Testei positivo para anglicismo – 12/01/2022 – Sérgio Rodrigues


O fenômeno teve início alguns anos antes, mas a pandemia de Covid deu o empurrão que faltava para espalhá-lo pelo mundo, língua atrás de língua: a construção “testar positivo (ou negativo)”, com essa sintaxe importada do inglês, é mais contagiosa do que a ômicron.

Eu já sabia disso em tese, mas só depois de testar positivo para Covid, domingo passado, compreendi melhor a questão. Dar a notícia a um monte de gente –por escrito ou por telefone, meu isolamento é total– me fez ver que, entre outros parangolés como o imperialismo linguístico, está em jogo a economia expressiva.

Ah, o abismo entre “testei positivo” (construção decalcada do inglês) e “fiz um teste e o resultado foi positivo” (construção respeitosa da sintaxe portuguesa) não parece tão grande?

Talvez seja porque você respira normalmente. Eu mesmo só passei a dar valor às seis palavrinhas a menos depois que precisei introduzir uma pausa entre “bom” e “dia” para recobrar o fôlego.

Como, na escrita, metade do segredo é a respiração, a funcionalidade de uma fórmula sucinta como “testar positivo” vai além da oralidade –a ponto de, como parece ser o caso, acabar falando mais alto do que o impulso de conservação das estruturas vernaculares.

Os fazedores de manchete, gente de fôlego curtíssimo, não recebiam uma notícia tão boa desde que Fernando Henrique Cardoso virou FHC.

Entendo quem implica com o anglicismo. Eu mesmo o evitei por quase dois anos, até… testar positivo. Menos do que defendê-lo, a ideia desta coluna é apontar algo que parece se impor a cada vez mais falantes.

Nas palavras do linguista Marcos Bagno, num esclarecedor artigo do início da pandemia, “o certo é que estamos diante de um fato, de algo que está ocorrendo na língua, e o papel do cientista é tentar compreender e explicar fatos. O destino da construção ‘Ela testou positivo’ (…) independe das opiniões pessoais do investigador”.

Não seria a primeira vez que uma importação desse tipo derrotaria os manuais. Nem a milésima. Em 1938, em seu livro “Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa”, o filólogo português Vasco Botelho de Amaral condenava, entre centenas de expressões, “dar-se conta”.

“Deve-se evitar este galicismo”, explicava, “deixando de traduzir à letra o francês ‘se rendre compte d’une chose’, que se verte por ‘compreender, perceber, notar uma coisa’.”

Ninguém precisa ser estudioso para se dar conta de que o zelo de Amaral foi atropelado pela história. “Dar-se conta”, tradução literal do francês, era uma expressão desnecessária e sem lastro em nosso idioma? Era. Adotada em massa, deixou de ser. Assim caminham as línguas.

Sim, estamos em terreno difícil –mais do que polêmico, o tema é escorregadio, movediço. No fundo há uma única diferença entre o modismo estrangeirista bocó e o estrangeirismo que, maneiro e fecundo, logo deixa de ser percebido como tal: este pegou, aquele não.

Se a coisa parece um tanto amoral, é porque é mesmo. Só o tempo –que neste momento, por definição, ainda não passou– dirá se o vírus chatinho do “é sobre isso” vai sair de cena sem deixar marcas ou se, ai de nós, “endereçar um problema” deixará algum dia de soar como pérola cômica da jequice corporativa.

Nada nos impede de torcer por vitórias e derrotas, claro. Na verdade, além de observar e, naturalmente, adotar ou rejeitar isso ou aquilo no âmbito sacrossanto de nossa própria fala, torcer é só o que nos resta.


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