Nicole Kidman e Javier Bardem e o ‘morde e assopra’ de ‘Being the Ricardos’ – 23/12/2021 – Cinema e Séries

Nicole Kidman e Javier Bardem e o ‘morde e assopra’ de ‘Being the Ricardos’ – 23/12/2021 – Cinema e Séries



The New York Times

“Não sou engraçada”, disse Lucille Ball certa vez. (risos) “O que sou é corajosa”. É o tipo de modéstia performativa pelo qual as celebridades são conhecidas. Mas no caso de Ball, também era verdade. Um pequeno vislumbre da bravura da comediante pode ser visto em “Being the Ricardos”, retrato gentil, dirigido por Aaron Sorkin, de uma semana muito ruim para Lucille Ball e seu marido, Desi Arnaz, na época em que eles estrelavam “I Love Lucy”.

Ela era a ruiva favorita dos Estados Unidos, e ele seu glamoroso marido, músico e líder de orquestra. O casal era adorado por milhões de pessoas. Mas nem todo mundo amava Lucy.

Cinebiografia enérgica, loquaz, um tanto esquisita e insistentemente apolítica, “Being the Ricardos” reimagina o que aconteceu em 1953 depois que o poderoso colunista de fofocas Walter Winchell fez uma insinuação clara sobre Ball em seu programa de rádio: “A mais popular das estrelas de TV foi confrontada com sua participação no Partido Comunista”. O filme estreou dia 21 na Amazon Prime Video.

Joe McCarthy estava caçando supostos comunistas, e a lista negra de Hollywood estava em pleno vigor. A fofoca de Winchell tinha o potencial de destruir a vida e a carreira de Ball. Mas quando um agente de imprensa disse a Ball que o colunista provavelmente estava falando sobre outro famoso comediante de TV, ela brincou que a implicação a incomodava: “Todo o mundo sabe que a maior comediante da TV sou eu”, disse ela.

Sorkin entra no ringue com Ball (Nicole Kidman, em modo ácido) e Desi (um afável Javier Bardem). Os dois parecem versões mais tensas e ferozes de seus alter egos televisivos. “Lucy, cheguei”, diz Desi ao chegar à casa verdadeira do casal. “E onde você estava, seu palerma cubano?”, ela grita em resposta.

Um minuto mais tarde, eles estão se agarrando, o que dá início a um morde e assopra que dura o filme inteiro. Sorkin tende ao exagero, e é o que ele faz nessas cenas de apresentação, aumentando o volume para estridente. O diretor também obscurece os rostos dos dois por alguns instantes, mostrando suas imagens refletidas em um painel de vidro, um aceno na direção de suas vidas divididas e de sua presença nas telas.

Com a fofoca de Winchell como ponto de partida, Sorkin em seguida rastreia a maneira pela qual Lucy e Desi contornaram a crise, e mostra como eles continuaram a produzir seu programa de imenso sucesso apesar das dificuldades em seu casamento. (Basicamente, é Lucy que se encarrega da pressão, atacando Desi por suas verdadeiras ou supostas indiscrições.)

Pouco depois que Winchell menciona o suculento item em seu programa de rádio, Lucy e Desi dão início à sua semana de trabalho na Desilu Productions, armados de seus sorrisos milionários e de um plano improvisado. Eles escolhem esperar para ver, se armam de paciência para enfrentar as reações adversas, e trabalham para acalmar os preocupados executivos da rede e o pessoal do elenco e equipe –Nina Arianda interpreta uma versão magnífica da sempre cismada Ethel, e J.K. Simmons é o azedo Fred– enquanto a turma prepara o próximo episódio.

O filme tem uma estrutura de bomba-relógio, com a leitura final do roteiro do episódio na segunda-feira, o processo de marcação de cenas na terça e assim por diante. Com a passagem dos dias, os personagens se preocupam e procuram maneiras de lidar com a situação, e Sorkin encaixa recriações em branco e preto de “I Love Lucy” –um toque interessante é que Lucy consegue ver em sua cabeça como uma cena vai transcorrer– e insere flashbacks que acompanham a trajetória do relacionamento de Lucy e Desi.

