‘O Chamado’ chega aos 20 anos infectando filmes de terror – 30/10/2022 – Cinema e Séries

‘O Chamado’ chega aos 20 anos infectando filmes de terror – 30/10/2022 – Cinema e Séries



The New York Times

Se você se lembra de alguma coisa de “O Chamado”, um filme de terror de Gore Verbinski sobre uma fita de vídeo amaldiçoada que foi lançado no dia 18 de outubro de 2002, é provável que seja a ameaça sussurrada: “sete dias”.

Ou talvez sejam os olhos daquela garotinha assustadora, espreitando por trás de uma cortina de cabelos negros escorridos; ou as imagens apavorantes —uma árvore vermelha flamejante, cavalos mortos espalhados ao longo de uma praia, um dedo perfurado por um prego enferrujado— que faziam parte do filme dentro do filme.

Em “O Chamado”, qualquer alma infortunada que assista àquele vídeo bizarro recebe um telefonema ameaçador assim que ele termina e, dentro de uma semana, acaba eliminada por uma criatura malévola que desliza, encharcada, para fora do televisor.

“O Chamado”, baseado em “Ringu”, um romance japonês de grande sucesso, do escritor Koji Suzuki, bem como em sua adaptação para o cinema em 1998 por Hideo Nakata, não depende de uma alta contagem de cadáveres ou de muitas imagens sanguinolentas, para assustar. No entanto, para uma geração de amantes do cinema de terror, a história explora um sentimento familiar de ansiedade constante e mal-estar inexplicável, que continua onipresente até hoje.

Na verdade, o filme é surpreendentemente contido, e transcorre como um sonho desperto, repleto de pavor. A história se passa em Seattle, e o filme usa uma palheta de tons cinzentos e azuis esfumaçados para acompanhar Rachel (Naomi Watts), jornalista e mãe solteira encarregada de descobrir a verdade por trás da morte súbita de sua sobrinha adolescente, Katie (Amber Tamblyn), que é encontrada morta e com o rosto terrivelmente deformado, congelado em angústia como no quadro “O Grito”.

Quando colegas de classe de Katie dão a entender que a culpa é de um vídeo mal-assombrado, Rachel localiza o vídeo e o assiste, dando início à contagem regressiva para sua própria morte. O trabalho de investigação de Rachel revela a história de Samara, a garota assustadora, na verdade uma espécie de espírito vingativo, mas as revelações nada fazem para cancelar a maldição; a única coisa que pode libertar o condenado é mostrar o vídeo para outra pessoa.

Na época, o público parecia ansioso para ver o vídeo. “O Chamado” se transformou em um sucesso inesperado, com bilheteria de quase US$ 130 milhões (R$ 693 milhões) nos Estados Unidos, e deu início a uma série de recriações americanas de filmes de terror japoneses, uma tendência que está entre as mais distintas e representativas de Hollywood na primeira década do novo milênio. Somada a sucessos de 1999 como “O Sexto Sentido” e “A Bruxa de Blair”, a popularidade de “O Chamado” ajudou a deixar no passado os filmes de terror povoados por maníacos homicidas sempre em busca de vítimas adolescentes, que tinha dominado o cinema nas três décadas precedentes.

Quando Verbinski foi procurado pelo estúdio DreamWorks com a ideia de refazer o filme japonês, ele estava lendo “Crônica do Pássaro de Corda”, romance épico e surreal de Haruki Murakami. No final da década de 1990, a cultura pop japonesa tinha feito grandes incursões nos Estados Unidos —pense na ascensão da Nintendo e na loucura do Pokémon. Não é de admirar que executivos de Hollywood tenham aproveitado a oportunidade de retrabalhar “Ringu”, o filme de terror de maior faturamento já lançado no Japão, para um público americano.

“Ringu” levou crédito como um dos principais responsáveis pelo sucesso do “J-horror”, o termo ocidental para designar o ciclo subsequente de filmes de terror japoneses, caracterizados, em parte, pela conexão entre os demônios e espíritos do folclore tradicional e as tecnologias do novo milênio.

“O original é belamente abstrato e repleto de climas, mas o público americano exige alguma forma de resolução, ou um percurso mais reto”, disse Verbinski em uma entrevista. “Eles estão condicionados a seguir pistas, e por isso criamos uma história mais linear. A vantagem é que pudemos manipular aquelas expectativas”.

Outras refilmagens de sucessos do J-horror, como “O Grito” (2004) e “Água Negra”, se seguiram, mas nenhuma conseguiu sucesso comparável ou o mesmo nível de impacto cultural.

“O Chamado” pode até ser considerado um clássico do terror da geração milênio. Os membros mais velhos da geração, nascidos na década de 1980, eram adolescentes quando o filme saiu, e os mais jovens o encontraram em locadoras de vídeo ou por indicação de irmãos mais velhos, que sobreviveram para contar a história. Não que as crianças da época estivessem proibidas de ver o filme nos cinemas. “O Chamado” recebeu classificação de censura PG-13, embora sua atmosfera portentosa, as mudanças sônicas abruptas do alto volume para o silêncio, e a trilha sonora sinistra de Hans Zimmer talvez o tornassem mais assustador do que outros filmes, de violência mais aparente e espetacular.

