Orgia visual em roupas dos Beatles refletiu explosão da contracultura – 22/12/2021 – Ilustríssima

Orgia visual em roupas dos Beatles refletiu explosão da contracultura – 22/12/2021 – Ilustríssima


[RESUMO] Em ‘The Beatles: Get Back’, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr vestem roupas casuais e alegremente afeminadas, que nada se parecem com os ternos uniformes dos primeiros anos da banda. O documentário, que retrata o processo criativo dos meses derradeiros dos Beatles, evidencia a transformação do estilo de seu vestuário e o papel excepcional que tiveram na história da moda.

Alguém que quisesse encomendar um terno sob medida no final dos anos 1960 teria achado Savile Row, em Londres, uma perspectiva temível. “Morta, intimidante, ameaçadora”, é como se recorda dela o veterano alfaiate Edward Sexton.

O ambiente fechado dos estabelecimentos de alfaiates finos na rua que vestiam as classes altas inglesas visava manter o povão à distância. “Portas de carvalho pesadas, cortinas, nada de vitrines, nada que pudesse atrair fregueses que estivessem apenas passando pela rua”, ele explica.

Especialista em corte de moldes e formado no leste de Londres, Sexton tinha 20 e poucos anos em fevereiro de 1969, quando ele e Tommy Nutter, jovem alfaiate londrino de classe trabalhadora, abriram a Nutters of Savile Row no número 35A da rua. Era um estabelecimento irreverente em Mayfair que pretendia subverter um mundo tradicional empedernido, oferecendo alfaiataria masculina fina com cores e formas exageradas e requintadas (a loja de prêt-à-porter de Sexton ainda está em atividade no número 34).

Como Sexton e Nutter, muitos de seus clientes eram jovens, vindos da classe trabalhadora e haviam ganhado dinheiro suficiente em indústrias criativas para ter acesso a roupas feitas à mão, que fossem suficientemente chamativas para anunciar sua chegada. “De repente, jovens estavam ganhando rios de dinheiro, e isso era algo inusitado”, comenta Paolo Hewitt, autor de “Fab Gear: The Beatles and Fashion”.

Para os alfaiates tradicionais estabelecidos na Savile Row, a presença de Sexton e Nutter deve ter parecido uma emboscada. Seis meses antes disso, os Beatles haviam transferido a sede da Apple Corps, seu conglomerado, para o número 3 da rua.

Os Beatles estiveram entre os primeiros clientes de Nutter; todos menos George Harrison, que optou por um jeans, vestiam ternos da Nutter na capa do álbum “Abbey Road”, de 1969. “Foi uma sorte grande”, recorda Sexton. “Não foi uma sessão de fotos organizada.” Em pouquíssimo tempo eles começaram a receber clientes não apenas da contracultura, mas também empresários e executivos.

A influência dos Beatles sobre a moda voltou a chamar atenção com “The Beatles: Get Back”, documentário de TV em três partes dirigido e produzido por Peter Jackson, que fez sua estreia mundial na Disney+ no fim de novembro.

O filme é composto de imagens até agora inéditas da gravação do álbum de estúdio “Let It Be”, em janeiro de 1969, e da derradeira apresentação ao vivo da banda, que aconteceu na cobertura da sede da Apple Corps, na Savile Row, nesse mesmo mês —uma das poucas ocasiões em que os Beatles se apresentaram sem uniforme, segundo Hewitt.

O documentário capta o processo criativo dos Beatles nos meses que antecederam sua separação, mas é igualmente interessante ver o que John, Paul, George e Ringo estavam vestindo naquelas imagens do início de 1969. As roupas casuais e alegremente efeminadas deles não se parecem em nada com os ternos uniformes modernistas, muitas vezes de Pierre Cardin, que eles trajaram no período de 1963 a 1966, desde quando começaram a fazer sucesso até se afastarem dos shows ao vivo.

