor de letras de canções como “Ai de Mim, Copacabana”, “Mamãe, Coragem” e “Nenhuma Dor” (musicadas por Caetano Veloso); “Coisa mais Linda que Existe”, “Geleia Geral” e “Marginália II” (musicadas por Gilberto Gil); “Let’s Play That” (música de Jards Macalé); “Pra Dizer Adeus” (música de Edu Lobo), “Todo Dia é Dia D” e “Três da Madrugada” (musicadas por Carlos Pinto).

“Os Últimos Dias de Paupéria” é um livro-constelação, com textos iluminantes sem fronteira de gênero e para além do gênio, de inspiradas crônicas a extraordinários poemas. Cinéfilo e arauto do cinema underground (alô, rapaziada: foi ele quem criou o termo “cinema de invenção”), dirigiu um filme super-8 ímpar (em que também atuou): “Terror da Vermelha” (1972). Como quase-testamento, editou com Waly Salomão a lendária Navilouca (1974), de número único.

Faustino nasceu em 22 de outubro de 1930. Aplicou a erudição com método ideogrâmico à velocidade das rotativas: “Não estamos escrevendo nos papiros da eternidade, e sim no barato papel de um jornal vivo: o que nos interessa é instigar, provocar, excitar, em certas direções, a mente do leitor competente. Preferimos escrever num laboratório a escrever num templo”.

É autor de poemas magníficos, como “Ariazul”, “Cavossonante Escudo Nosso”, “O Homem e sua Hora”, “Inferno, Eterno Inverno”, “Mito”, “Sete Sonetos de Amor e Morte”, “Sinto que o Mês Presente me Assassina”, “Soneto”, “Vida Toda Linguagem”.

Podem “Marginal Poema 15” e “Marginal Poema 19” dialogar com “Marginália II”? Entre tantos, traduziu Dante, Shakespeare, Goethe, Hart Crane e Dylan Thomas. Sua página “Poesia-Experiência” era um programa sincrônico de investigação e criação. Benedito Nunes aponta as influências marcantes de Ezra Pound e Jorge de Lima.

É obrigatório mencionar outro notável jornalista e escritor do Piauí: Carlos Castelo Branco (1920-1993). Com sua longeva coluna no Jornal do Brasil, pontificou como divisa referencial do comentário político. Castelinho, como era conhecido, atuou no último filme (testamento, não só por ser derradeiro) de Glauber, “A Idade da Terra” (1980).

Em 1889, o Brasil declarou-se República, e o Piauí se tornou estado (êta coincidência). O nome deriva do tupi-guarani (ó, a raiz indígena): rio dos piaus ou das piabas. Entre os pratos típicos, estão a paçoca (farinha, carne de sol, coentro, banana), carne de sol, capote (conhecida como galinha d’angola), baião de dois e Maria Isabel (carne cortada em miúdos e misturada com arroz e temperos).

O Piauí é um grande produtor de caju, cujo nome batiza uma iguaria sem igual, quase sinônimo líquido do estado, patrimônio cultural imaterial piauiense: a bebida não alcoólica que intitula a deslumbrante canção de Caetano Veloso em homenagem a Torquato.

“Cajuína” começa com a assombrosa e singela indagação que condena todo ser humano: “Existirmos: a que será que se destina?”. Xote existencialista? Xaxado de perdidos? Baião metafísico? Para desconcertar Wittgenstein e Kierkegaard, os “dois pontos” são a pausa para o salto no abismo do incognoscível.

Torquato cravou a joycena palavra-valise “tristeresina” no texto “Vir Ver ou Vir” (1972) sobre “Terror da Vermelha” (Vermelha é um bairro de Teresina). Depois de 30 de outubro de 2022, caberia arrematar: “Mas que nada”. Glosando Mário de Andrade, pergunta-se “Piá(uí) não sofre?” Claro que sim. Mas podemos também adaptar a máxima de Figueiredo Pimentel (coluna Binóculo, Gazeta de Notícias): “O Piauí civiliza-nos”.

Por falar em civilização: no Piauí, está o Parque Nacional Serra da Capivara, o maior e mais antigo sítio arqueológico das Américas, declarado patrimônio cultural da humanidade pela Unesco em 1991.

Com vestígios de artefatos, ossos e pinturas rupestres e administração do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), estão equacionados o patrimônio cultural e o ecossistema local. É um exemplar bioma (o agora ex-presidente, no último debate antes do segundo turno, falou “mioma”, ato falho sobre o “tumor uterino” de sua própria indecência e indigência).

O avião de Faustino caiu perto das ruínas do sítio arqueológico de Pachacamac. O corpo do poeta não foi identificado, e os despojos estão em um mausoléu em Lima. Ciente da responsabilidade social da poesia, Faustino engajava-se nos processos do mundo. Como seus conterrâneos de 60 anos depois, sabia o lado certo da história e tinha o coração no lado certo (o direito é à esquerda) do peito.

Em 1957, dirigiu-se a jovens poetas: “Que se procure fazer sempre o novo, o válido e que se considere a poesia como insubstituível forma de cultura, da qual depende, em boa parte, a vitalidade da língua, portanto do pensamento, portanto da nação”.

A votação de Lula no Piauí traz razões indeléveis e inalienáveis para o estado se projetar em uma quarta dimensão, para além da poesia e da arqueologia. O ato de eleição é, literalmente, a escolha de uma afinidade eletiva, lição de cidadania e democracia. Que o Piauí seja aqui, agora e doravante. E me desculpem, Shakespeare e Oswald, mas o mote é “Piauí or not Piauí —eis a questão”.

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