O entusiasmo pelas refilmagens de filmes de terror japonês pode não ter durado muito, mas o cerne daquilo que tornou “O Chamado” tão assustador em 2002 —e daquilo que fez do romance e do filme original retratos tão perturbadores do colapso social do Japão na década de 1990— é a natureza transferível da sentença de morte, que pode fazer das vítimas cúmplices.

Diversos filmes de terror americanos feitos depois de “O Chamado” empregaram uma fórmula semelhante, e conquistaram elogios da crítica e resultados comerciais muito positivos. Em “Corrente do Mal” (2015), de David Robert Mitchell, uma adolescente manobra para descarregar sua doença sexualmente transmissível, contraída de modo sobrenatural, em um parceiro sexual, que, após a consumação, assume o feitiço e passa a ser implacavelmente acompanhado por uma entidade morta-viva e assassina.

“Sorria”, peso-pesado das bilheterias atuais, fica ainda mais perto de “O Chamado”, assumindo a perspectiva de uma mulher amaldiçoada, desesperada para encontrar uma solução antes que seu tempo –ela é informada de que tem no máximo uma semana– se esgote, e um espírito que se alimenta de traumas a manipula para cometer um suicídio extravagantemente sangrento. Essa maldição também só tem uma saída: matar outra pessoa.

Em outubro passado, Cristina Cacioppo, diretora de programação do Nitehawk Cinema, em Brooklyn, exibiu “O Chamado” como parte de uma série dedicada a refilmagens de horror dos anos 2000. “Às vezes refilmagens podem sofrer um estigma”, ela disse. No caso de “O Chamado”, recordou Cacioppo, “encarei o filme com muito desdém quando saiu e pensei que seria só uma versão de Hollywood, que eliminaria tudo o que tornava o original interessante. Quando por fim assisti ao filme, descobri que ele tem uma história própria a contar —é bom!”

Ela também credita ao desempenho de Naomi Watts a elevação do filme. Na época, a atriz era quase desconhecida e tinha acabado de conseguir seu primeiro sucesso com “Cidade dos Sonhos”, de David Lynch.

E, é claro, há a fita de vídeo, que tinha muito de curta-metragem experimental. No início do filme, nós a assistimos em sua totalidade através dos olhos de Rachel, e, a depender do estado de espírito do espectador, a impressão que o vídeo causa pode ser a de uma provocação, um simples filme estudantil idiota. No começo, o vídeo assassino é tratado como uma lenda urbana escolar. Não ter certeza de se a ameaça é legítima ou não faz parte daquilo que transforma o vídeo em algo indelével.

“Queríamos que fosse assustador, mas também ligeiramente desdenhável”, disse Verbinski. “Degradamos as imagens até parecer que foram filmadas com uma câmera Super 8, por um amador. Ao mesmo tempo, coisas do vídeo começam a aparecer à medida que Rachel se movimenta no mundo real. É como ter um sonho no qual você vai a um bar e ganha uma caixa de fósforos, e aí você acorda e encontra os fósforos em sua mesa de cabeceira”.

Para Verbinski, os atrativos do do filme estão intimamente ligados ao “zeitgeist”. Embora tenha sido lançado em 2002, o diretor e sua equipe estavam em pré-produção quando os ataques do 11 de setembro aconteceram, forçando-os a transferir as filmagens da costa leste americana para o noroeste dos Estados Unidos.

“Há um elemento aleatório no filme, uma perda de controle e uma ruptura de equilíbrio que o fazem funcionar”, ele disse. “Não há explicação moral ou senso de que uma pessoa mereça mais a morte do que outra. É assustador quando um sistema de crenças desmorona, e deixa a pessoa em queda livre existencial”. O filme obviamente não é um resultado direto do 11 de setembro, mas torna “palpável uma crise semelhante”, acrescentou o diretor, “na qual, qualquer que seja o significado que você crie a partir da fita de vídeo, qualquer que seja o progresso ou descoberta que você pense que está fazendo, nada disso o restaurará”.

Talvez seja por isso que “O Chamado” —mesmo que seu legado inclua algumas continuações verdadeiramente horrendas e a paródia “Todo Mundo em Pânico 3”, zombeteira ainda que afetuosa– continua presente na memória, especialmente para aqueles de nós que se lembram de um mundo, agora distante, no qual existiam telefones fixos e aparelhos de videocassete.

“2002 foi o início daquele sentimento de perda, e de deterioração do significado”, disse Verbinski. “Havia uma sensação real de antes e depois, mas agora tudo está embaralhado e nadamos naquela crise a cada dia, sozinhos, mas ainda procurando por algo que compartilhar”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original