Músicas enfrentaram machismo e tensionam limites de gênero – 10/12/2022 – Ilustríssima

Músicas enfrentaram machismo e tensionam limites de gênero – 10/12/2022 – Ilustríssima


[RESUMO] A identificação do Brasil como país das cantoras esconde um cenário de ampla sub-representação de mulheres no mercado de música, dominado por um conservadorismo machista, que reflete uma história de desigualdade de gênero, preconceito e violência.

A morte de Gal Costa em novembro, a de Marília Mendonça um ano antes e a de Elza Soares em janeiro mobilizaram o país. O gol que Anitta fez ao conquistar a indicação ao Grammy 2023 na categoria artista revelação atiçou seus fãs e os que torcem o nariz para ela.

Olhando de fora, esses exemplos de comoção levam um desavisado a crer na máxima de que o Brasil é o país das cantoras. No entanto, não somos nem o país das cantoras nem o das compositoras —e muito menos o das instrumentistas e produtoras musicais. Temos 215 milhões de habitantes e cerca de 5 milhões de mulheres a mais que homens, mas os números mostram que elas também estão sub-representadas no cenário musical.

De acordo com dados do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) referentes a pessoas físicas, as mulheres são apenas 7% dos arrecadadores de direitos autorais, enquanto os homens são 85% (o restante não informou o gênero ao realizar o cadastro).

A discrepância não para por aí: as mulheres são apenas quatro na lista dos cem maiores arrecadadores do país e, com base no valor total distribuído para pessoas físicas em 2021, receberam 92% a menos que os homens.

Adentrando mais ainda o disparate, o levantamento “Mulheres na Indústria da Música no Brasil: Obstáculos, Oportunidades e Perspectivas”, divulgado em 2019 pelo Data SIM (Semana Internacional de Música de São Paulo), estima que a cena musical feminina conta com 70,3% de brancas e apenas 11% de pretas, 15% de pardas, 2,8% de amarelas e 1% de indígenas.

Em cerca de 600 entrevistas online com cantoras, compositoras, instrumentistas, produtoras etc., 62,2% afirmaram ser solteiras, 76,5% disseram não ter filhos e 91,7% se declararam cisgênero. O Brasil é enorme, mas o estudo aponta que 71,2% das mulheres que trabalham com música estão concentradas na região Sudeste. Entre as que estavam em atividade à época da pesquisa, a minoria, 20,6%, tinha apenas um trabalho.

As estatísticas são um reflexo da história. Se, ainda hoje, as mulheres não são tão incentivadas como os homens a assumir seu talento e buscar oportunidades profissionais no mundo da música, essa normatização vem do passado e acompanha a trajetória percorrida por elas em busca de mais liberdade e respeito.

Quando as mulheres finalmente começaram a desbravar esse mercado, tiveram que lidar com todo tipo de violência e preconceito, de homens que rasgavam suas composições —casos da rainha do forró Anastácia e da paraense Dona Onete— aos que atrelavam seu apoio a algo em troca, não exatamente o que elas queriam fazer.

“Antes de jogar minha composição na lixeira, meu marido [e empresário, Venâncio, que fazia dupla com Corumbá] disse: ‘Presta não, minha fia!’. Fiquei quieta, mas catei o papel. Em uma noite em que ele estava viajando, falei ao Noite Ilustrada que tinha um samba. Noite pegou o violão, cantei e ele gostou. Gravou ‘Conselho de Amigo’ em seu álbum [‘Depois do Carnaval’]. Foi a primeira vez que ganhei grana com uma composição minha”, lembrou em entrevista Anastácia, que compôs com seu segundo companheiro, Dominguinhos, grandes clássicos do forró, como “Eu Só Quero um Xodó” e “Tenho Sede”. Poucos se lembram, contudo, de lhe dar crédito quando citam os sucessos.

A maioria das cantoras sempre foi tratada como musas, mulheres que brilham atrás do microfone e na frente do palco. Vide as rainhas do rádio, como Emilinha e Marlene.

