Livro de Graciliano Ramos sobre União Soviética eleva experiência de viajar ao sublime – 12/03/2022 – Ilustríssima

Livro de Graciliano Ramos sobre União Soviética eleva experiência de viajar ao sublime – 12/03/2022 – Ilustríssima


[resumo] Publicado postumamente, ‘Viagem’, livro em que Graciliano Ramos narra sua visita à União Soviética em 1952, ganha nova edição em um momento em que a Rússia volta ao centro do noticiário ao invadir a Ucrânia. Embora datado e enviesado politicamente em alguns trechos, uma vez que o autor era filiado ao Partido Comunista, o relato eleva a experiência do viajante a sublimes minúcias da observação.

Em apenas uma frase, um resumo quase perfeito da experiência de viajar: “Saímos, andando à toa, vendo coisas que se perdem em um instante”. Isso foi bem antes das selfies eternizarem momentos banais, quando não tolos, e o comentário não se refere a qualquer viagem. Tampouco seu autor é um turista qualquer.

Convidado em 1952 para visitar a União Soviética e a Tchecoslováquia (hoje República Tcheca), dois territórios que nem existem mais, pelo menos no que diz respeito à cartografia, o escritor Graciliano Ramos embarcou em uma experiência que, como descreve logo no primeiro parágrafo do seu relato, jamais imaginou que “pudesse acontecer a um homem sedentário, resignado ao ônibus e ao bonde quando o movimento era indispensável”. E disso nasceu “Viagem”.

Publicado postumamente em 1954, um ano após a morte do escritor, o livro ganha uma nova edição agora, como parte das celebrações dos 90 anos da editora José Olympio, e chega às livrarias no momento em que a Rússia está na pauta do dia com sua estúpida guerra contra a Ucrânia. Uma oportuna coincidência.

“Insignificâncias perdidas entre pessoas de 60 países”, foi como Graciliano definiu a certa altura o grupo de brasileiros de sua comitiva. Convidado para uma viagem de caráter aparentemente cultural pela União Soviética e Tchecoslováquia, o já renomado autor de “Vidas Secas” (1938), acompanhado por sua segunda esposa, Heloísa Medeiros Ramos, juntou-se às tais insignificâncias e colecionou um punhado de notas que não escondem o viés político desse membro do Partido Comunista do Brasil desde 1945.

Se sua recusa em transformar a literatura em veículo de propaganda já era famosa, como dá a entender o texto que acompanha esse relançamento, neste diário mais pessoal os óculos cor-de-rosa parecem, nas suas observações do cotidiano soviético dos anos 1950, substituir a sóbria armação que sempre definiu o rosto do autor alagoano nos seus retratos mais conhecidos.

Ao visitar uma casa de repouso para trabalhadores da indústria do chá em Sucumi (no livro, grafado como no original, Sukhumi), hoje capital da Abecásia, uma república autônoma dentro da Geórgia, que pertencia à União Soviética, Graciliano assim compara o individualismo do Ocidente e a uniformidade da sociedade soviética:

“Um ofício não é superior ao outro —e os homens tendem a uniformizar-se. Essa ideia choca nosso individualismo pequeno-burguês: achamos vantagens nas discrepâncias, receamos tornarmos rebanho. E nem vemos que somos um rebanho heterogêneo, medíocre, dócil ao proprietário. Queremos guardar o privilégio imbecil de não nos assemelharmos ao vizinho. Enfraquecendo-nos, julgamo-nos fortes. Realmente, somos bestas”.

Lidas 70 anos depois da vivência que as inspirou, essas linhas, coerentes com a paixão de Graciliano, ecoam com certa lucidez, ainda que distorcida. Organizado em torno de uma parada em Moscou para celebrar o 1º de Maio de 1952, cada encontro desse itinerário havia sido rigorosamente coreografado pelos agentes da União Soviética para que pudesse ser divulgado pelos convidados de várias partes do mundo.

É possível que Graciliano tivesse a compreensão, ou ao menos a suspeita, de que toda a empreitada era uma gigantesca manobra de propaganda, mas nem por isso o autor deixava de se encantar com a eficiência de tudo que via. Um bom exemplo disso é o relato da reação dos ilustres convidados ao desfile do Dia do Trabalho na praça Vermelha: “O que nos enchia de pasmo era a alma de todo um povo, manifesta nas organizações de operários, de estudantes, de sociedades incontáveis. Gente das oficinas, dos esportes, dos jornais, dos teatros, a marchar sempre, sempre”.

