‘Manifesto Comunista’ está de novo na moda – 21/12/2021 – Karla Monteiro

‘Manifesto Comunista’ está de novo na moda – 21/12/2021 – Karla Monteiro


Outro dia li um artigo no britânico The Guardian que dizia que o “Manifesto Comunista” está na moda —ou “is having a moment”.

No meu tempo, ninguém nem pronunciava a palavra comunismo —aliás, para demarcar os anos, só diz “no meu tempo” quem está dobrando ou já dobrou o cabo da Boa Esperança, como meu velho pai se referia à curva dos 50. A gente viu, ao vivo, a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, e partir daí, sintonizou na MTV.

Segundo o texto publicado no diário inglês, o revival é planetário. Os indícios da onda estariam por toda parte. Em Los Angeles, a cantora Grimes, ex-mulher do colonizador da lua, o bilionário Elon Musk, tuitou uma foto com o livro na mão. Na Somália, pela primeira vez, o famoso panfleto escrito por Karl Marx e Friedrich Engels no longínquo 1848 chegou às livrarias. E, na Inglaterra, a obra estrela vitrines das principais casas do ramo.

Para a geração politizada por Beavis and Butt-Head, a coisa toda anda meio embaralhada, diga-se de passagem. Ao mesmo tempo que temos que correr atrás do prejuízo, mergulhando no “Manifesto Comunista” para não soar a tia da galera, estamos bem confortáveis de printed mesh, calça baggy, pochete e tamancos plataforma. Saudades mesmo só da ovelhinha Dolly.

Entre os meus amigos comunistas, versados nos escritos de Marx e Engels, todos têm menos de 40 —ou menos de 35, eu arriscaria dizer. Aos 31, o historiador Jones Manoel, comuna como há muito não se via por estas bandas, lançou-se pré-candidato ao governo de Pernambuco pelo velho PCB. Os números que ele ostenta nas redes sociais comprovam o interesse pelo ideário que julgávamos morto: 183 mil seguidores no Youtube, 150 mil no Twitter e 145 mil no Instagram.

A propósito, se eu fundasse um partido, ia se chamar Partidão. Fica a dica, meninos: Partidão é irresistível.

Mas, voltando ao artigo do Guardian, a maré se explica pela tragédia social do nosso tempo. O capitalismo ganhara a guerra fria, porém, nunca entregou o que prometeu. Em vez de liberdade e bonança, fomos aprisionados num sistema perverso, sem saída, que nos transformou em pagadores de boleto.

Conforme o texto, um grande número de jovens está virando as costas ao capitalismo porque já entendeu que nunca vai poder, sequer, comprar uma casa própria, o sonho da minha geração. A concentração absurda de renda privilegia 1% em detrimento dos outros 99%.

Qual o sentido de seguir estudando, trabalhando sem o horizonte da vida melhor? Se não existe futuro, então, para quê? Só para enriquecer os ricos?

Luta de classes

Na aurora de 2022, o “Manifesto Comunista” completa 174 anos. Fora publicado em janeiro de 1848, às vésperas da Revolução Francesa daquele ano, como plataforma da Liga dos Comunistas, a primeira organização internacional de operários.

De acordo com Tariq Ali, que assina o prefácio da edição brasileira lançada pela Boitempo, trata-se do último grande documento do Iluminismo europeu e o primeiro a registrar um sistema de pensamento completamente novo: o materialismo histórico.

Divido em partes, escrito com rigor e fluência, fácil de ler, o “Manifesto” soou, para mim, extremamente atual e didático. Talvez não exista nenhum outro texto do século 19 que continue tão “up-to-date”.

Parágrafos inteiros explicam melhor o agora do que o tempo em que foram redigidos. Marx e Engels desenharam a evolução do capitalismo e suas consequências nefastas, inclusive prevendo o que hoje chamamos de globalização.

“Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo terrestre. Necessita estabelecer-se em toda parte, explorar em toda parte, criar vínculos em toda parte. Pela exploração do mercado mundial, a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países.”

Em meio às propostas, algumas estão aí, na pauta das esquerdas, sendo eternamente reivindicadas, como imposto fortemente progressivo, abolição do direito de herança, educação universal, reforma agrária. “Que as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução comunista. Nela, os proletários nada têm a perder a não ser os seus grilhões. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos.”


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