Roberto Schwarz recria Dilma, Lula e Bolsonaro em peça que desnuda Brasil em pandarecos – 12/03/2022 – Ilustríssima

Roberto Schwarz recria Dilma, Lula e Bolsonaro em peça que desnuda Brasil em pandarecos – 12/03/2022 – Ilustríssima


[RESUMO] ”Rainha Lira”, peça inédita do crítico literário Roberto Schwarz publicada em livro pela editora 34, recria em tom alegórico a crise política brasileira dos últimos 10 anos, assim como as figuras públicas de Lula, Bolsonaro e Dilma, zombando de direita e esquerda. Inspirada em Shakespeare e Brecht, a trama se passa em um reino que se esfarela com protestos populares, golpismo e criminalidade.

O teatro foi a arena escolhida pelo crítico literário Roberto Schwarz, 83, para pensar o retrocesso político do Brasil na última década, sem aliviar sua crítica à direita e à esquerda. O autor dos clássicos estudos “Ao Vencedor as Batatas” e “Um Mestre na Periferia do Capitalismo: Machado de Assis” lança neste mês a peça “Rainha Lira”, pela editora 34, ainda sem previsão de montagem. É a sua segunda incursão na literatura dramática.

Em 1977, Schwarz satirizou as figuras grotescas da ditadura militar na peça “A Lata de Lixo da História”, que adaptava a novela “O Alienista”, de Machado, em seu exame do ambiente de loucura, delação e terror no país. Definida como chanchada política e lançada no início da abertura do regime, ela começou a ser criada, em verdade, pouco antes do AI-5, decretado em dezembro de 1968, e da partida de Schwarz para o exílio.

“Rainha Lira” surge em outro momento de abalo da democracia, ascensão da extrema direita, derrota da esquerda e desfile de governantes caricaturais. Sua escrita se deu entre 16 de novembro de 2015 e julho de 2021, absorvendo os impactos dos protestos de 2013, com sua aparência de convulsão social, do impeachment de Dilma Rousseff, da prisão de Luiz Inácio Lula da Silva e da vitória de Jair Bolsonaro. Roberto Schwarz decidiu não conceder entrevistas no lançamento do livro.

A peça joga com situações de “Rei Lear”, obra da fase madura de Shakespeare, em que o rei ancião da Grã-Bretanha reparte o reino entre suas três filhas, sendo traído por duas delas.

No Brasil (ou Brazul), a Rainha Lira convive com suas três filhas —Valentina, guerrilheira; Austéria, de “gosto pela finança”; e Maria da Glória, “um legítimo coronel de saias”, fazendeira com talento para conchavos. “Eu sou a Rainha Lira da Brazulândia. Tenho três filhas amadas, que se detestam, com as quais vou reerguer o meu país que está afundando”, ela anuncia. O reino se esfarela com protestos populares, golpismo e criminalidade.

Dilma, Lula e Bolsonaro são figuras recriadas pela ficção, mas os personagens Rainha Lira, Rei e Coiso vão além das marcas de personalidade e concentram impasses históricos. Na panorâmica de dramaturgo, o crítico retoma questões discutidas em seu ensaísmo, como a aposta da elite liberal na política do porrete e os traços arcaicos da modernidade brasileira.

Na sala do palácio, Fidelino, ex-comunista convertido ao mundo financeiro, confabula com o ministeriável Conselheiro Alves. “A minha ciência econômica não serve para nada se eu não souber de véspera as decisões do governo. Um banqueiro de primeira linha não pode apostar às cegas como um pato”, defende Fidelino. “Eu é que ando com pesadelos. Se a rainha não der um chega-pra-lá na polícia, meu filho inteligente será preso. E o honesto não vai dar conta do recado”, reage Alves.

A personalidade confusa da monarca merece o sarcasmo do Bobo. “Eis a rainha Ziguezague, também conhecida por Zaguezigue, que só entra para sair e só sai para entrar. Se ela dá um passo à esquerda, é porque vai para a direita. Se der um passo para trás, sai da frente porque vai avançar. De coração é revolucionária, por experiência é ressabiada, mas não completamente, o que atrapalha tudo. Indecisão é com ela mesmo.”

Na peça de 16 atos, as falas longas à la Tchekhov convivem com a influência do teatro dialético de Brecht na orquestração de argumentos e movimentos amplos da sociedade. Schwarz constrói quadros da crise política brasileira e zomba da desconexão dos palácios com as ruas, da cacofonia discursiva da esquerda, do descaro da direita e da incongruência ideológica de personagens da vida pública.

Ele fustiga ainda o consumismo atrelado à ascensão social, as relações promíscuas do Estado com o setor privado e a irrelevância dos esclarecidos na virada antidemocrática. O capital, este deus acima de todos, é um dos braços da repressão. “Como ensina Karl Marx, a injustiça é muito grande e não se sustenta se não for a pau”, Fidelino pontifica.

