Literatura consiste em inventar um povo que falta – 16/12/2022 – Marilene Felinto

Literatura consiste em inventar um povo que falta – 16/12/2022 – Marilene Felinto


(Estou sendo convidada, digamos assim, a interromper esta coluna de jornal. Deve ser porque escrevi há pouco tempo sobre Barack Obama —na verdade, sobre meu pai. Ou melhor, deve ter sido porque associei Lula a Obama e a minha própria loucura. Isso já aconteceu antes, por decisão minha, 20 anos atrás. Saí. Agora a decisão é deles, pelo meu rótulo de esquerdista. Talvez queiram limpar o ambiente para a pura “neutralidade” de opiniões sobre política. Nada de novo!)

Mundo virado. Circular por aí, ir e voltar, viajar tanto e não chegar a lugar nenhum… Viajar e, de algum modo, arrepender-se, toda vez. “Teria sido melhor ficar em casa,/ onde quer que isso seja?”, perguntava-se a poeta norte-americana Elizabeth Bishop.

Estranhos continentes, países, cidades e sociedades lançam perguntas cansativas, a que faltam respostas. “Será falta de imaginação o que nos faz procurar/lugares imaginados tão longe do lar?”, dizia Bishop.

Nenhuma resposta. Em uma de minhas viagens recentes, uma interrogação armou-se na minha cabeça quando um professor universitário de literatura brasileira contou de sua dificuldade de ensinar Guimarães Rosa nos dias de hoje, texto que soa “rebuscado” para um aluno de 19 anos, segundo ele.

“Aquela busca interna à linguagem” requer tempo para explicar, ele disse, “para que os alunos entendam a grandeza daquela escrita, enquanto tem tanta coisa que fala imediatamente a eles, que precisa ser lida, e que a universidade continua a se recusar a ler”.

O professor, da mais absoluta confiança como intelectual e leitor crítico de literatura, admirável por sua sensibilidade e seu olhar atento aos mais complexos processos de criação literária, me surpreendeu. Porque disse, inclusive, que, fosse ele um professor negro, teria legitimidade para dar Rosa aos alunos. Sendo branco, não tem.

O que sei (sobre “tanta coisa que fala imediatamente a eles”) é que parte dos estudantes daquela universidade é de origem pobre, vem de comunidades periféricas e tem pele preta, mas não só. O alunado é também muito rico e branco.

“Mas nem os contos de Rosa?”, pensei em perguntar. Mas nem mesmo um “Sorôco, sua Mãe, sua Filha”? Afinal, o devir louco de Rosa é tão de todo mundo, um elogio coletivo e solidário à loucura de todos nós.

Fato é que o professor, diante da “falta de sintonia” dos alunos com o texto rosiano –e diante da acomodação da academia a seu cânone seleto –, optou por livro de um escritor jovem, com presença e divulgação na mídia, um desses supervalorizados, mas que são apenas medianos.

Para mim, literatura surge e se constitui de atmosferas, não é narração enfadonha de fatos, sem personalidade, sem alma. Escrever, afinal, e como afirmou Deleuze em “A Literatura e a Vida”, “não é contar as próprias lembranças, suas viagens, seus amores e lutos (…). É um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida”.

O tal escritor contemporâneo e que, conforme o professor, respondia de imediato à demanda do alunado, é daqueles que peca pelo excesso de realidade ou de imaginação (o que é a mesma coisa, segundo Deleuze), e cujo texto li aos bocejos.

A demanda do alunado seria por quais temas ou modos, estilos de escrever? Lembro com alegria do quanto ler Guimarães Rosa aos 19 anos fez de mim uma escritora menos pior.

Daqueles tempos para cá, o que teria mudado tanto? O apelo fácil da internet, das redes sociais, talvez, que consagra literaturas sem consistência real à categoria de espetáculos, como se fossem obras?

Se são os temas imediatos o que falta, Rosa trata de todos eles, com genialidade: pobreza, negritude, desigualdade etc., que ele chama de “pobrepérrima” em “Primeiras Estórias”: “Nisto, o visto: a que ia com feixinho de lenha, e com a escarrapachada criança, de lado, a mulher, pobrepérrima”.

E ele enxerga todos os indivíduos insignificantes (os “lagalhés” ou “leguelhés”), na mesma coletânea: “Eis que eis: um lagalhé pacífico e honesto… fôra [sic] quem enviara Damastor Dagobé, para o sem-fim dos mortos”; “entre seus muitos descalços servos pretos, brancos, mulatos, pardos, leguelhés, prequetés, enxadeiros, vaqueiros e camaradas… Tio Man’Antônio doou e distribuiu terras”.

Mas quem se importa se o professor é preto ou branco? Quem se importa com Guimarães Rosa? Nada mais me choca: viajar e viajar e voltar para lugar nenhum, apenas um tanto mais pobre do que antes, é meu destino.

A saúde como literatura, como escrita, consiste em inventar um povo que falta. Não se escreve com as próprias lembranças, a menos que delas se faça a origem ou a destinação coletivas de um povo por vir, ainda enterrado em suas traições e renegações (Gilles Deleuze).

Eis que eis: que fiquem os bajuladores, os medíocres, os medianos, os comportados, os subalternos. Eis que eis.

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