Mulheres de Wakanda recordam treinos intensos e apoio nos bastidores – 14/09/2022 – Cinema e Séries

Mulheres de Wakanda recordam treinos intensos e apoio nos bastidores – 14/09/2022 – Cinema e Séries



The New York Times

Quando a Marvel divulgou o trailer de “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre”, em julho, o filme registrou 172 milhões de views em suas primeiras 24 horas. Isso equivale a quase o dobro do total de espectadores conquistado pelo teaser do “Pantera Negra” original, em 2017. Nos anos transcorridos desde o primeiro filme, muita coisa mudou. “Pantera Negra”, dirigido por Ryan Coogler, não só bateu recordes de bilheteria como subverteu expectativas e estereótipos sobre se as audiências internacionais realmente queriam assistir a filmes com elencos predominantemente negros. “Pantera Negra” também se tornou a primeira história de super-herói a ser indicada para o Oscar de melhor filme.

Ao mesmo tempo, T’Challa, o rei de Wakanda, e seu alter ego, o Pantera Negra, ambos brilhantemente personificados por Chadwick Boseman, se tornaram favoritos dos fãs, na batalha contra Killmonger (Michael B. Jordan). A singularidade do desempenho milimetricamente calculado, carismático mas lúdico, de Boseman ajudou a moldar o legado do “Pantera Negra”, tornando o personagem e o ator quase sinônimos e inspirando milhões de crianças em todo o mundo a se verem em um super-herói negro.

Mas mesmo então, eu achava que o rival mais óbvio de T’Challa pelo trono não era Killmonger, e sim as Dora Milaje, o grupo de guerreiras que protegem lealmente o líder de seu país. Okoye, interpretada pela maravilhosa Danai Gurira, era a principal estrategista militar do país mais rico do mundo. No teaser de “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre”, vemos as Dora Milaje, entre as quais Ayo (Florence Kasumba) e Aneka (Michaela Coel, uma nova integrante do elenco), assumindo papéis ainda mais proeminentes e enfrentando um novo inimigo, Namor, the Sub-Mariner, interpretado por Tenoch Huerta. Outra estreia é a de Namora, a prima mutante e híbrida de Namor, interpretada por Mabel Cadena, nascida no México, como Huerta.

Mas, além de proteger Wakanda, as guerreiras Dora Milaje também devem assegurar o trono, agora que T’Challa se foi. Após a morte de Boseman, em 2020, depois de uma batalha privada contra o câncer de cólon, Kevin Feige, presidente da Marvel Studios, anunciou que o personagem não seria interpretado por outro ator, o que despertou especulações sobre o destino de Shuri (Letitia Wright), irmã e herdeira aparente de T’Challa, bem como a cientista chefe de Wakanda. Essa parecia ser a ideia pelo menos até a chegada do trailer, quando o hashtag #recastTChalla ganhou grande circulação viral, e foi seguido por uma petição na Change.org que recolheu mais de 60.000 assinaturas, argumentando que “se a Marvel remover T’Challa, estaria prejudicando o público (especialmente os meninos e homens negros) que se vê nele”.

O que talvez não receba a atenção merecida, no meio desse debate, são as poderosas mulheres de Wakanda —Okoye e Shuri, é claro, mas também a espiã Nakia (Lupita Nyong’o), e a rainha Ramonda (a lendária Angela Bassett). No trailer, podemos vê-las exercendo seus muitos papéis, na guerra, no luto e na cura, como mães, líderes, irmãs e defensoras do legado de T’Challa (e, aliás, de Boseman). Elas também têm o poder de expandir o significado das imagens do super-herói Pantera Negra, tornando-as maiores do que um só homem e do que um só momento no tempo.

Antes do lançamento do novo filme, cuja trama continua a ser segredo, em 11 de novembro, conversei com diversas das mulheres de “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre”, entre as quais, Cadena, Gurira, Kasumba, Nyong’o e Wright. Embora cada uma delas tenha vivido a realização do filme de maneira bem diferente das companheiras, todas encontraram maneiras de lamentar juntas, superar lesões (Wright sofreu uma fratura crítica no ombro e uma concussão grave) e forjar uma irmandade, na vida real, que espelha o espírito feminista da Wakanda fictícia. Abaixo trechos editados de nossas conversas.

Vocês ficaram surpresas com o enorme sucesso de “Pantera Negra”, em 2018?

Bassett: Fiquei muito surpresa, e agradavelmente, com a efusão de amor pela história, pelos atores, pela representação, e pelo entretenimento todo. Porque eu não entendia muito de quadrinhos antes de começar nesse projeto, minha expectativa era de que os fãs do Universo Marvel aparecessem. Mas para mim foi uma surpresa que o resto da humanidade também comparecesse.

