Microsoft e Activision Blizzard: Além do Metaverso

Microsoft e Activision Blizzard: Além do Metaverso


O anúncio da compra da Activision Blizzard King pela Microsoft na última terça-feira (18) gerou inúmeras discussões sobre o futuro do mercado de games e franquias do conglomerado, bem como do iminente metaverso.

Goste ou não, o metaverso é considerado o próximo estágio do entretenimento, alinhado com o desenvolvimento de tecnologias de imersão, um cruzado entre as realidades aumentada e virtual.

De acordo com a própria Microsoft em um comunicado oficial, a aquisição da Activision Blizzard “servirá como alicerce para o metaverso”.

A Microsoft adquiriu a Activision Blizzard por US$ 68,7 bilhões. Imagem: Reprodução

Em outro momento desse comunicado, o CEO da empresa, Satya Nadella diz: “Gaming é a categoria mais dinâmica e empolgante no entretenimento entre todas as plataformas hoje, e terá um papel-chave no desenvolvimento de plataformas de metaverso.”

Ainda não está completamente explícito como especificamente a Activision Blizzard servirá aos propósitos de exploração desse meio pela Microsoft, entretanto, a aquisição de US$ 68,7 bilhões (equivalente a cerca de R$ 379 bilhões) vai muito além do metaverso. Para saciar a curiosidade, a movimentação financeira proveniente da compra da Zenimax / Bethesda, em 2020, foi de US$ 7,5 bilhões.

A compra consolida a Microsoft como a terceira maior empresa do setor, ficando atrás apenas da gigante chinesa Tencent e da japonesa Sony.

A Activision Blizzard King está no mercado de games há mais de 30 anos e é dona de algumas franquias multimilionárias, como Overwatch, Diablo, Warcraft, e os extremamente populares Call of Duty e Candy Crush.

 
Bobby Kotick permanece no cargo de CEO da Activision Blizzard pelo menos até o fechamento do acordo, em meados de 2023. Imagem: Reprodução

É indiscutível que o conglomerado é um dos maiores do mercado — se não fosse, o CEO Bobby Kotick não teria um patrimônio líquido estimado de US$ 8 bilhões e não conseguiria tirar um bônus de US$ 155 milhões em 2021 por uma meta batida na Activision em 2016.

Exclusividades de plataforma e novas estratégias de mercado

Com o fechamento do negócio, previsto para meados de 2023, a Microsoft passará a ser dona de todos os estúdios da Activision Blizzard King e suas respectivas propriedades intelectuais – entre elas as já citadas Overwatch, Diablo, Call of Duty e Candy Crush.

Quando consideramos o repertório da King, a Microsoft deve investir como nunca antes no setor mobile de modo a otimizar os lucros em uma plataforma na qual está adentrando lentamente agora, com a expansão do xCloud, por exemplo.

Além disso, a marca terá toda a liberdade para transformar essas franquias em exclusivas de consoles Xbox – sim, a partir de 2023, qualquer novo Call of Duty poderia ser um exclusivo de Xbox One e Xbox Series X/S, por exemplo.

É difícil especular se algumas franquias, que são tradicionalmente multiplataformas e sucessos justamente por serem multiplataformas, passarão a ser exclusivas.

 
Overwatch é uma das franquias que a Xbox adquire com a compra do conglomerado. Imagem: Divulgação

No entanto, Phil Spencer, chefe da divisão, comentou após a compra: “Eu só digo aos players que jogam games da Activision Blizzard na plataforma da Sony: não é a nossa intenção tirar comunidades dessa plataforma e permanecemos comprometidos com isso.” Essa pode ser a resposta definitiva para a maioria dos jogos multiplataforma existentes, como Call of Duty, Diablo e Overwatch, por exemplo.

Entretanto, há algumas franquias que poderiam ser transformadas em exclusivos já que têm comunidades menores e são jogos sem foco na continuidade e no formato de serviço, como Crash Bandicoot.

Outros jogos tradicionais de PC, como o MMORPG World of Warcraft ou o MOBA Heroes of the Storm, poderiam ser adaptados para consoles Xbox, caso seja de interesse da marca.