Na revisão do país, Schwarz esquadrinha o avanço das milícias e do banditismo político dos anos Bolsonaro, um cenário ainda não explorado em sua obra ensaística. Da terra devastada, surge a liderança miliciana do Coiso, síntese do bolsonarismo. Em uma das passagens mais saborosas, um chefão da favela invade o palácio com seus apaniguados e dialoga com a Rainha Lira e as princesas, que se espantam com o grau de organização dos criminosos.

Pouco depois de listar seus serviços à comunidade —”gás de cozinha ilegal, gato na eletricidade, televisão a cabo, ligação de internet, transporte escolar da criançada, quadra esportiva”, além do comércio de drogas—, o chefão desloca o lugar da delinquência. “Quer dizer então que os bárbaros somos nós? Na maior caradura, vocês nos deixaram ao deus dará, morando em buracos, sem trabalho nem comida, para não falar em salário e aulas de português. Deve ter sido a missão civilizatória do homem branco.”

Uma análise áspera do Brasil das milícias aparece no discurso do chefão. “Vocês ouviram falar em dualidade de poderes? É uma ideia da esquerda revolucionária, que estou reciclando pela direita. Segundo os comunistas, haveria um momento em que os trabalhadores, à margem da lei, sem pedir licença, pela força das coisas, por serem numerosos —como nós agora—, ganhariam peso a ponto de governar a marcha da sociedade, deixando os proprietários pendurados na brocha. É exatamente o que estamos fazendo, só que em lugar de socialismo nós vamos implantar o condomínio do medo.”

Schwarz apresentou “Rainha Lira” ao diretor teatral Sérgio de Carvalho, da Companhia do Latão, que, sem demora, manifestou o desejo de encená-la no segundo semestre deste ano, em São Paulo. “A peça é um acontecimento mobilizador de debates, uma tentativa de pôr em chave negativa todos os problemas recentes da política, retomando a ideia do progresso à brasileira, que é aquele que aprofunda a escravidão. A inscrição na modernidade vem em cima do retrocesso. Todos somos funcionários do capital, mesmo no campo da esquerda”, avalia Carvalho.

“O texto pode ser encenado como uma grande assembleia. Começa no palco e tem que acontecer fora dele”, acrescenta o diretor, que levou a ideia ao Sesc-SP. De laços antigos com Schwarz, sobretudo no diálogo sobre Brecht e o teatro épico, Carvalho pensa em uma montagem com “muitos atores, não só atores profissionais, mas pessoas da vida pública”.

As atrizes Fernanda Montenegro e Fernanda Torres são outras leitoras de primeira hora da peça. Montenegro reconheceu nela uma retomada de questões do Teatro de Arena. Torres, sua filha, também se entusiasmou com o retrato insolente do país em pandarecos.

“É uma espécie de ópera bufa e me lembrou ‘O Rei da Vela’. É um panorama do Brasil de 2013 para cá. Estamos todos perdidos, todo mundo em um Titanic afundando, a esquerda e a direita, cada uma com sua visão do caos”, afirma Fernanda Torres, colunista da Folha, destacando a “ironia brechtiana” do texto de Schwarz. “O povo diz que os estudantes não o representam, cada um fica em seu nicho. E um nicho não dialoga com o outro”, observa. “O Brasil está muito careta. Todos os dias a gente leva uma surra da realidade. Roberto conseguiu fazer uma peça à altura deste momento.”

Torres segue disposta a participar de uma futura encenação. “Eu queria muito fazer, não um podcast, mas um radioteatro. Ela é uma peça com muitos personagens, quase um musical da Broadway. Como é difícil no mundo encontrar um espaço para produzir algo nesse nível, muito difícil encontrar um lugar que produza algo dessa dimensão e dessa ironia, busquei muitas portas para tentar uma gravação disso. Foi muito difícil. Não consegui.”

Na gravação planejada, com sons de passeatas e bombas, Montenegro faria o papel da Rainha, Torres seria uma das três filhas e a Companhia do Latão integraria a trupe.

Um regresso aos ensaios de Roberto Schwarz sobre o teatro enriquece a leitura de sua obra dramatúrgica. Com domínio da língua alemã e frequentador do círculo intelectual do crítico Anatol Rosenfeld, ele se aproximou, ainda na juventude, da obra de Bertolt Brecht.

Em 1968, traduziu “A Vida de Galileu”, encenada pelo Teatro Oficina, e “A Exceção e a Regra”, montada pelo Tusp (Teatro da USP). Em 1982, seria a vez de “A Santa Joana dos Matadouros”, cujos trechos traduzidos aparecem no livro “Que Horas São?”, de 1987. O prefácio da segunda edição de “A Lata de Lixo”, relançada pela Companhia das Letras, em 2014, expõe sua crítica ao atraso brasileiro na criação teatral.