Muitas bandas buscaram ter uma mulher à frente ou nos vocais para que chamassem a atenção pela beleza, pela atitude e pelo figurino. Talvez não conscientemente, Kid Abelha e Blitz sejam exemplos naqueles anos 1980 em que a principal rádio de rock, a Fluminense FM, estreou tendo na locução só vozes femininas, famosas por seduzirem os ouvintes ávidos pelo gênero mais bombado na época. Muitas vezes, é isso que os músicos esperam de uma mulher, não exatamente uma voz ativa.

Muitas mulheres foram obrigadas a colocar o nome de algum homem no registro de suas composições para ter suas músicas gravadas. No entanto, ser honesta consigo mesmas pode render má fama, como me contou a sertaneja Roberta Miranda:

“Eu estava começando, fui levar minhas músicas na editora, e o editor disse: ‘O artista tal só vai gravar se entrar como parceiro de composição na sua música’. Subi na mesa do cara, queria dar porrada. Eu nem tinha lançado meu primeiro disco, ainda estava na fase compositora. Isso aconteceu depois de novo. Eu arranquei uma música do disco de uma das duplas sertanejas mais famosas do país porque um deles queria entrar na minha canção. Eu tenho fama de irredutível no meio”.

Muitas mulheres foram apagadas da história. Chiquinha Gonzaga foi resgatada em 1984 por sua biógrafa, Edinha Diniz; Alaíde Costa foi apagada pela turma da bossa nova, mas sua história vem sendo celebrada hoje por novas gerações de pesquisadores.

Muitas delas também ouviram inúmeras ofensas e comentários machistas mais sutis, como “você toca como um homem”, frase que Joyce Moreno e Sueli Costa, cantoras, compositoras e violonistas da MPB, dizem ter escutado muito.

“Esse papo de ‘compõe que nem homem’ e ‘toca que nem homem’ é a história da minha vida! Ouço desde os 19 anos. O primeiro a falar foi o [compositor, produtor musical e jornalista] Ronaldo Bôscoli”, afirma Joyce, vaiada em 1967 ao tocar violão e cantar a primeira composição gravada na primeira pessoa do feminino no Brasil, “Me Disseram”, em um festival em 1967.

Em meados do século 19, era comum que as moças brasileiras de famílias abastadas tocassem piano, mas elas jamais se profissionalizavam como musicistas. A maioria das que criavam canções as encondiam.

Nascida em 1847, Chiquinha Gonzaga foi a primeira a se consagrar como compositora. De acordo com a autora do livro “Chiquinha Gonzaga: Uma História de Vida”, Edinha Diniz, “tocar em público e ser remunerada, nem pensar”. “Aquilo era para o deleite dos seus iguais, dos saraus, dos salões. As mulheres tinham medo de ter a reputação prejudicada. Chiquinha precisou sobreviver, então transformou esse ornamento de salão em profissão.”

Para sobreviver, Chiquinha, que havia sido obrigada pelo pai a se casar, separou-se para viver com outro homem, teve que abrir mão dos filhos e, já no fim da vida, dizia que o companheiro que trouxe de Portugal, 36 anos mais jovem que ela, era seu filho.

Depois de Chiquinha, o país viveu um vazio no universo das compositoras de sucesso até os anos 1950, quando Dolores Duran e Maysa, cantoras e compositoras lembradas até hoje, despontaram.

O caso de Carmen Miranda, autora de apenas duas canções, é diferente. Maior símbolo brasileiro no exterior à época, sua faceta compositora acabou abafada pela fama como cantora e atriz. No entanto, uma parceria com Pixinguinha apresenta uma autora ousada: Carmen usou humor em sua interpretação e, na letra de “Os Hôme Implica Comigo”, destacou a mulher brasileira como vítima do preconceito, tentando a todo custo viver em uma sociedade patriarcal, dirigida e organizada por homens.

Cardíaca, Dolores Duran morreu jovem, em 1959, aos 29 anos, deixando o espaço livre para uma “cantautora” (termo que sintetiza cantora e compositora e que encampei em minha tese de doutorado sobre o tema) que, diferentemente de todas as outras, já estreou gravando suas próprias composições. No LP “Convite para Ouvir Maysa”, todas as oito faixas são dela. Maysa foi, de fato, a primeira cantautora do Brasil com carreira fonográfica e relevância nacional a se firmar como autora das canções que gravava.