Gurira: Conseguimos criar personagens muito completos, que puseram fim a muitos estereótipos sobre que aparência um super-herói ou o heroísmo devem ter. Todas nós temos histórias a contar, mas uma que me impressionou foi quando um menino branco de 11 anos segurou minha mão e não largava. O pai dele pediu desculpas. Mas aquela experiência toda abalou a ideia dominante de que a única maneira de ter impacto fazendo um papel como esse é se você for homem e branco.

Wright: Tem sido muito bonito ver a inspiração que demos a tantos jovens. Eu sempre me sinto muito orgulhosa quando alguém diz que Shuri expandiu a maneira pela qual aquela pessoa pensa sobre si mesma.

Considerando o grande sucesso do filme passado, como vocês se prepararam para a continuação, tanto em termos da adoração dos fãs quanto da perda de Chadwick Boseman?

Nyongo’o: Vou falar da minha experiência. Houve muito silêncio, reflexão, oração e meditação, para me fortalecer o mais que eu pudesse em termos emocionais, mentais e espirituais. Foi uma experiência única, voltar a esse mundo sem nosso líder. Quando você está preparando um segundo filme, há muita expectativa. Mas eu acho que a perda de Chadwick meio que aliviou tudo isso. Eu me vi obrigada a aceitar radicalmente que o novo filme seria diferente, e que chegar com o máximo de abertura que eu pudesse era fundamental.

Wright: Além do que Lupita disse, e me parece perfeito, o processo de preparação para voltar ao trabalho foi definitivamente um processo espiritual. Lembro-me de me conectar muito com Danai. Quando chegamos a Atlanta [onde as filmagens aconteceram], fomos dar um passeio no parque e ficamos lá sentadas juntas, processando o que significava começar de novo, e o que seria necessário. O que eu encontrei de lindo foi perceber que não estava sozinha. Ao voltar ao mundo de Wakanda, eu senti que tinha uma família que compreendia o que eu estava vivendo.

Gurira: Há maneiras de você, como artista, tentar ter algum controle sobre aquilo em que está se envolvendo. E para mim, boa parte disso é o treinamento que fizemos para sermos as guerreiras Dora Milaje. Mas também ficou claro que havia outra jornada que tínhamos que fazer. Lembro-me de conversar com Ryan, e de ele me ajudar a processar o que parecia diferente, desta vez: Era o luto. Assim, o luto se misturou com nosso processo. Havia coisas para as quais eu não podia me preparar, como entrar na sala do trono e me lembrar da última vez que estive lá, e ficar realmente abalada com isso. E nesses momentos, como Letitia disse, nós nos apoiamos uns nos outros.

Kasumba: Eu tive que aprender que ainda não estou pronta para falar sobre todas essas coisas com qualquer pessoa. Eu não sabia quando aquilo me afetaria. Mas sabia que, caso algo acontecesse, havia pessoas com as quais eu poderia me abrir; ir ao trabalho era como voltar para casa. Além disso, o treinamento ajudou muito, porque tínhamos que nos concentrar demais. Era uma combinação de nos perdermos no trabalho, mas ao mesmo tempo nos certificarmos de que precisávamos caminhar juntos uma vez mais, depois de todo aquele tempo.

Mabel, você é a integrante mais nova do elenco. Como foi fazer parte da “comunidade Pantera Negra”?

Cadena: Foi incrível. No início, eu não falava a mesma língua, e o treinamento de luta também foi realmente difícil para mim. Havia momentos em que eu me sentia realmente cansada, mas também me inspirava nessas mulheres, todos os dias. Eu pensava comigo mesma que, “se essas meninas podem, eu também posso batalhar por mais um dia”. E aí eu conversei com Ryan, e ele me deu a oportunidade de construir meu personagem como uma mulher mexicana. Dessa forma, fui capaz de enfrentar meus medos e, ao mesmo tempo, me sentir inteiramente segura na companhia dessas mulheres, e grata a elas.

O treinamento para as cenas de batalha foi muito intenso?

Kasumba: É preciso estar muito afiada, física e mentalmente. Comecei a treinar para o papel em maio de 2021 porque você entende que seu corpo terá que funcionar muito bem por cerca de um ano. E, porque trabalhamos com armas e podemos nos ferir, também tivemos que ganhar confiança suficiente para fazer nossas cenas de ação e ao mesmo tempo garantir que não machuquemos nossos colegas. O treinamento do primeiro filme nos ajudou, porque a memória muscular é muito forte.

