Ser simplesinha, boazinha e meiguinha: quanto vale um sufixo – 26/02/2022 – Thaís Nicoleti

Ser simplesinha, boazinha e meiguinha: quanto vale um sufixo – 26/02/2022 – Thaís Nicoleti


Nossa língua é mesmo cheia de sutilezas. Às vezes, para transformar uma qualidade em defeito, basta acrescentar um sufixo de diminutivo. Quem tiver lido a última coluna de Mirian Goldenberg na Folha, que tratava da ação perniciosa dos “fofoqueiros de plantão”, já terá entendido o título deste artigo.

A articulista conta ter recebido um telefonema de uma colega dada a pedir-lhe pequenos favores, que talvez não sejam tão pequenos quanto gostaria de fazer parecer, e que a conversa se estendeu até que a outra lhe contasse uma “fofoca de um terceiro”. Muito bem: é aí que chegamos ao primeiro dos adjetivos do título.

O referido “terceiro” teria dito, segundo a fofoqueira: “[ele] disse que você é muito simplesinha, fala de um jeito muito acessível e popular”. É nítido que é o sufixo “-inha” que carrega o sentido pejorativo do termo “simplesinha”.

É bom observar que aumentativo e diminutivo são graus do substantivo, daí não podermos propriamente atribuir esse grau a um adjetivo. Adjetivos têm graus também, que são o comparativo e o superlativo. Este último responde pela intensificação do adjetivo (muito simples, simplíssimo).

Ao deslocarmos o sufixo de diminutivo para um adjetivo, sempre obtemos algum tipo de efeito expressivo, que, embora não necessariamente, muitas vezes é pejorativo. A explicação que se seguiu ao termo “simplesinha” é, no caso, bastante reveladora. Mirian seria “simplesinha” porque “fala de um jeito muito acessível e popular”, ou seja, ela escreve de modo simples, o que, diga-se de passagem, é um grande desafio que muita gente no meio acadêmico se furta a enfrentar, imaginando que dificultar a compreensão de uma ideia a torne em si mais complexa. Ser simples pode ser bem mais difícil que ser “complicado”, pois demanda revelar o modo como se raciocinou para chegar a determinada ideia – mas isso é tema para outro artigo.

Depois de dizer que um terceiro a tachou de “simplesinha”, a colega engatilhou mais dois “-inhas” por sua conta: “Eu sinto inveja do seu sucesso porque você é famosa e está sempre na mídia. Você fez algum curso de querida? Você é tão boazinha e meiguinha, todo [o] mundo gosta de você. Como você consegue nunca brigar com ninguém?”.

“Com certeza ser ‘boazinha e simplesinha’ não é um elogio em um mundo de pessoas que exibem seus títulos e currículos como sinais de superioridade intelectual”, diz Mirian em seu artigo – e ela tem razão. Quando dizemos que determinado professor é bom, entendemos que é competente no que faz, mas, quando dizemos que é “bonzinho”, estamos falando de seu comportamento afável e inofensivo, o que pode ser um demérito ou, no mínimo, uma fraqueza.

O sufixo “-inho”, mesmo quando associado a substantivos, pode carregar o sentido depreciativo, embora haja uma espécie de zona cinzenta, a qual pode determinar, pelo menos, a intenção de quem falou. É a isso que chamamos de contexto.

Veja-se o caso de uma palavra como “livrinho”, diminutivo de “livro”. Caso usemos o termo em referência ao tamanho do objeto (um livro de bolso, por exemplo, ou um livro de poucas páginas), não haverá sentido pejorativo, mas nem sempre é assim que se emprega o termo. Se o diminutivo estiver associado ao conteúdo do livro, certamente o sentido será negativo (por exemplo: “Ele escrevia uns livrinhos de astrologia”, “Ela só escreveu um livrinho de autoajuda”, em que se percebe que o falante deprecia a astrologia e a autoajuda).

Que dizer da “professorinha” da canção de Ataulfo Alves, que lhe ensinou o bê-á-bá e tanta saudade lhe deixou? E da “Mariazinha”, seu primeiro amor? Na canção, o eu lírico instaurado pelo poeta é um homem adulto que relembra a infância. Os diminutivos, nesse caso, podem estar associados à visão do adulto em relação à infância, já que a distância deixa tudo menor (“Aos domingos, missa na matriz/ Da cidadezinha onde eu nasci/ Ai, meu Deus, eu era tão feliz/ No meu pequenino Miraí”).

Há sufixos de diminutivo, porém, que sugerem de saída o sentido pejorativo: um “jornaleco”, por exemplo, não tem como ser coisa boa (um jornalzinho de bairro, no entanto, pode ser muito interessante, mesmo sendo pequeno). Não foi outro o motivo de certo juiz midiático já ter sido chamado de “juizeco de primeira instância” – foi para ofender mesmo.

Por outro lado, muita gente simpática – e jovem, é claro – adotou as formas “senhorzinho” e “senhorinha” para se referir a pessoas, digamos, velhas. Parece um modo muito carinhoso de tratar os velhos, que, coitados, merecem todo o respeito. Esse adjetivo “coitados” jamais é formulado, mas está na base na escolha do sufixo, que denota fragilidade, perda da capacidade física e mental. Há casos em que essas pessoas chegam a ser infantilizadas em frases do tipo: “Ponha o bracinho aqui”; Pode ficar sentadinha aqui”; “A senhora quer uma aguinha?”.

Não podemos esquecer, é claro, que temos uma forte tendência ao uso dos diminutivos no dia a dia (um minutinho pode ter menos de 60 segundos ou muito mais; um “favorzinho” pode ser um “favorzão”; uma cervejinha ou um cafezinho podem ser uma gorjeta – e por aí vai). É fato, porém, que é comum acrescentar o sufixo de diminutivo àquilo que já é, em essência, pequeno. Fazemos isso até sem perceber – “Já pôs na mala o shortinho azul?”; “Eles tem um bebezinho em casa”; “Isso é um trabalho de formiguinha” – em situações nas quais o sufixo não acrescenta ideia de redução de tamanho, mas enfatiza o tamanho reduzido.

Talvez seja por isso que se ouça, eventualmente, pessoas se referirem a um anão no diminutivo (“O funcionário que me atendeu foi anãozinho”). Embora a intenção não seja ofender a pessoa de baixa estatura em razão de nanismo, o sufixo infantiliza uma pessoa adulta, o que, convenhamos, é inadequado. Nesse sentido, temos o mesmo problema do “senhorzinho” e da “senhorinha”, que são uma espécie de eufemismo, aquele tipo de volteio de linguagem que visa a suavizar uma expressão tida como pesada ou grosseira, como se a idade avançada fosse motivo de vergonha.

Uma coisa é certa: na maior parte das vezes, os sufixos de diminutivo dão expressividade à linguagem, carregando conotações positivas ou negativas. Os adjetivos “simples”, “bom” e “meigo” saíram do registro positivo de qualidades e desceram ao inferno da maledicência por obra de um sufixo.

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