Em “Get Back”, Ringo Starr —o Beatle mais autoconfiante em matéria de indumentária— usa uma sucessão de blusas com babados em estampas alucinadas, John Lennon mostra preferência por cores primárias e o casaco de peles de sua futura esposa, George Harrison é visto em uma série de trajes de alfaiataria inglesa de estilo eduardiano e em cores pastéis, e Paul McCartney usa roupas de malha cor de laranja. É uma orgia visual que reflete não apenas a posição criativa da banda, mas também a turbulência social e cultural mais ampla.

“Aquele período do final da década foi muito intenso em Londres”, diz Teresa Collenette, historiadora da moda e cocuradora da mostra “Beautiful People: The Boutique in 1960s Counterculture“, em cartaz no Fashion and Textile Museum de Londres. A moda, diz ela, transformou-se mais rapidamente do que jamais antes.

“No início dos anos 1960, a ênfase era sobre o futuro e a manufatura em massa. Porém, mais tarde, com a escalada da Guerra do Vietnã, o clima mudou. Surgiu um movimento pela rejeição da modernidade, olhar para trás, o antimaterialismo e o interesse por um futuro multicultural.”

O comentarista cultural e músico de jazz George Melly havia identificado essas mudanças no vestuário já em 1966, quando observou figurinos bombásticos sendo usados por pessoas que visitaram uma mostra do trabalho do ilustrador vitoriano Aubrey Beardsley no museu Victoria & Albert.

“Achei aqueles novos visuais impossíveis de situar”, ele escreveu no Observer. “Quase todos davam a impressão de fazer parte de uma sociedade secreta que ainda não anunciara seus objetivos ou intenções. Penso hoje que eu me deparara, pela primeira vez, com a presença do underground emergente.”

A Nutters of Savile Row não era a única loja na qual os Beatles compravam suas roupas. O estilo deles foi moldado por uma gama grande de designers e butiques, incluindo vários estabelecimentos do leste de Londres que Collenette descreve como “quase antilojas”, isso porque as peças bizarras que vendiam eram loucamente antifuncionais: Hung on You, Granny Takes a Trip e I Was Lord Kitchener’s Valet, entre outros.

Em 1967, os Beatles haviam até se lançado no setor varejista, eles próprios, primeiro com a Apple Boutique, em Baker Street, e mais tarde com a Apple Tailoring, na King’s Road, em Chelsea —um estabelecimento que teve vida curta. A primeira vendia roupas caras feitas com materiais de luxo por uma dupla de estilistas holandeses conhecida como The Fool. Mais que propriamente estilistas, Simon Posthuma e Marijke Koger eram artistas plásticos, e o empreendimento não durou mais que seis meses.

“Aquela foi uma estética esdrúxula, medieval, estilizada”, comenta Collenette. “Foi uma loja que teve vida curta e deu muito prejuízo. Faltava tino comercial e havia muitos furtos. Mas os Beatles estavam vivendo um momento intenso, e as barreiras de classe social tinham desabado. Foi um projeto criativo, e assim que começou a ficar um pouco entediante, eles perderam o interesse.”

Segundo Hewitt, a roupa experimental do período final da banda reflete uma outra tomada de consciência: “Eles queriam afastar-se da Liverpool durona, machista, de classe operária”, ele diz.

“Há um momento (em “Get Back”) em que Lennon está usando uma camisa verde, provavelmente uma peça de Ben Sherman, que em 1969 era usada por skinheads. Mas ele tem cabelo comprido. Está misturando estilos. Uma das melhores qualidades dos Beatles era sua música eclética, e eles faziam a mesma coisa com as roupas. A mesma mistureba de estilos de todos os tipos.”

Os Beatles se separaram em agosto de 1969, apenas meses depois de gravarem “Get Back”. Tiveram divergências sobre sua direção musical, e a ausência de um visual uniforme reflete essas tensões: “Assinala o movimento em direção à separação”, afirma Hewitt.

Mas aquela explosão breve de seus estilos de indumentária no final da carreira da banda refletiu uma tendência mais ampla que transformou permanentemente o setor de alfaiataria fina londrino. Também fez parte do que tornou os Beatles especiais, diz Collenette: “Do ponto de vista da história da moda, eles foram excepcionais”.

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