‘The Crown’: Filha de operário e cabeleireira, atriz pavimentou caminho até virar rainha Elizabeth 2ª – 17/11/2022 – Cinema e Séries

‘The Crown’: Filha de operário e cabeleireira, atriz pavimentou caminho até virar rainha Elizabeth 2ª – 17/11/2022 – Cinema e Séries


Londres


The New York Times

Não é preciso chegar nem à metade da nova temporada de “The Crown”, que estreou na semana passada na Netflix, para ver a rainha Elizabeth 2ª, interpretada por Imelda Staunton, sendo agressivamente confrontada, em sucessivos diálogos, por quase todos os membros de sua família imediata. Seus três filhos mais velhos querem divórcios; sua irmã, a princesa Margaret, ainda está zangada com ela por a rainha ter proibido seu casamento com Peter Townsend, um homem divorciado, 40 anos antes. E até sua mãe a repreende por falta de estoicismo.

Ao longo de todos esses encontros, a câmera frequentemente se detém no rosto de Staunton, enquanto a pessoa que está diante dela despeja palavras passionais. Sua expressão é neutra, seus traços quase imóveis, mas a dor e a angústia emocional da rainha ficam claras quando ela ouve de cada um de seus interlocutores que a culpa pelas disfunções da família cabe a ela.

“É uma aula magna de atuação”, disse Peter Morgan, criador de “The Crown” e roteirista de quase todos os episódios da série. “Ao ser incrivelmente simples, ela consegue ser incrivelmente complexa.”

Elizabeth tem que manter seu equilíbrio o tempo todo, disse Staunton em uma recente entrevista por vídeo, após um dia de trabalho nas gravações da sexta temporada da série. “Ela precisa garantir que todos aqueles que a cercam saibam que ela é estável, e não falar sobre seus sentimentos, algo que ela de qualquer forma não tem desejo algum de fazer. Mas isso não significa que ela não tenha sentimentos”, disse a atriz. “Não tenho qualquer perspectiva sobre a maneira pela qual a estou interpretando, mas por dentro fica muito claro para mim a pessoa que ela é.”

Lesley Manville, que interpreta a princesa Margaret na temporada cinco e a interpretará na temporada seis, a última da série, aprecia a abordagem de Staunton. “Imelda e eu fomos informadas praticamente ao mesmo tempo que faríamos os papéis”, ela disse, acrescentando que a dupla fez “muita preparação, muita pesquisa, aprendemos nossas falas e pensamos no que iríamos fazer. E aí, quando chega o dia de gravar, você pode se deixar relaxar, confiar em seus instintos e trabalhar com base nas reações da pessoa com quem divide a cena. Sem a menor dúvida, as cenas que fiz com ela foram as mais emocionantes”.

Staunton, 66, tem uma carreira longa e bem-sucedida tanto nos palcos quanto nas telas. Seus trabalhos mais conhecidos do público de cinema são provavelmente o papel título de “O Segredo de Vera Drake”, de Mike Leigh, pelo qual foi indicada ao Oscar, e o da deliciosamente maléfica Dolores Umbridge, que ama gatinhos, nos filmes de Harry Potter. Nos palcos, ela recebeu prêmios e elogios por uma uma ampla variedade de musicais e dramas.

Mas interpretar o papel central em “The Crown”, uma série assistida, aclamada e muito debatida em todo o mundo, que acompanha o reinado da rainha Elizabeth 2ª e retrata a família real diante do quadro mais amplo da história social e política britânica, provavelmente mudará tudo isso.

“Eu acho que ‘The Crown’ é a estrela”, disse Staunton, diplomaticamente, quando lhe perguntei como ela se sentia sobre a atenção que receberia pelo papel. “Somos todos peças desse brilhante quebra-cabeça.”

Ainda assim, a Elizabeth de Staunton serve claramente como centro de gravidade da temporada cinco, cuja história começa em 1991 e termina em 1997, quando o Partido Trabalhista de Tony Blair conquista uma vitória eleitoral esmagadora e anuncia a chegada de uma nova “Cool Britannia”. Ao longo do caminho, ocorrem as dificuldades conjugais e, por fim, o divórcio entre Charles (Dominic West) e Diana (Elizabeth Debicki), a infame gravação de Charles e Camilla (Olivia Williams), e a entrevista de Diana a Martin Bashir (Prasanna Puwanarajah), na BBC.

Como sempre em “The Crown”, essas revelações pessoais são apresentadas diante de forças históricas mais amplas: uma recessão econômica sob um governo conservador liderado por John Major (Jonny Lee Miller); o debate público sobre o papel da monarquia; a erosão do comunismo na Rússia de Boris Ieltsin; e, na psique britânica, o abandono sutil do estoicismo em benefício do culto da personalidade e da expressão pessoal, tal como personificado por Diana.

Em entrevista por telefone, Morgan disse que “obviamente havia a questão de Helen Mirren para essa parte final da série”. (Mirren conquistou um Oscar como melhor atriz por interpretar Elizabeth 2ª em “A Rainha” (2006), filme roteirizado por Morgan, e em seguida interpretou novamente a monarca na peça “The Audience”, de Morgan, em 2013, que serviu como inspiração para “The Crown”.)

