O Brasil escolhe outra mulher – 14/11/2022 – Vera Iaconelli


Qual seria o lugar da primeira-dama de um país? Lugar difícil de se definir uma vez que se ela não é eleita, no entanto, não deixa de pesar no cálculo de quem elege seu marido. Em janeiro, será a vez de Rosângela Lula da Silva, nova ocupante da posição, responder de forma única e pessoal à pergunta que se repete a cada eleição.

Contraponto absoluto à sua antecessora, a personalidade de Janja incrementa a já inflamada polarização, que divide o mundo entre os puros e os ímpios.

Se o presidente recém-eleito teve uma votação feminina determinante, isso se deveu ao fato de que as mulheres endossaram a “chapa” Lula-Janja, já que ficou claro, desde o começo, que não se tratava de uma figura menor.

Janja representa um estilo de primeira-dama para o qual o Brasil, e arrisco dizer, grande parte dos governos, ainda não está preparado. Ela é a articuladora do encontro com Simone Tebet que, junto com Marina Silva, se revelaram peças fundamentais nessa eleição. As mulheres não votaram em Lula apesar do seu entourage feminino, mas também por causa dele.

O eleitorado feminino pode até sonhar em ser belo, recatado e do lar, mas sua experiência real, em quase metade dos domicílios brasileiros, é a de ser chefe de família e, em um terço desses lares, ser a única fonte provedora. O contraste entre um eventual desejo de ser tutelada – ou, pelo menos, compartilhar responsabilidades – e a dura realidade é brutal.

Quanto ao recato, não considero o adjetivo mais acurado para nos qualificar. Respeitadas as inclinações pessoais de cada uma, somos famosas pela nossa espontaneidade e extroversão. Não estou me referindo à parte da população que se identifica ou aspira mimetizar o estilo comedido do hemisfério norte. Refiro-me à brasileira comum, que trabalha, dentro e/ou fora de casa, e não perde a oportunidade de se divertir, dançar e cantar, sempre que uma pausa na jornada extenuante lhe permite.

Longe do puritanismo insuportável que assola o governo atual, a futura primeira-dama contou em entrevista ao Fantástico, que foi a um jogo de futebol na esperança de ver Chico Buarque e acabou sendo paquerada pelo atual marido. Isso é tão mais próximo da realidade de inúmeras mulheres que apostam no amor e tão distante da tentativa patética de apagar a vida pregressa de Michelle Bolsonaro. Como se a última precisasse ter saído de um convento e se casar com o Messias para poder ser primeira-dama.

Janja também representa o respeito à pluralidade religiosa, na contracorrente do “culto-facção”, no qual se alicia exércitos de adoradores de discursos políticos autoritários.

Janja não tem filhos, o que pode parecer um detalhe, mas é uma circunstância que apresenta, antes de tudo, como mulher. Ela traz, por força, uma pauta importante do feminismo: podemos ser reconhecidas socialmente sem que a questão da maternidade nos seja colocada?

Que não haja ascendência entre o presidente e a primeira-dama tem soado estranho porque ainda se acredita que, numa relação de casal, um tem que mandar e o outro obedecer.

Por fim, diria que, gostem ou não da mulher que ocupará o lugar de primeira-dama em janeiro de 2023, sem ela Lula não teria sido eleito. E não apenas pelas inúmeras contribuições que ela aportou à campanha. A terceira rodada presidencial de Lula, aos 77 anos, depois da prisão, da morte de dona Marisa e de seu adorado neto, não existiria sem uma grande dose de paixão. Para nosso alívio, essa paixão atende pelo nome de Janja.


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