Profecia de Stephen Hawking sobre futuro da ciência hoje soa irreal – 23/10/2022 – Ilustríssima

Profecia de Stephen Hawking sobre futuro da ciência hoje soa irreal – 23/10/2022 – Ilustríssima


[RESUMO] Ao proclamar que a ciência deste século seria da complexidade, Stephen Hawking apontou a importância de compreender fenômenos resultantes de interações em sistemas intricados, mas o declínio desse campo de pesquisas mostra que o físico pode ter subestimado os fatores que se interpõem ao cumprimento de sua profecia.

Stephen Hawking proclamou que a ciência deste século será a da complexidade, profecia que parece se confirmar em muitos sinais de entusiasmo. Somente no mês de julho, esta Folha ofereceu dois ótimos exemplos.

No dia 2, o filósofo australiano Peter Godfrey-Smith, entrevistado sobre a recém-lançada tradução de seu último livro, Metazoa (Todavia), ressaltou a necessidade de mais pesquisas sobre a “complexidade” oculta na vida dos animais.

Duas semanas depois, a noção foi usada 14 vezes no artigo “Como seria a vida se não houvesse mais natureza”, da jovem zoóloga Lauren Holt, do Centro para o Estudo do Risco Existencial, da Universidade de Cambridge.

Por que ambos usam esse termo? É que, do sistema imunológico ao mercado, passando por um cérebro ou por um formigueiro, não faltam fenômenos nos quais amplas redes auto-organizadas fazem emergir —mediante simples esquemas operacionais e sem qualquer controle central— sofisticados comportamentos e tratamento de informações. Além disso, a maior parte de tais conjuntos tem capacidade adaptativa, seja por evolução, seja por aprendizado.

Esta talvez seja a mais concisa resposta à interrogação sobre o significado da complexidade, mas há muitas outras, que certamente respondem melhor às muitas preocupações disciplinares.

Mesmo assim, quase sempre se referem a interações que levam a comportamentos não lineares de intrincados sistemas adaptativos que, longe do equilíbrio, tanto podem se manter relativamente estáveis quanto se mostrar capazes de gerar oscilações abruptas, explosão de bolhas, crashes, convulsões e colapsos.

A grande dúvida é se os estudos sobre tais interações estão avançando tanto quanto o esperado por Hawking ao lançar sua profecia sobre o que, hoje, parece mais preciso chamar de novas ciências da complexidade.

Um indicador pode ser a trajetória acadêmica de John Sterman, diretor do Grupo de Sistemas Dinâmicos do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e autor do premiado best-seller “Business Dynamics”, já beirando as 20 mil citações no Google Acadêmico.

Há um nítido contraste temático entre sua produção anterior e posterior aos primórdios dos anos 2000. O pesquisador abandonou qualquer novo esforço em teorizar sobre sistemas complexos para se devotar a propostas pedagógicas no âmbito da urgência climática e da sustentabilidade. É de sua autoria, aliás, o simulador de soluções En-ROADS, que tanto tem ajudado nas negociações da Convenção do Clima.

Cabe perguntar se seria fortuito ou fato isolado tal giro no trabalho acadêmico de Sterman. Será que tamanha redução de interesse em eventuais avanços teóricos sobre sistemas complexos não refletiria um fenômeno mais amplo, como uma espécie de decadência das próprias “ciências da complexidade”?

Aparentemente, ao menos até 2009, não haveria motivos para se falar em descenso. Foi quando a Editora da Universidade de Oxford lançou um excelente livro sobre o assunto, “Complexity: a Guided Tour”, da premiada cientista da computação Melanie Mitchell.

Na conclusão, Mitchell salienta várias restrições que já haviam surgido, desde meados dos anos 1990, à possibilidade de as pesquisas sobre complexidade gerarem ciência unificada. A pesquisadora registra, inclusive, uma mudança radical na atitude dos alunos do Instituto Santa Fé, centro de pesquisa em que atua como professora: os alunos se tornaram céticos e questionadores, depois de mais de uma década embevecidos e exultantes.

A cientista da computação reafirma, contudo, sua confiança no futuro da empreitada, apesar dos imensos danos sofridos desde 1995, quando a revista Scientific American publicou uma matéria de capa antagônica, assinada pelo jornalista científico e professor de história da ciência John Horgan.

Com base em uma dúzia de entrevistas com os principais expoentes em pesquisas sobre complexidade, Horgan se declarou totalmente perplexo com a falta de unidade de propósitos entre projetos altamente especulativos. Seu artigo fez ainda mais estrago ao ser transformado, em 1996, no oitavo capítulo do livro “O Fim da Ciência” (Companhia das Letras).

