Política não é assunto nem de deuses nem de bestas – 18/10/2022 – Ilustríssima

Política não é assunto nem de deuses nem de bestas – 18/10/2022 – Ilustríssima


[RESUMO] Autor argumenta que a política foi degenerada pela ascensão de redes sociais sem critérios de verificação, onde a mentira assume valor de verdade, e pela infiltração de temas religiosos. Em contraponto a esse quadro que ameaça a democracia, é preciso recuperar os critérios públicos do debate político, defende ele.

Na crise da democracia, devemos ir aos clássicos. Aristóteles dizia que o homem é um ser sociável por natureza. É um “politikon zoom”, animal político. Ou isso ou somos deuses ou bestas. Aliás, para ele, a política é uma ciência estritamente humana, não é assunto nem de bestas nem de deuses.

Também Aristóteles dizia que, por ser um animal político, o ser humano busca parceiro(a) para se unir e formar família, grupos e assim vai.

Talvez hoje em dia o homem (ou mulher) busque parceiros de WhatsApp para formar neocavernas. É o novo “homowhatszapiens”. Acima dos grupos humanos estão os grupos de WhatsApp. Viva. E o TikTok, é claro.

Platão, professor de Aristóteles, talvez tenha sido o primeiro a criticar as bestas, os néscios. Contra esses, formulou a Alegoria da Caverna.

As sombras são sombras, denunciava, mas de nada adiantava. O rei filósofo foi apedrejado ao dizer que as sombras não eram a realidade.

Portanto, não há fatos; apenas narrativas. Isso é coisa velha. E, pior, sempre cabe qualquer narrativa. Eis o novo mundo. Vasto mundo. Que, assim, pode, sim, ser chamado de Raimundo, para desdizer o poema de Drummond.

Hoje já é possível dar às palavras o sentido que se quer, dando razão ao personagem Humpty Dumpty, de “Alice Através do Espelho”, de Lewis Carroll.

Como exercitar a democracia nestes tempos em que já não há fatos? Eis a pergunta de 2.500 anos dois de filosofia. E de política.

Do modo como se apresentam, hoje, as redes sociais são compatíveis com a democracia?

As redes, com seus algoritmos e quejandos, criam seus próprios critérios de verificação. É esse o ponto, daí a incompatibilidade com a democracia. A democracia moderna é uma questão de linguagem pública. Há critérios para se dizer as coisas —e esses critérios são públicos, construídos intersubjetivamente.

Por isso os “outsiders” não surpreendem. “Outsider” é quem vem de fora do jogo de linguagem da política. As redes facilitam isso. Por quê? Ora, exatamente porque criam seus próprios critérios de verdade.

O que é uma república? Política, assim, na sua acepção moderna, é essencialmente pública. Porém, quando o meio de se fazer política passa a ser as redes, privatizam-se os critérios de verificação. Desaparece a mediação.

Daí passam a valer todos os paradoxos: gente contra a corrupção que tem orgulho de sonegar. Médico a favor de cloroquina. Pastores e evangelizadores que apoiam tortura, misturam o que é de Deus e o que é de César para prosperar (anti)politicamente com base na fé alheia. Fracassamos? A pergunta é retórica.

As redes permitem isso, porque, assumindo o já paradoxal papel de meio, porque não há mediação, substituem a política, pública e tradicional, por um simulacro em que os critérios são “ad hoc”. A mentira como critério da verdade.

A política foi degenerada —pelos tais outsiders— e, fundamentalmente, “evangelizada”: pastores da fé e da carteira alheia, “padres” de festa junina, os “outsiders” de um Estado que é laico.

A esperança? Recuperar o “politikon zoom”. O animal político. E não as bestas “políticas”.

Afinal, fatos existem, por mais que as narrativas queiram se impor. E as sombras eram mesmo sombras. Às vezes, o padre é mesmo só de festa junina. E o que é de Deus não é de César.

A política é pública. Como disse, lembrando sempre Aristóteles, não é assunto nem de bestas nem de deuses.

Logo, como os tais “outsiders” e os protagonistas que misturam religião e sua (anti)política não são deuses, resta-lhes a segunda hipótese, segundo o velho Aristóteles: bestas.

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