Surpreendentemente, porém, os elogios ao comunismo soviético dos anos 1950, ainda que generosos e às vezes ingênuos, não são a parte mais deliciosa dessa leitura. O que mais encanta nos relatos de Graciliano sobre essa viagem são justamente os detalhes pitorescos a respeito de outras culturas vindos de alguém que certamente não estava acostumado a sair do seu canto. Vejamos.

Em um passeio por uma “ruela arcaica” em Praga: “À esquerda, em fila triste e humilde, casinhas insignificantes se envergonham, escoram-se umas às outras como se receassem cair de velhice, friorentas e bambas”.

Fim de noite no hotel Alcron (Praga): “Ao fundo alguns pares dançavam. Sujeitos bem-vestidos, arredios, mulheres elegantes, criaturas ali bem visíveis, a alguns metros, e afastadas, afastadas em excesso dos operários, dos artistas e das pessoas que iam a Moscou, voltavam de Moscou. Eram restos da classe velha, tipos que já não podiam ter escravos e se arruinavam em loucura furiosa, agarrados a prostitutas”.

Sobre uma bailarina em uma recepção de despedida da comitiva da Geórgia: “Depois de executar várias dificuldades em companhia de um profissional, pôs-se a escolher pares na assistência. Os brasileiros, afeitos ao samba, resistiam, afinal se resignavam, desazados e perros, a mexer-se nas sábias piruetas do Cáucaso”.

Se essas foram as coisas que o olhar de Graciliano conseguiu registrar em “Viagem”, é possível lamentar a ausência de outros tantos detalhes que, como ele disse na frase que abre este texto, perdem-se em um instante. A própria obra, com sua publicação póstuma, não estava finalizada. Já na edição de 1954, ela vinha com notas “pormenorizadas” do roteiro da viagem. Como explica a introdução, elas são um “complemento natural da parte realizada e formam, como esta, um todo homogêneo que nos revela uma face nova do escritor”.

Ou talvez nem tão nova assim, podem argumentar os admiradores de “Vidas secas”, “São Bernardo” (1934) e “Memórias do Cárcere” (1954). A genialidade da escrita de Graciliano está sim, se não sob o manto da literatura, entrelaçada em um nada casual diário de viagens.

Assim como as “casinhas insignificantes” de Praga ou a “loucura furiosa” da velha classe na Geórgia, por todos os parágrafos o autor eleva a experiência do viajante a sublimes minúcias da observação, o que todo turista deveria carregar prioritariamente na mala. Tanto quanto a imponência de monumentos que visitamos pelo mundo, os pormenores de cada parada e sobretudo dos encontros com pessoas desconhecidas são a trama principal do aprendizado de uma viagem.

É impressionante como a vivência de Graciliano décadas atrás ainda nos é familiar. Que estrangeiro já não se sentiu como ele no saguão do teatro Bolshoi diante de uma língua desconhecida? “A turba escasseava, e no rumor decrescente não distingui uma palavra conhecida. Retalhos de frases davam-me a curiosa sensação de me haver tornado surdo. Os sons escorregavam-se confusos nos ouvidos inúteis.”

Que brasileiro, experimentando o frio do hemisfério norte pela primeira vez, não pensou o mesmo que o autor atingido pelo gélido vento do Cáucaso? “Num país de clima temperado, a cruviana descia de golpe e nos pregava uma peça, como se as neves eternas, vistas com respeito dias antes, decidissem abandonar a montanha clássica, entrar na roupa de infelizes americanos desprevenidos.”

São passagens assim que nos aproximam de “Viagem” e nos fazem desejar que Graciliano tivesse se lançado mais por outros horizontes. Seu “gran tour” pelo epicentro soviético foi sua última empreitada global. Datado? Sim. Com um viés político? Sim. Mas sobretudo um registro atemporal do aprendizado que é viajar.

Tais lições nunca são óbvias ou diretas. Como a própria história, o que vivemos quando nos aventuramos pelo mundo são dias gastos, para citar mais uma vez o autor, “a pensar em ver coisas que virão, coisas que se foram. O futuro e o passado. E o presente? O presente é o horrível hiato: nele se acumulam dificuldades medonhas”.

A brilhante colocação vem com a anotação “Mediterrâneo – 4 – julho – 1952”, indicando que Graciliano fazia questão de marcar onde havia escrito cada capítulo. Tamanha é sua força, porém, que ninguém acharia estranho se ela viesse seguida de “Kiev – 13 – março – 2022”.

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