Suas reflexões teatrais incluem ainda “Altos e Baixos da Atualidade de Brecht”, comentário feito após a leitura pública de “Santa Joana” na Companhia do Latão, e “Cultura e Política“, seu clássico ensaio sobre a cultura brasileira de 1964 a 1969, no qual abordou os limites estéticos do Teatro de Arena e do Teatro Oficina durante a ditadura militar.

O segmento teatral de “Cultura e Política” apresenta questões que também norteiam a “Rainha Lira”, como as diferenças de interesses em movimentos de massa e os riscos da representação demagógica do povo.

Na peça de Schwarz, numerosos personagens ecoam a polifonia das passeatas, com seus choques de visões e divergências de pautas, das mais chulas às revolucionárias —”O povo tem direito a geleia”, “Morte ao comunismo! Os cacarecos que temos são sagrados e ninguém vai nos tirar!”.

“Essa multidão imensa, nunca vista, memorável, histórica, precisa urgente de um cursinho de marxismo”, ironiza a professora Vera. A derrota da esquerda, tema delicado no Arena pós-1964, é enfrentada com humor ácido em “Rainha Lira”. A pena da galhofa, aliás, favorece o distanciamento brechtiano dos personagens.

O crítico admite a influência do deboche do modernista Oswald de Andrade com o Brasil, mas, além do “Rei da Vela” encenado pelo Oficina, tanto “A Lata de Lixo” como “Rainha Lira” dialogam com a abordagem do caos, da cacofonia, das tensões de classes sociais e dos entraves à revolução no filme “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha, um dos eventos estéticos centrais na erupção do movimento tropicalista, no final da década de 1960.

O olhar tropicalista sobre o Brasil, relevante para a geração de Schwarz, não deixa de ser uma forte referência para o painel demolidor de “Rainha Lira”. Em 2014, em uma conversa com Schwarz sobre “A Lata de Lixo”, em seminário internacional de teatro organizado pela Companhia do Latão, Sérgio de Carvalho questionou o crítico sobre a presença de “certa atitude tropicalista” na estrutura da peça, “em que o lado do atraso se dá no plano do assunto crítico, e o lado moderno, em uma performatividade da linguagem”. E provocou: “O maior dos críticos ao tropicalismo, quando se torna artista, não é também um pouco tropicalista?”.

Roberto Schwarz reconheceu então seu interesse por essa dualidade, mas afirmou que a explorou “como problema, e não como uma essência nacional ou algo positivo”. Apesar do universo em comum, ele ressaltou as diferenças com a tropicália. “Diria que a minha peça compartilha certo ambiente com o tropicalismo, uma certa combinação de tempos e dissonâncias, além da estridência, mas conservando em relação a elas uma atitude racional e distanciada, e nesse sentido ela é antitropicalista”.

No último ato de “Rainha Lira”, a representação de Lula despe o que houve de farsa em sua prisão e reconhece seu papel de negociador, mas também traz uma nota de incerteza sobre o destino de seu mito.

“Vocês conheceram as minhas meninas, agora vou falar de meu pai. O reinado dele foi para lá de brilhante”, introduz a Rainha Lira, que relembra a melhora da vida dos pobres e, ao mesmo tempo, os ganhos incessantes dos ricos. “Papai parecia a prova viva de que no trópico o impossível era possível, e mais, possível a baixo custo, sem grandes traumas.”

“O clima virou, e o que era bonança se transformou em descontentamento. Agora, para que os ricos não parassem de enriquecer, os pobres tinham que empobrecer; o dinheiro não chegava mais para todos. Em dois tempos, a paciência de uns com os outros desapareceu, e papai, que era candidato certo a prêmio Nobel da Paz, foi posto na cadeia como um malfeitor. Na cadeia, para que a ordem reinasse. O país quase paradisíaco, exemplo de progresso para o mundo, voltava a ser o lamaçal de irresponsabilidade, barbárie e epidemias que sempre havia sido.”

Em novembro de 2019, depois de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-presidente Lula deixou a cadeia em Curitiba. Com a notícia da soltura, Schwarz escreveu o final da peça, “A Segunda Aclamação do Rei”, aberto pela marchinha “Retrato do Velho”, de Haroldo Lobo e Marino Pinto, marco da vitória de Getúlio Vargas na eleição de 1950: “Bota o retrato do velho outra vez/ Bota no mesmo lugar”.

Em um monólogo, antes de ser solto pelo carcereiro, o Rei medita. “Só eu neste país converso com todos, dos humildes aos graúdos, da esquerda à direita, dos operários aos patrões, dos brancos aos pretos, do interior às capitais, dos ignorantes aos economistas, dos gays ao presidente dos Estados Unidos. É óbvio que, comigo trancado na cadeia, não tem negociação nacional possível. Aliás, quando me fecharam aqui, foi exatamente para acabar com a negociação. Bateu neles a saudade da escravidão”, ele afirma. “Para minha glória e vexame dos que mandaram me prender, serei convocado —sem ter ideia do caminho.”

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