Sem uma comunidade de jogadores desses jogos presentes em consoles, esse pode ser um novo território para a Microsoft explorar – sem contar alguns modos de obter receita em jogos como esses, que descrevemos logo abaixo.

Apesar das recentes quedas nos valores das ações, a Activision Blizzard é uma empresa consolidada e estável no mercado de games. A Microsoft sabe disso e está ciente de que o controle financeiro da publisher adquirida vai ajudar diretamente com dinheiro em caixa e não apenas em lucros por meio de ações.

Discutiremos o impacto da aquisição no Game Pass com mais extensão no próximo tópico, mas a Activision Blizzard tem o poder de aumentar os lucros da Microsoft obtidos por meio dos games oferecidos no catálogo do serviço de assinatura.

Conforme apontam os relatórios fiscais da publisher referente ao ano de 2020, 71% da receita da empresa veio de compras e assinaturas in-game, como baús para obter itens cosméticos em Overwatch ou a assinatura para jogar World of Warcraft – se a Microsoft conseguir potencializar esse comportamento com jogos da ActiBlizz no Game Pass e levá-lo adiante a outros títulos do serviço, só digamos que: haja dinheiro.

Em um exemplo pessoal com, curiosamente, um jogo da Bethesda, eu jogo Elder Scrolls Online por meio do Game Pass. Eu tenho acesso a ele sem custo adicional nenhum além do preço da assinatura mensal, no entanto, tomei a decisão de me tornar assinante do plano ESO Plus, o que me garantiu diversos benefícios in-game, incluindo acesso a todos os DLCs que eu teria que comprar individualmente e por um preço muito maior, caso não assinasse. A compra do ESO Plus foi feita na Microsoft Store.

Impacto no Xbox Game Pass

A compra da Activision Blizzard, inevitavelmente, terá algum tipo de impacto no Xbox Game Pass. Duas grandes possibilidades estão em discussão: a inclusão dos múltiplos e futuros jogos da publisher no catálogo do serviço de assinatura da Microsoft, incluindo lançamentos no dia 01, bem como o possível aumento de preço do serviço justificada pela adição desses grandes e relevantes títulos à lista.

Nenhuma possibilidade foi confirmada oficialmente. Fato é que, após a conclusão da compra, que deve ocorrer em meados de 2023, a Xbox deve passar a incluir lançamentos da Activision Blizzard no dia 01 no catálogo do Xbox.

Esse é um comportamento já existente na empresa para com todos os demais jogos de estúdios first-party. Isso acontecerá, por exemplo, com Starfield, da Bethesda, que não apenas será exclusivo de consoles da marca e PC, mas também estará no serviço de assinatura no dia do lançamento.

De modo a confraternizar, é possível que a Microsoft adicione outros títulos da ActiBlizz no Game Pass também, como fez com os múltiplos games da Bethesda, que ganharam um espaço relevante no catálogo do serviço após a compra da Zenimax – e aqui retornamos ao que citamos antes: a investida em busca de lucros in-game de jogos oferecidos no Game Pass, seja por microtransações ou assinaturas.

Já o aumento do preço do serviço não foi sequer citado pela marca, mas é uma especulação contínua entre a comunidade gamer após o anúncio da compra da Activision Blizzard.

Isso porque fãs e especialistas do mercado pensam a Microsoft precisa justificar essa transação de US$ 68,7 bilhões – lembrando que ela foi mais de 9 vezes mais custosa do que a aquisição da Zenimax e todo o catálogo da publisher.

Condições de trabalho

No entanto, as implicações da compra da Activision Blizzard pela Microsoft transcendem o desenvolvimento de tecnologias inéditas e os novos rumos para franquias já bem estabelecidas no mercado.

Inclusive, a mais importante delas é que há esperança de que a aquisição gere algum impacto positivo nas condições de trabalho nos estúdios da Activision Blizzard.

A empresa liderada por Bobby Kotick está em maus lençóis. Em julho de 2021, a Activision Blizzard foi processada pelo estado da Califórnia, nos Estados Unidos, por denúncias de assédio sexual e cultura machista.

