O trabalho com pessoas que gestam – 12/12/2022 – Vera Iaconelli

O trabalho com pessoas que gestam – 12/12/2022 – Vera Iaconelli


Embora já se tenha gastado tempo considerável com a discussão sobre “pessoas que menstruam”, o risco criado pela falta de esclarecimento exige um esforço a mais.

Se você pretende promover uma campanha antitabagismo, você a direcionaria a fumantes em geral ou a mulheres cis, trans, homens cis, trans, negras, pobres…. que fumam? É claro que uma campanha bem feita leva essas diferenças em consideração para melhor atingir diferentes públicos, mas o posto de saúde deve distribuir adesivo de nicotina aos “fumantes” ou usamos a lista de identidades acima?

Trabalho com pessoas que gestam e parem. Por que não digo com mulheres? Porque não se trata de uma identidade, mas de uma experiência corporal que atravessa identidades. Diante da experiência da gestação terei mulheres cis, homens trans, não binários, brancos, negros… Então, se pretendo oferecer atendimento a essa população posso utilizar todas essas nomenclaturas ou posso fazer um apelo realmente inclusivo no qual a característica comum que os une é nomeada. Ou seja, trata-se de nomear aquilo que atravessa as identidades justamente por elas não serem definidas pelas características anatomofisiológicas.

A Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) aponta que para as questões da corporalidade, que justamente independem da identidade, se utilize o denominador corporal comum: menstruação, próstata, gravidez.

Enfim, usar a anatomia e a fisiologia sob o guarda-chuva da corporalidade evitaria terríveis constrangimentos e até mesmo falta de acesso a serviços de saúde básicos sob pretextos.

Vale lembrar o belíssimo trabalho que algumas ONGs vêm fazendo contra a pobreza menstrual e que nos alertam para o fato de que não se trata de levar absorventes para mulheres cis, mas para pessoas que menstruam. Ou oferecer exames de próstata para homens, mas para pessoas que têm esse órgão.

A polêmica parte de dois equívocos. Um vem da falta de conhecimento sobre o tema, afinal estamos todos aprendendo. Essa é a parte que um pouco de letramento pode resolver.

Mas seria ingenuidade acreditar que a recente discussão nasce tão somente de uma simples incompreensão. Infelizmente, o segundo equívoco é bem mais pernicioso e se alimenta de factoides.

Trata-se da querela pelo direito ao uso dos significantes mulher e homem, branco e negro, risco inerente das pautas identitárias. No bojo da luta por direitos, que só fazem sentido se tiverem como alvo final a solidariedade entre humanos, conquistas identitárias estão sempre sob ameaça do narcisismo das pequenas diferenças. Quem é mais mulher, quem é mais negro, quem é mais subalternizado? Risco que Judith Butler já apontava na década de 1990, antecedida por Foucault, Malcolm X e outros.

A captura da luta identitária pela lógica neoliberal e pela ideia de que haveria alguma consistência sobre os significantes (mulher, homem, negro…) apaga a realidade concreta dos sujeitos e parte da crença de que se poderia homogeneizar suas experiências e hierarquizá-las. Como se a meta não fosse uma sociedade mais inclusiva, mas apenas guetos a se digladiarem infinitamente para ver quem leva a melhor no final.

O feminismo se fortaleceu com as críticas dos estudos queer, ampliando seu escopo de inclusão e legitimação da liberdade identitária e sexual. Se ignorarmos seus aportes, corremos o mesmo risco de nos tornarmos tão anacrônicas quanto as feministas brancas que achavam que o sufrágio universal resolveria a questão “das mulheres”. A estratégia identitária tem que ter como horizonte a solidariedade e a inclusão de todes.

Essa discussão não pode ser ofuscada por haters, cancelamentos e unfollows, pois o assunto afeta a vida concreta de milhões de pessoas e merece que o que está em jogo seja esclarecido. A cultura do “fulanismo”, na qual quem diz ofusca o que é dito, é um risco a mais para o diálogo.


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