É impossível avaliar em que medida essa investida feroz de Horgan tirou o charme do que ele apelidou de “caosplexologia”, mas ela certamente contribuiu bastante para que muitos começassem a se perguntar se as novas ciências da complexidade estariam, de fato, indo na direção da profecia de Hawking.

O livro excelente e otimista de Melanie Mitchell surgiu justamente nos estertores da fase de completa euforia: o ano seguinte à publicação, 2010, registrou o teto do número de centros de pesquisa sobre o tema (60), espalhados nas Américas, na Europa, na China, no Japão e na Austrália. Além disso, o financiamento da União Europeia a projetos sobre complexidade, que atingiu 100 milhões de euros, foi descontinuado em 2015.

Tudo indica que houve uma queda nítida, também confirmada pelo fato de muitos pesquisadores que continuam a estudar sistemas adaptativos complexos preferem não utilizar o termo complexidade. Esse processo clama por uma tripla discussão: sobre as características da ascensão, sobre as razões da reversão de expectativas e sobre o status das pesquisas que perseveram.

Nada mais, nada menos que entrega o livro “Histoire et Sociologie des Sciences de la Complexité“, do jovem professor parisiense de origem italiana Fabrizio li Vigni. Subproduto de sua gigantesca tese de doutorado, a obra foi publicada em 2021 pelas Éditions Matériologiques e passou a ser uma referência incontornável a quem quiser perscrutar os possíveis futuros dos estudos científicos sobre a complexidade.

O que essa minuciosa descrição analítica confirma é que não há nada de errado com a imagem metafórica que associa as pesquisas sobre complexidade a uma Torre de Babel, da qual não parece sair algum gênero de esperanto. Isso não impediu Li Vigni de apresentar uma proposta de solução do impasse.

Ao mapear os trabalhos de centenas de pesquisadores das ciências da complexidade, o autor descobriu umas 20 variantes, das quais sete até chegam a constituir razoáveis “arquipélagos”. Quatro são celebridades que ele apelidou de “elétrons livres” (como Warren Weaver e Joseph Tainter), e o restante envolve noções bem peculiares de complexidade, muito difundidas em áreas como saúde, ecologia, informática e matemática. Nesta, o termo “complexidade” recebe, quase sempre, algum hermético qualificativo —”combinatória”, “ciclomática” ou “comunicativa”.

Seria possível manter ao menos uma pequena parte do otimismo de Hawking diante de tamanha barafunda? A resposta, com certeza, tende a ser negativa. Porém, um raio de luz no fim do túnel surgiu no desenvolvimento da pesquisa histórica, sociológica e até etnográfica de Li Vigni, concentrada na influência que tiveram os dois principais polos promotores das ciências da complexidade.

Além do já mencionado e atuante Instituto Santa Fé (1984- ), há o polo parisiense, inicialmente puxado pelo Crea (Centro de Pesquisas em Epistemologia Aplicada, 1982-2012) e, de certa forma, continuado pelo ISC-PIF (Instituto dos Sistemas Complexos – Paris Île de France), criado em 2005.

A influência desses dois polos se traduz, hoje, em inúmeros círculos de pesquisadores universitários que lidam com as ciências da complexidade sem considerá-la, contudo, mais importante que suas próprias tradições disciplinares. Algo muito comum em faculdades de física e de matemática, mas, também, nas das ciências da vida e cognitivas. Além disso, esses pesquisadores interagem em conferências temáticas, procurando financiamentos coletivos e relatando resultados em muitas revistas científicas.

Em tal contexto, Li Vigni diz ter se confrontado a um paradoxo. Se, por um lado, as fronteiras das ciências da complexidade são maleáveis, indefinidas e abertas, por outro, seu rótulo mostra uma identidade consolidada, reconhecida e clara, mesmo havendo, sem dúvida, uma forte tensão entre a solidez do campo interdisciplinar e a abertura de suas características epistêmicas, sociais e institucionais.

Daí a principal proposta do livro ser a adoção do conceito de plataforma científica, expressão que, todavia, já vem sendo utilizada em vários outros sentidos, como mostra, por exemplo, a recente criação da Plataforma Científica Pasteur-USP. É mesmo possível que essa seja uma saída honrosa para o dito paradoxo, mas que não dá o mínimo sinal sobre o futuro das ciências da complexidade.

Em suma, tudo indica que Stephen Hawking pode ter subestimado demais o grau da desordem hostil ao cumprimento de sua profecia.

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