Mas ele e Mirren chegaram à conclusão, disse Morgan, de que “seria bom ter alguém diferente”. A partir daquele momento, ele acrescentou, “só restava uma pessoa na disputa. Imelda foi ideia minha. Ela tem uma acessibilidade, um aspecto de mulher comum, que ajudam muito nesse papel. Há vulnerabilidade e força misturadas, um lado majestoso que ela transmite com tranquilidade, mas ainda assim nenhuma pompa”.

Staunton cresceu no norte de Londres, como filha única de imigrantes irlandeses; seu pai era operário e sua mãe cabeleireira. Ela foi encorajada por seu professor de teatro a fazer uma audição para um curso de teatro, e foi aceita, aos 17 anos, pela Royal Academy of Dramatic Arts, onde passou dois anos “absorvendo tudo, como uma esponja”. Seguiram-se anos de teatro de repertório em todo o país, “fazendo peças horríveis, peças excelentes, hospedada em lugares péssimos, mas sempre muito feliz por fazer o que eu estava fazendo”, ela disse.

A mudança veio quando o diretor Richard Eyre a contratou para uma produção teatral de “Guys and Dolls”, em 1982, que ganhou destaque nacional; foi naquele trabalho que ela conheceu seu futuro marido, o ator Jim Carter (conhecido por milhões de pessoas como Mr. Carson, o mordomo de “Downton Abbey”). Papéis maiores não demoraram a surgir; em 1985, ela ganhou um prêmio Laurence Olivier por suas atuações em “The Corn Is Green” e “A Chorus of Disapproval”, e começou a conseguir papéis no cinema e televisão regularmente.

Mas o cinema, disse Staunton, “não existia realmente para mim antes de Mike Leigh e ‘O Segredo de Vera Drake’. Foi o papel da minha vida; com Mike, não existe roteiro, mas sim seis meses de criação e desenvolvimento de um personagem desde o dia em que este nasceu. Foi a coisa mais satisfatória que já fiz, e um trabalho muito fácil”.

Em entrevista por telefone, Leigh, que dirigiu o filme de 2004, disse que Staunton “foi incrível ao manter aquele volume absurdo de improviso e de experimentação que fazemos e em mergulhar fundo na personagem, explorando-a com muita empatia e descobrindo camadas de verdade emocional”.

“O Segredo de Vera Drake”, no qual ela interpreta uma mulher da década de 1950 que realiza abortos ilegais, foi um projeto crucial para Staunton, lhe trazendo papéis de maior destaque tanto no cinema quanto no teatro. De lá para cá, ela teve desempenhos brilhantes nos palcos em diversos musicais de Stephen Sondheim (“um dos melhores trabalhos que já vi no teatro musical”, escreveu Michael Billington no jornal The Guardian sobre a interpretação de Staunton em “Gypsy”), e também em peças de sucesso, como “Quem Tem Medo de Virginia Woolf”, de Edward Albee.

Conleth Hill, que contracenou com Staunton em “Quem Tem Medo de Virginia Woolf”, disse que a “dedicação e atenção da atriz ao seu papel, e sua generosidade para com todos, fazem com que qualquer pessoa que trabalhe com ela se torne melhor. Ela me cobrava certas coisas, se bem que não de uma forma agressiva, e sempre tinha razão”.

Staunton disse que ficou assustada quando lhe foi oferecido o papel de rainha, mas “sabia que eu tinha que fazê-lo”. Ela teve muito tempo para se preparar, disse a atriz, e trabalhou com um preparador vocal, começando em 2019, além de ler sobre a rainha, conversar com pessoas que a conheciam e assistir ao máximo possível de vídeos e filmes sobre Elizabeth. “É como no caso da música: você precisa aprendê-la um ano antes para que esteja em seu corpo”, ela disse.

A avaliação de Staunton sobre a rainha foi a de que “não havia uma grande diferença entre o espaço público e o privado”, disse Jessica Hobbs, que dirigiu os dois primeiros episódios da temporada cinco. “Há uma segurança, uma compreensão do comprometimento que o papel de monarca exige e de como isso definiu a pessoa que ela é em sua vida interior.”

Qualquer retrato da rainha Elizabeth 2ª receberá atenção ainda mais intensa depois da morte da monarca, em setembro. No dia em que a rainha morreu, Staunton estava filmando a última temporada, o que ela descreveu como “uma experiência estranha”. Felizmente, disse a atriz, houve uma pausa de 10 dias imediatamente depois.

“Acho que isso afetou a maneira pela qual as pessoas falam de ‘The Crown’, e elas, talvez compreensivelmente, sentem uma necessidade de proteger a família real”, disse a atriz, aludindo às reclamações constantes na imprensa britânica sobre a exatidão histórica, as linhas de desenvolvimento do roteiro e os personagens. “Tudo que posso dizer é que tentamos fazer o trabalho com a maior integridade e respeito que podemos.”

Discutindo as objeções, Morgan disse que “ao contrário do que o The Daily Mail sugere, sinto muita responsabilidade ao escrever sobre isso, quase como um historiador”. Ele acrescentou que “à luz da morte da rainha, é fácil para nós canalizar para Imelda o imenso afeto que tínhamos por ela”.

Morgan disse que Staunton era a pessoa perfeita para interpretar a rainha em um momento tão delicado. “Todos estão com saudade da rainha, e você tem alguém que é amado nesse papel”, ele acrescentou. “Há uma sinergia nisso.”

Tradução de Paulo Migliacci

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