Desde cedo, na escola, Maysa era invejada por tocar violão, “em um tempo em que o instrumento era associado à marginalidade e à vagabundagem”, escreve o biógrafo Lira Neto em “Maysa: Só Numa Multidão de Amores”: “‘Estudei piano clássico como toda mocinha bem-nascida, mas aprendi a tirar os primeiros acordes de violão com Silvio Caldas’, gabava-se às amigas”.

Maysa se casou e se separou e deixou o filho, Jayme Monjardim Matarazzo, para o ex-marido criar. Transgressora, relacionou-se com os homens que quis e enfrentou preconceito em sua família, maledicências em revistas de fofoca e olhares atravessados de colegas músicos. A artista gravou músicas próprias durante duas décadas, até pouco antes de sua morte prematura, em 1977, aos 40 anos.

Nas décadas seguintes, muita coisa mudou. Lentamente, as mulheres ganharam espaço na vida política do país —o voto feminino foi conquistado em 1932, mas somente em 1965 foi equiparado ao voto dos homens pelo Código Eleitoral– e obtiveram conquistas sociais que alteraram diversos padrões. Em 1977, por exemplo, foi sancionada a lei que instituiu o divórcio.

Nos anos 1960, as novas gerações de mulheres encontravam caminhos mais abertos que antes para se assumirem como cantautoras e viver de sua música. Mesmo assim, foram necessárias ainda várias décadas para o percurso de mulheres na música se tornar mais fácil.

A composição pode ser o espaço de imersão intimamente ligada ao viver. Quando se trata de mulheres que criam reforçando temas femininos, temos a música assumindo o compromisso de fazer política, ultrapassando as fronteiras de gênero e mostrando que o subalterno pode falar em um mercado dominado por um conservadorismo machista.

Em pesquisas que venho desenvolvendo desde 2014, que me levaram a produzir um livro que vai reconstituir a história da mulher na música brasileira, ouvi várias dessas mulheres, e muitas se identificam como cantautoras.

Daniela Mercury desabafou: “Como compositora, também sofri muito machismo tanto dos diretores das gravadoras quanto dos críticos, que tendem a não acreditar que uma grande cantora possa ser também grande compositora”.

Marisa Monte levantou dados: “Em um país em que, apesar de sermos 51% da população, as mulheres no Congresso são 10% [na legislatura 2015-2019], a representatividade da mulher como um todo na sociedade está mal”.

Letrux tentou achar uma explicação para a discrepância: “Conheço alguns professores particulares de música. A maioria é homem e dá aula para meninos, com pouquíssimas alunas meninas. Os pais devem respeitar a vontade dos filhos com suas atividades extracurriculares, mas é importante incentivar a ida a shows, concertos, mostrar musicistas em vídeos, ao vivo. Sem essa de ‘menina não pode'”.

Pitty ressaltou o lado bom: “Eu peguei uma época em que nós, mulheres, já podemos dizer melhor ou mais o que a gente pensa e sente. A gente tem nossas particularidades em relação à busca de autonomia, em relação a se posicionar dentro da sociedade, em relação à liberdade, ao poder. É uma coisa da qual eu gosto de falar”.

Cátia de França afirmou, apontando dados de 2018: “Na Academia Brasileira de Ciências, só 14% é do sexo feminino e, em 102 anos, nunca houve uma presidenta. Nas universidades federais do Brasil, dos 63 reitores, apenas 19 são mulheres. Enquanto houver frases como ‘Vem com essa roupa de novo que te dou um bônus’ ou ‘Se está achando difícil, vai fazer balé’, essa realidade não vai mudar”. Neste ano, a academia elegeu sua primeira mulher presidente, a biomédica Helena Nader.

A voz dessas personagens mostra uma predisposição para o debate sobre o feminismo, o racismo e a homofobia. De Chiquinha Gonzaga a Pitty, as mulheres vêm marcando a história da música no país e mostrando que nossa cena musical precisa dar mais espaço e remunerá-las melhor.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original