Os funcionários da empresa, de modo generalizado, se reuniram para protestar contra a liderança da companhia, cujas ações sofreram queda pouco tempo após a revelação do escândalo.

Em outubro, algumas ações internas foram tomadas e mais de 20 funcionários foram demitidos, enquanto outros passaram por “outros tipos de atividade disciplinar”. Diversos executivos de alto escalão também deixaram a empresa após as acusações se tornarem públicas.

 
Protestos na Activision Blizzard em 2021. Imagem: Reprodução

Em novembro, a Activision Blizzard criou um comitê para trazer novas políticas contra discriminação e assédio dentro da empresa, mas ao primeiro sinal de sindicalização dos funcionários, um executivo da companhia enviou um e-mail pedindo que eles “considerassem as consequências” da afiliação a um sindicato.

Em meio a todo o escândalo, diversos elementos terceiros, desde políticos americanos até a Nintendo, PlayStation e a própria Xbox repudiaram as supostas ações discriminatórias e assediadoras dentro da companhia.

Na época, Phil Spencer, chefe da divisão Xbox, disse estar “perturbado e profundamente incomodado” pelos acontecimentos. Na comunicação oficial pós-anúncio da compra, Spencer não comentou a complicada situação da Activision Blizzard diretamente.

Ele disse que a Microsoft está “comprometida à nossa jornada de inclusão em todo aspecto dos games, entre funcionários e jogadores” e que acredita que “sucesso criativo e autonomia andam lado a lado com tratar cada pessoa com dignidade e respeito”.

Em entrevista à CNBC após o grande anúncio da aquisição bilionária, o CEO Bobby Kotick respondeu a uma pergunta sobre as acusações de assédio e discriminação: “Qualquer problema de assédio ou discriminação é algo que eu levaria a sério e levo, e como muitas companhias hoje em dia, tivemos alguns desafios, mas trabalhamos neles e estamos comprometidos. Posso te dizer que é um dos meus focos e nós continuamos a melhorar a cultura com a esperança de ter a melhor e mais inclusiva cultura de ambiente de trabalho.”

Você assiste à entrevista completa abaixo:

Na mesma entrevista, Spencer também foi questionado sobre o assunto e lembrado que ele mesmo repudiou os supostos comportamentos da empresa.

Ele disse, dessa vez menos esguio: “Cultura é uma jornada em qualquer ambiente de trabalho. É algo que nós na equipe Xbox temos focado há muito tempo. Obviamente passamos pelo processo de diligência prévia, conversamos com a equipe de liderança na Activision Blizzard sobre o plano que já estão implementando. Procuramos apoiá-los nesse plano até o fechamento do acordo e após a conclusão. Sabemos que a coisa mais importante para uma organização criativa é que os funcionários se sintam seguros e ouvidos para que possam entregar o melhor. Não há nada mais importante para nós.”

É esperado que Bobby Kotick deixe o cargo de CEO da Activision Blizzard após o fechamento do negócio entre a empresa e a Microsoft. A notícia é vista positivamente entre alguns, que consideram a saída dele, que supostamente sabia e fez vista grossa aos grotescos acontecimentos, como benéfica.

Espera-se que a gestão da Microsoft possa melhorar as condições de trabalho desiguais e opressoras nos estúdios da Activision Blizzard.

Segundo o jornalista Jason Schreier, alguns funcionários relataram “otimismo” com as mudanças na gestão e a cultura positiva em múltiplos estúdios da Xbox.

As fontes dele também indicam que a organização sindical dos funcionários para se protegerem deve continuar. Ele também cita que há uma parcela furiosa com a Microsoft por dar a Bobby Kotick uma saída fácil da empresa, acompanhada de muito dinheiro proveniente da transação bilionária.


O metaverso foi citado como um dos motivos por trás da colossal fusão da Activision Blizzard ao Xbox, mas está longe de ser o único grande fator em jogo.

Há novas estratégias financeiras em andamento para a Microsoft, há mais possibilidades para jogadores donos de consoles da Microsoft ou que jogam via PC ou nuvem, bem como a ideia revigorante de que a cultura tóxica nos estúdios da Activision Blizzard possam ser reformulados de modo a tratar os funcionários com dignidade, respeito e igualdade.


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