Obra de Iris Murdoch pode nos ajudar a encarar a realidade – 13/12/2022 – Juliana de Albuquerque

Obra de Iris Murdoch pode nos ajudar a encarar a realidade – 13/12/2022 – Juliana de Albuquerque


Em setembro deste ano, uma editora acadêmica mostrou-se interessada na publicação de um livro com base na minha pesquisa de doutorado sobre a articulação de temas filosóficos na obra de Johann Wolfgang von Goethe ( 1749-1832).

Desde então, tenho me dedicado cada vez mais ao estudo da relação entre literatura e filosofia, em uma tentativa de aperfeiçoar alguns dos argumentos que esbocei em minha tese, como a sugestão de que Goethe pode ser lido como um filósofo.

Assim, passei os últimos meses revisitando a obra de alguns dos autores que sempre me serviram de inspiração, ao exemplo de Martha Nussbaum, e, nesse processo, acabei descobrindo uma série de outras referências com as quais pude estabelecer um diálogo produtivo.

Entre elas, Iris Murdoch (1919-1999), filósofa de origem irlandesa, conhecida tanto pela sua contribuição ao pensamento moral da segunda metade do século 20 como pela sua vasta obra literária.

Embora seja sempre muito difícil escrever sobre a obra de um autor que acabamos de conhecer, pois corremos o risco de cometermos erros e injustiças com relação ao tratamento das suas ideias, poucas coisas conseguem ser mais prazerosas do que o compartilhamento de uma descoberta intelectual.

Primeiro, porque ao comunicarmos a nossa descoberta, sentimos de modo bastante palpável que o nosso pensamento sobre algo está passando por uma espécie de transformação.

Segundo, porque, apesar dos riscos que corremos e, consequentemente, das besteiras que possamos dizer a respeito do que estamos estudando, sabemos que somente passamos a compreender um assunto se nos esforçarmos para discorrer sobre ele com alguma clareza, e para isso precisamos nos exercitar.

Um dos primeiros textos de Iris Murdoch com os quais tive contato foi a transcrição de uma célebre entrevista da autora a Bryan Magee, na qual ela comenta sobre a relação entre filosofia e literatura, dando-nos a entender que embora sejam atividades distintas, tanto uma como a outra guardam determinada relação com a verdade.

Depois, li alguns dos ensaios em que ela reflete a respeito de questões relacionadas ao existencialismo francês, apresentando-nos uma crítica bastante perspicaz sobre o tipo de romance escrito por pensadores como Jean-Paul Sartre.

Autora de um estudo pioneiro em língua inglesa sobre a obra de Sartre, publicado ainda na década de 1950, Murdoch comenta que uma das principais deficiências desse tipo de literatura estaria em não conseguir lidar com o fato de que a nossa vontade não é exatamente soberana e que o espaço que nos resta para o exercício da liberdade de escolha é muito mais limitado do que costumamos imaginar.

A vantagem de lermos alguém que sabe se posicionar criticamente sobre temas que informam a nossa trajetória intelectual —no meu caso, a literatura existencialista que tanto me ocupou durante os anos de graduação— está em nos oferecer uma chance de reexaminar esses mesmos temas a partir de uma perspectiva distinta, a fazer com que nos tornemos capazes de melhor avaliar a obra daqueles autores que consideramos importantes e que, de algum modo, acabaram marcando as nossas vidas.

Na entrevista para Bryan Magee, Murdoch comenta que o filósofo é alguém que se coloca em diálogo com uma tradição de pensamento; está sempre reagindo ao que foi anteriormente dito por outros pensadores.

Algo que me impressionou positivamente neste meu primeiro contato com a obra de Murdoch foi justamente constatar a seriedade com a qual ela trata o pensamento de contemporâneos e predecessores, mostrando-se capaz de reconhecer o valor de uma ideia proposta em um determinado contexto, mesmo quando o autor dessa ideia aparenta ir de encontro ao que ela pensa.

Conseguir enxergar algum valor em algo que está fora de nós também é fundamental para o pensamento moral da autora. Segundo ela, somos criaturas naturalmente egoístas, que tendem a falsificar a própria percepção de mundo em uma tentativa de escapar das dores e dos desapontamentos que a verdade pode causar.

Neste sentido, uma atividade intelectual, quando exercida com disciplina e esmero, ao exemplo de como a própria Iris Murdoch procura desenvolver o seu pensamento —isto é, prestando atenção para não projetar em excesso algo de si em seu exame do que foi dito por outros filósofos— pode nos ajudar a remediar o que há viciado ou fantasioso em nossa percepção da realidade.

Um raciocínio semelhante também pode ser aplicado à maneira como Murdoch desenvolve algumas das suas reflexões sobre o tipo de contribuição que a boa literatura oferece à filosofia:

“Nossa situação atual, no que diz respeito à liberdade, incentiva a comodidade de pensamento enquanto o que exigimos é um sentido renovado de dificuldade e complexidade da vida moral e uma opacidade das pessoas (…) É neste ponto que a literatura adquire grande importância, sobretudo a partir do momento em que passa a realizar certas funções que antes cabiam à filosofia. É através da literatura que podemos redescobrir o sentido de densidade das nossas vidas.”

Enfim, gostei muito de todos os ensaios de Iris Murdoch que li até o momento e tenho certeza de que as suas ideias devem marcar presença tanto em algumas das minhas próximas colunas para Folha como em muitas das questões que ando desenvolvendo em minha pesquisa acadêmica.

Portanto, deixo aqui o convite para que vocês também me acompanhem nessa nova aventura intelectual, pois muito melhor do que descobrir a obra de um determinado filósofo ou escritor é poder compartilhar as nossas impressões de leitura com os amigos.


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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original