O Brasil precisa romper com sua utopia regressiva – 16/12/2021 – Alexandre Schneider

O Brasil precisa romper com sua utopia regressiva – 16/12/2021 – Alexandre Schneider


A 10 meses das eleições o Brasil permanece imerso em uma “utopia regressiva”, o desejo de voltar a um passado em que a vida era mais segura, um tempo em que se podia “sonhar com o futuro”.

O termo “utopia regressiva” foi cunhado pelo cientista político Carlos Melo e se avizinha de outro, “retrotopia”, que dá nome ao livro do sociólogo Zygmunt Bauman, publicado em 2017, poucas semanas após sua morte.

Para Bauman, a insegurança dos tempos modernos nos leva à “retrotopia”, a busca de um passado idealizado em detrimento do sonho e do esforço de construção de um futuro melhor que marcou as décadas anteriores. A incerteza em relação ao futuro nos faz idealizar o passado, investir no individualismo, perder a crença na construção de uma sociedade melhor.

O atual quadro exposto nas pesquisas eleitorais é –como foi em 2018, com sinal invertido– reflexo desse sentimento, tão racional quanto paralisante. Se nas últimas eleições presidenciais a volta a um passado autoritário, da preservação da ordem, do combate à violência e à corrupção que remetem à ditadura venceu, até este momento a dianteira folgada de Lula em todas as pesquisas de opinião apontam uma fuga ao passado da comida no prato, do emprego, da reforma da casa, dos milhões de jovens que chegaram à universidade, da fome de futuro…

Analisar os humores do eleitorado é a tarefa dos acadêmicos. Traduzi-los, a dos políticos. É natural, portanto, que Lula concentre sua estratégia eleitoral nos bons tempos de seus dois mandatos e que Bolsonaro e os demais candidatos a tomar seu lugar na disputa com o PT se fiem no discurso do combate à corrupção e dos costumes.

Até aqui nenhuma novidade. Há 20 anos as eleições se dão entre o petismo e o antipetismo. O problema é que o mundo mudou muito nos últimos anos e o que basta como estratégia eleitoral –entregar uma volta ilusória ao passado como remédio às aflições do presente– não serve aos hercúleos desafios que o país tem pela frente.

Temos milhões de pessoas com fome ou que não sabem se vão comer amanhã. A educação, a ciência e tecnologia e a cultura –bases da da construção de qualquer país– estão em frangalhos, sujeitas a delírios ideológicos. A inflação voltou, o país está isolado internacionalmente, as estruturas de Estado responsáveis pelas políticas públicas estão fragilizadas, a pauta ambiental retrocedeu décadas. Diante da inapetência do atual governo, o Legislativo e o Judiciário ganharam musculatura e assumiram o papel do Executivo em diversos campos, o que é um fator a mais de instabilidade.

O próximo presidente deverá lidar com estes problemas, que não são novos, mas foram aprofundados –como é o caso da desigualdade– ou que pareciam superados –como a fome e a inflação. Mas não só. O país retrocedeu em muitas áreas e o mundo mudou muito nos últimos 20 anos.

Lidar com as mudanças estruturais na economia exige uma nova agenda na educação, ciência e tecnologia e entender a cultura e a economia criativa como parte do processo de desenvolvimento, geração de emprego e renda. Exige combater a destruição da Amazônia e estabelecer uma política de proteção ao meio ambiente como parte da estratégia de desenvolvimento local e do país. Será ainda necessário eliminar renúncias fiscais e reordenar o desigual sistema tributário brasileiro, que cobra mais dos pobres que dos ricos.

No campo da política além de retomar a normalidade, reforçando o pacto democrático da Constituição de 88, será necessário abrir espaço a atores emergentes, como é o caso do movimento negro e da pauta antirracista, o que de mais novo surgiu na política nos últimos anos. A ampliação de políticas de transparência no uso dos recursos públicos e da ação dos governos é uma ferramenta necessária à volta da confiança dos cidadãos em seus governos.

A política nos permitiu redemocratizar o país, acabar com a hiperinflação, combater a fome, incluir milhões de brasileiros nas universidades e no mercado, criar um dos melhores sistemas de saúde pública do mundo. E é a boa política que nos permitirá sair da encruzilhada em que estamos. Para isso não é preciso negar o passado e os bons tempos. Mas é fundamental romper com nossa “utopia regressiva”, reconstruir os laços que nos permitam sonhar com o futuro. O passado é uma roupa que não nos serve mais.


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