‘Nova classe média’ vê volta por cima com empreendedorismo e religião – 18/11/2022 – Ilustríssima

‘Nova classe média’ vê volta por cima com empreendedorismo e religião – 18/11/2022 – Ilustríssima


[RESUMO] Hoje em crise, a nova classe média, forjada por ganhos salariais e programas sociais do período lulista, absorveu uma identidade centrada em um empreendedorismo popular com fortes conexões com a teologia da prosperidade pentecostal. Ao contrário do que propõe os que só enxergam anomia no Brasil popular, esses trabalhadores outsiders vêm ressignificando suas experiências de opressão e vislumbram reconhecimento social, em que os humilhados serão finalmente exaltados.

Dois fenômenos quase simultâneos têm despertado grandes indagações no Brasil: o movimento de mobilidade social ascendente, que teve como motor os programas sociais do período lulista e medidas de inclusão pelo consumo, e o impressionante crescimento do pentecostalismo, que hoje, suspeita-se, já representa a fé de um terço da população.

A nova classe média, expressão que sintetiza a ascensão social do período e se popularizou no governo Dilma Rousseff (PT), tem origem nos estudos do economista Marcelo Neri, que a entendia como “média” simplesmente do ponto de vista estatístico. Cientistas sociais, por sua vez, tenderam a ver esse fenômeno como um movimento interno à classe trabalhadora, proporcionado, sobretudo, por ganhos salariais modestos.

Diante da sequência de crises políticas e econômicas pelas quais o país passou desde junho de 2013, o interesse pela nova classe média como símbolo de desenvolvimento arrefeceu. Recentemente, novas pesquisas econômicas têm apontado um encolhimento da chamada classe C, termo “técnico” do fenômeno, seu reconhecimento no discurso do empreendedorismo e, finalmente, seu emparelhamento com o bolsonarismo.

No auge da pandemia de Covid-19, afirmei, com base em uma pesquisa etnográfica que desenvolvi, que a aprovação à irresponsável conduta do presidente Jair Bolsonaro (PL) entre empreendedores populares estava ligada à ideia de que era preciso “tocar a vida”. Isso era especialmente notável no caso de trabalhadores de serviços considerados não essenciais, que se viam obrigados a manter as portas de seus estabelecimentos fechadas e realizar vendas por canais virtuais.

Nos últimos dez anos, a classe C não apenas encolheu, como teve suas condições de vida muito deterioradas, um fenômeno pouco explicado pelo pensamento baseado apenas em estatísticas.

No entanto, muito antes da inclusão pelo consumo das gestões petistas, o individualismo popular já estava assentado sobre a vida sem salário no Brasil popular. Associada às incertezas do nosso mercado, a falta de coesão fez desses trabalhadores outsiders uma categoria sujeitada historicamente e alijada de qualquer reconhecimento.

De onde reemerge esse “ethos” outsider? Certo olhar intelectualizado se aflige diante de indícios tão fortes de anomia social, com características que se assemelham ao fascismo no âmago da cultura popular. Pois bem, não só não são anômicos como a nova classe média acabou por absorver uma identidade. O empreendedorismo aparece agora como uma forma cultural que lhe serve como ferramenta de reconhecimento, contraestigmatização e, eventualmente, insubmissão.

Essa constatação antes remete, parafraseando o sociólogo Georg Simmel (1858-1918), aos problemas mais profundos da vida contemporânea, que nascem da pretensão do indivíduo popular de preservar a autonomia e a peculiaridade de sua existência frente às imposições da sociedade e da racionalização da vida. De fato, a acepção popular de empreendedorismo abre exatamente a possibilidade de rejeitar essas imposições.

Certos elementos, enraizados em uma ética individualista de reprodução social, compõem a base cultural do Brasil popular, em que reminiscências de tempos remotos de fuga da miséria e da violência estatal permanecem fundantes da experiência social. Para lidar com a incerteza, a esperança em dias melhores se dirige sobretudo para Deus —antes, guiada pelo catolicismo popular; hoje, cada vez mais pelo pentecostalismo.

Entretanto, quando nos deparamos com fenômenos como o bolsonarismo, o olhar intelectualizado recorre imediatamente à abstração. Isso acontece porque as relações entre o mundo dito racional da classe média e o mundo radicalmente concreto dos mais pobres se rompem, restando apenas aquelas em que há subordinação direta.

Nessa mirada, parece espantoso que tanta gente não se deixe conduzir pela racionalidade progressista. Este é o nosso conflito contemporâneo: uma elite cultural cosmopolita frente a uma majoritária e relegada porção popular.

A propósito, o sociólogo Norbert Elias (1897-1990) notou que, quanto maior a distância entre estabelecidos e outsiders, maior a estigmatização e submissão destes últimos. Contudo, se houver uma redução dessa distância, é provável que haja um movimento de contraestigmatização, uma volta por cima dos outsiders.

A analogia é útil para compreendermos o Brasil atual. De onde viria a coesão que falta entre esses diferentes tipos de outsiders, fragmentados e marginalizados? Creio que a resposta é o empreendedorismo popular, a forma cultural contemporânea da vida sem salário em simbiose com a teologia da prosperidade pentecostal, a doutrina que associa sucesso financeiro à vontade de Deus.

Vivendo como outsider

Aparecida [nome fictício], 58, é empregada doméstica e frequenta a Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. Ela foi um dos interlocutores da etnografia que conduzi em meu doutorado sobre o empreendedorismo popular em São Paulo. Como se nota em toda a comunicação visual da Universal, “pare de sofrer” é o slogan que informa o propósito manifesto da igreja. Foi esse desejo que levou Aparecida à conversão há quase 20 anos.