Sorkin é menos produtivo ao inserir testemunhos, em estilo de falso documentário, de pessoas que trabalharam na série, entre as quais o showrunner e roteiristas. O filme é sempre movimentado demais. Mas mesmo assim a contagem regressiva cria tensão e estabelece uma linha central que serve como apoio aos diversos elementos criados por Sorkin.

Algumas das liberdades previsíveis que Sorkin tomou ao adaptar fatos à ficção são instrutivas. A maior delas foi mudar o momento da segunda gravidez de Lucy para que ela e Desi a anunciem aos colaboradores e executivos chocados não muito depois da publicação da fofoca de Winchell.

A gravidez real se tornou notícia nacional no ano anterior porque a história foi estendida aos personagens. Era radical, um escândalo –”não se pode ver uma mulher grávida na TV”, diz um executivo assustado, no filme— , e provou ser um excelente modo de aumentar a audiência de “I Love Lucy”. Aparentemente, mais pessoas assistiram ao nascimento do filho dos Ricardo do que à posse do presidente Dwight Eisenhower, em janeiro de 1953.

Alinhar o momento da gravidez ao entrevero com Winchell certamente cria mais comédia e drama. Imagino que Sorkin tenha imaginado que isso torne os personagens mais meigos, especificamente Lucy, fazendo-a menos estridente, mais atraente, mais feminina.

Porque, o que quer que você tenha lido ou escutado sobre Ball, ainda é estranho ver sua versão fictícia soltando palavrões dignos de um bêbado de bar ou agredindo seu marido física e verbalmente. Isso é especialmente verdadeiro se você já assistiu a “I Love Lucy”. Um dos complicados prazeres da série é a maneira pela qual o casamento de Lucy e Desi –e o amor palpável que eles transmitiam aos lares dos espectadores– na verdade consistia de uma disputa de poder bastante desigual.

O ano de 1953 foi movimentado para Arnaz e Ball. Ele lançou uma canção de sucesso. Ela ganhou um Emmy. Em setembro, ela depôs diante do Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara dos Deputados americana, que a interrogou por ter se inscrito como eleitora do Partido Comunista em 1936 (sua mãe e irmão fizeram o mesmo).

O depoimento dela perante o comitê foi mantido em segredo, talvez como concessão à sua enorme popularidade, e ela disse que tinha se registrado como comunista para agradar seu avô, que era socialista. Qualquer que seja a verdade –e vale a pena apontar que Ball tinha resistido bravamente a McCarthy no passado não muito distante—, seu depoimento foi uma aula de como escapar a perguntas incômodas.

Foi mais um exemplo de seu talento ao interpretar mulheres sonsas. Quando perguntada se conhecia a frase “sindicalismo criminoso”, Ball respondeu que “não, mas é bonita”.

A Lucy de “Being the Ricardos” mal se interessa pelas confusões da política. Ela interpreta basicamente o papel de mulher ciumenta e desconfiada, e de estrela megera de TV a quem todos amam mesmo que ela seja intragável.

Isso diminui Ball e a faz perder substância, apesar do esforço de Kidman. Ela e Bardem foram escalados para papéis que não lhes servem, mas Kidman é um encaixe especialmente ruim como Ball, cuja destreza física e agilidade facial, olhos arregalados e boca elástica, estão gravados na memória coletiva.

Como se para compensar, Kidman e Sorkin tentaram recriar a aparência de Ball usando próteses infelizes e diversos outros truques. As bochechas de Kidman foram alargadas e sua testa alterada, mas o resultado é que em lugar de se parecer com Ball, ela parece uma dona de casa imitando Glenn Close.

A idade de Kidman e Bardem parece ter sido reduzida digitalmente, em grau variável, ao longo do filme, a dela mais que a dele. (Não importa qual seja sua idade, Bardem jamais se parece com Arnaz, e sempre se parece consigo mesmo.) Essas plásticas digitais comprometem, no cinema, mas parecem menos incômodas vistas na TV ou na tela do computador, que presumivelmente é a maneira pela qual a maioria dos espectadores verá o filme.

A intervenção digital parece desnecessária. Kidman e Bardem são ambos mais velhos do que as pessoas que interpretam, embora não dramaticamente. O mais importante é que são atores atraentes e talentosos capazes de criar personagens profundos sem o uso de truques. Por que não lhes dar figurinos de época e perucas feias e deixar que, você sabe, atuem?

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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