Gurira: O treinamento literal depende muito da história que estamos contando. No primeiro filme, havia um inimigo específico e uma resposta específica. Agora, estamos contando outra história, portanto há exercícios muito específicos para nos unificar. E depois tivemos muito trabalho individual. Sofri alguns ferimentos ao longo das filmagens, e tive que aguentar a dor e continuar trabalhando. Mas isso é algo que eu amo porque, em última análise, é uma maneira de manter os pés no chão. Você tem que saber como se mover e viver com uma espécie de instinto de guerrilha que é específico de seu personagem.

Letitia, você se machucou gravemente no set, não é?

Wright: Minha experiência foi diferente. Também enfrentei muitos desafios físicos, mas ao mesmo tempo me senti muito orgulhosa por, diante da adversidade, conseguir me recuperar e dar aquela vida e força extra ao meu personagem. Acho que Mabel expressou isso de forma muito bonita. Ver todo mundo dando 110% a cada dia é uma inspiração. Não foi uma jornada indolor, mas, quando você chega ao topo da montanha, pode contemplar aquilo que fez. Espero que isso se reflita no filme, e que as pessoas saiam se sentindo extasiadas e empolgadas, porque foi definitivamente assim que nos sentimos depois de fazê-lo.

Essa é uma imagem muito poderosa. Você acha que as pessoas agora são mais receptivas às mulheres negras como super-heroínas?

Bassett: Acho que isso é algo que ainda teremos de determinar. “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre” está a ponto de se tornar o próximo filme que vai realmente empolgar muita gente. A expectativa é de que a bilheteria ultrapasse o US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bi). E o que eles verão serão os nossos rostos. Rostos de mulheres negras. É algo que amo testemunhar. Hoje em dia, não precisamos mais esperar que alguns poucos sujeitos em escritórios no topo de arranha-céus decidam que isso acontecer. Sabe? Nossas vozes são tão convincentes que o mundo é compelido a escutar o que temos a dizer.

Gurira: [O primeiro] filme nos permitiu, como personagens femininas, ganhar ainda mais complexidade. E é importante que isso não seja algo que fique limitado a um momento só, mas que as pessoas vejam personagens femininas não brancas capazes de crescer e de ganhar dimensão.

Wright: Hoje uma menina me disse que “saí do cinema sentindo que posso fazer qualquer coisa, depois de ver o filme e o que Shuri apresentou ao mundo”.

Gurira: Se colocar essas personagens em um espaço heroico impulsiona uma sensação de propriedade de si mesma, e quanto àquilo que uma pessoa é capaz de fazer com seu potencial, entre as mulheres jovens, entre as mulheres não brancas, isso é tudo, realmente.

Wright: Deveria se tornar-se a norma, porque há tantas mulheres por aí que são realmente heroicas e incríveis. Nós apenas mostramos um pouco disso na tela.

“Pantera Negra” nos deu uma utopia que não temos necessariamente, na vida real. O que as entusiasmou mais, em termos da irmandade que vocês tiveram como atrizes ou da solidariedade feminina que suas personagens tiveram uma pela outra, em “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre”?

Cadena: [Já foi dito que] quando uma mulher ergue a voz, todas nós florescemos. São palavras realmente inspiradoras para mim, e acho que esse é o legado do primeiro filme. Antes disso, eu só tinha trabalhado na Cidade do México, e portanto trabalhar com essas mulheres e Ryan mudou completamente minha vida e a maneira pela qual eu pensava sobre minha carreira. Agora, tenho novos sonhos e novas expectativas sobre como desejo criar personagens femininas.

Bassett: Foi uma boa convergência, entre a experiência que consegui acumular em minha carreira e o a ascensão delas, que estão surgindo e fazendo o mesmo grande trabalho. Há muito respeito. Mas não se trata apenas do esforço que fazemos; o que importa também é como trabalhamos uns com os outros. Se nos unirmos, nossa força coletiva cresce muito.

Nyong’o: Em Wakanda, as mulheres não são subestimadas por causa de seu gênero. Foi o que vimos no primeiro filme, e isso ecoou. O novo filme leva adiante o conceito de que este é um mundo no qual coisas como essas não existem. Mas a questão com que estamos lidando não é a condição delas como mulheres. São suas crenças, paixões, amores e argumentos, e isso cria um drama robusto. A esperança é que o mundo tal como o conhecemos assista e seja fortalecido pelo filme, apesar de tudo.

O que eu adoro na história de Wakanda é que ela nos oferece uma versão do mundo ao qual estamos nos esforçando por chegar.

Traduzir originalmente do inglês por Paulo Migliacci



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