Natural de Pernambuco e moradora de Interlagos, na zona sul de São Paulo, Aparecida alimenta o sonho de parar de sofrer e retomar seu pequeno negócio, de trufas de chocolate, mas esbarra nas obrigações familiares: além de manter a casa, ela cuida dos quatro netos. Ela enfrentou a depressão e um casamento infeliz, mas não consegue romper nem com a família nem com a ocupação de diarista. Na igreja, ela também é estimulada a empreender, lembrada sempre que “Deus não quer que a senhora seja uma empregada, Deus quer que a senhora seja uma empresária”.

Nos espaços em que circula, Aparecida diz se ver frequentemente diminuída em seu potencial e atacada pela inveja, o que corrói a confiança naqueles que a rodeiam e a paralisa em uma situação de mera gestão da sobrevivência. Ela, uma típica outsider na paisagem paulistana, em que prospera “quem tem estudo”, tampouco considera que pode abrir mão da família, sua única fortaleza.

Para Aparecida, a religião desperta desejos pouco articulados de insubmissão, que esbarram justamente na sua persistente sensação de inferioridade. Uma observação sagaz sua, por outro lado, parece revelar outra coisa, ao explicitar não apenas a realidade, mas também um vislumbre de reconhecimento: ela sabe que todas as faxineiras e babás que passaram pela casa de classe média alta em que trabalha eram evangélicas, ao contrário dos patrões, “incrédulos”.

Ronaldo [nome fictício], 36, tinha um enteado, duas filhas de outro relacionamento e frequentava a Igreja Apostólica da Fé, em Guarulhos, a cerca de 70 quilômetros de sua casa em Vargem Grande, no extremo da zona sul de São Paulo. Com apenas o primeiro grau completo, Ronaldo já prestou o Encceja (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos), mas não foi aprovado.

Ele não chega a ganhar dois salários mínimos como vigilante e, incapaz de pagar as contas, tinha começado a trabalhar como motorista de aplicativo havia alguns meses. Para fazer as corridas, financiou um carro usado, mas, em poucos meses, o carro começou a dar problemas e Ronaldo teve que parar de pagar as parcelas de R$ 1.400 reais. “Embolou, não deu para pagar, não estava conseguindo trabalhar. Estou com esse carro em busca e apreensão.”

A chegada dos filhos à adolescência, seu acesso descontrolado às redes sociais, que Ronaldo vê como perversões, e sua longa passagem por uma clínica de reabilitação o fazem temer a repetição de sua própria história.

Ele reproduz o que a antropóloga Taniele Rui identificou como “um elo discursivo entre ‘drogas’, criminalidade, descontrole e autodestruição”. Ele tenta passar instrução aos filhos e ser um bom exemplo, mas incertezas demais rondam sua vida —o carro em situação irregular e uma eventual recaída nas drogas, por exemplo.

Sociedade de empreendedores

As políticas do período lulista, ao reduzir a distância entre a classe média tradicional e a “nova”, colocaram esta em um patamar diferente. No entanto, as possibilidades inéditas de viajar de avião, ter acesso ao ensino superior e ao microcrédito e financiar um carro para a família vieram, de baixo, com o crescimento vertiginoso do pentecostalismo e, do alto, do empreendedorismo.

Não estamos diante, portanto, apenas de mobilidade social. Trata-se, na verdade, de uma ressignificação cultural profunda: o mundo popular, com suas novas contradições, libertaria, afinal, um projeto de contraestigmatização dos estabelecidos das classes média e alta, formando uma nova classe média de fato, que expressa um reconhecimento possível em uma sociedade de classes desintegrada.

Ronaldo fala pouco e quase não sorri. Quando o visitei, havia em sua estante uma edição amarrotada de “Esquerda Caviar”, best-seller antipetista de Rodrigo Constantino, que ele insistiu em me mostrar. Queria assim demonstrar o ceticismo que emerge na relação entre um outsider e um pesquisador “estabelecido”, uma armadura contra um mundo suspeito. O ethos do empreendedorismo popular subverte relações concretas de submissão entre estabelecidos e outsiders.

Para quem vê apenas anomia no mundo popular, pode causar surpresa que Ronaldo e Aparecida rejeitassem Jair Bolsonaro em meados de 2021, quando conversamos. Isso porque não há determinismo no mundo popular, como demonstra os mais de 1 milhão de microempreendedores individuais do município de São Paulo, que deu vitória a Lula nas eleições deste ano.

Da parte dos outsiders, ressignificar suas histórias de sofrimento é um desejo mais que legítimo, não um delírio coletivo —se o fazem pelo empreendedorismo é porque se reconhecem em sua utopia de liberdade. Por sinal, Patricia Hill Collins salienta que estar dentro de um determinado contexto mas em uma posição marginal pode ser um estímulo tanto à criatividade quanto uma ameaça ao status quo.

Aparecida ainda sonha, mas mesmo que não consiga colocar seu negócio de trufas de chocolate de pé, conta que conversa com Deus e Ele lhe diz que é com as trufas que ela irá vencer. As incontáveis experiências de opressão, humilhação e desamparo desses outsiders, atomizadas e mais ou menos exitosas, afirmam juntas, como no Evangelho de Mateus, que os humilhados serão exaltados.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original