Lista de melhores filmes expressa ideologia de cada época – 15/12/2022 – Ilustríssima

Lista de melhores filmes expressa ideologia de cada época – 15/12/2022 – Ilustríssima


[resumo] Nova lista dos melhores filmes do cinema, da revista Sight and Sound, traz as mudanças mais drásticas da história da tradicional votação. Pela primeira vez um filme dirigido por uma mulher, Chantal Akerman, chega ao topo, e obras experimentais e mais recentes ganham espaço enquanto a produção comercial dos EUA pré-1970 perde posições, o que reflete as demandas dos tempos atuais por mais inclusão e uma nova leitura do cânone cinematográfico.

No início deste mês, a tradicional revista britânica Sight and Sound publicou sua mais recente pesquisa sobre os cem melhores filmes da história do cinema. Não é uma pesquisa qualquer: a revista realiza uma nova versão dela a cada dez anos, desde 1952.

A abrangência e a regularidade conferiram à lista um peso de autoridade que a distinguem de outros esforços similares, mesmo que seja saudável suspeitar de eventos desse tipo. É natural, portanto, que a cada nova divulgação da pesquisa sejam retomados debates acerca de mudanças no cânone cinematográfico.

Não foi diferente neste ano. Das oito listas já produzidas pela revista, talvez esta de 2022 tenha despertado mais polêmica, uma vez que nenhuma anterior trouxe mudanças tão drásticas. A começar pelo primeiro lugar, “Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelas” (1975), filme da cineasta belga Chantal Akerman.

Trata-se de um grande filme, porém bem mais desconhecido que os três clássicos que lideraram a pesquisa em edições anteriores —”Ladrões de Bicicletas” (1948) em 1952, “Cidadão Kane” (1941) de 1962 a 2002 e “Um Corpo que Cai” (1958) em 2012.

Na atualização recém-divulgada, “Um Corpo que Cai” foi para a segunda posição, e “Cidadão Kane”, para a terceira. Completam o top 10 Era uma Vez em Tóquio”, de Yasujirô Ozu, “Amor à Flor da Pele”, de Wong Kar-Wai, “2001: Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick, “Bom Trabalho”, de Claire Denis, “Cidade dos Sonhos”, de David Lynch, “Um Homem com uma Câmera”, de Dziga Vertov, e “Cantando na Chuva”, de Gene Kelly e Stanley Donen, nesta ordem.

Metade deles não constava no topo da lista de 2012, como os três lançados nos últimos 25 anos. No geral, um quarto dos cem filmes foi renovado. Simbolicamente, “A Regra do Jogo” (1939), de Jean Renoir, o único filme que se manteve no top 10 em todas as edições anteriores, ficou agora em 13º.

Em vista desse resultado, sobraram comentários sobre a lista ser modista ou política, ou que o primeiro colocado seria muito elitista, ou ainda a respeito da ausência de mestres do passado. Reclamou-se também que os editores da revista expandiram demais o universo de votantes. Foram neste ano 1.639 críticos, programadores, curadores, arquivistas e acadêmicos participantes, número recorde na história da lista, cada um enviando seus dez filmes preferidos —contribuí para as duas últimas edições.

Eleger os maiores filmes de todos os tempos será, necessariamente, um gesto incompleto. O cinema é muito rico para ser resumido em cem títulos. Desconfiar de cânones, portanto, é inevitável, embora eles sejam úteis, nem que seja para tentar derrubá-los. Cânones são conservadores. Uma pesquisa como a da Sight and Sound será sempre a afirmação de uma tradição.

Listas individuais oferecem um prazer maior da descoberta e do exercício lúdico, enquanto ao cânone cabe este papel pesado da afirmação e dos questionamentos. O seu valor institucional é colocado em questão pelas reações a favor e contra.

Listas como a da Sight and Sound têm duas grandes funções. No lado prático, oferecem um agrupamento fértil de filmes para quem deseja traçar um caminho pela história do cinema. Independente de minhas preferências pessoais, posso afirmar que um leitor da Folha que resolvesse passar os próximos dois anos assistindo a um filme da pesquisa por semana teria uma experiência rica.

Os mais cínicos diriam que é uma boa peça de promoção; como otimista, prefiro enxergá-la pelo seu valor pedagógico, mas no fundo se trata de ambas as coisas.

Por outro lado, listas são úteis para um mapeamento de tendências e olhares. A intersecção entre gosto individual e a mão do mercado é visível, mas difícil de aferir por completo. Um dos sinais mais notáveis da pesquisa da Sight and Sound é uma redução do cinema americano produzido pelos grandes estúdios.

Podemos especular que isso decorre dos efeitos dos serviços de streaming e do descaso dos estúdios americanos com a sua própria história, em favor de produções recentes. Os filmes americanos de médio ou grande orçamento parecem existir hoje menos dentro de um contínuo da história do que em outros tempos.

O cinema comercial americano dos anos 1970, por exemplo, perdeu espaço na lista —vários títulos famosos, como “O Poderoso Chefão 2” (1974), “Nashville” (1975) ou “Chinatown” (1974) foram trocados por conterrâneos de fora da indústria, como “Wanda” (1970), 48º, e “O Matador de Ovelhas” (1977), 43º. Pela primeira vez esses filmes americanos não sugerem um momento áureo a se retornar, mas uma extensão do cinema dito clássico dentro deste cânone.

É uma tendência que também aponta uma preferência por cineastas de fora da indústria e menos ligados ao cinema comercial. A ideia popularizada pela crítica francesa dos anos 1950, do cineasta que consegue impor sua visão de mundo por dentro do sistema, parece em desuso. Howard Hawks, o grande exemplo da política dos autores ao lado de Hitchcock, foi uma das ausências mais mencionadas.

No geral, a lista fez um movimento na direção de títulos mais novos. Todas as décadas até 1970 tiveram o número de títulos reduzidos, enquanto todas a partir dos anos 1980 aumentaram sua representação.

A presença excessiva de filmes muito recentes, como dois vencedores do Oscar da última década, “Parasita” (2019), em 90º, e “Moonlight” (2016), em 60º, parece-me um dos pontos fracos, uma correção exagerada em relação a 2012, cuja lista foi acusada de dar as costas ao contemporâneo.

A mão forte do mercado é notável principalmente na predominância de filmes que circularam em cópias digitais restauradas nos últimos anos ou lançados em Blu-ray. Em suma, as chances de um filme se reduzem drasticamente sem uma cópia de alta definição. Minutos após a divulgação da pesquisa, a Criterion Collection, selo de home video mais prestigioso do mundo, anunciou com pompa nas suas redes sociais que tem direitos sobre cerca de metade dos filmes, uma centralidade bastante incômoda.

Questões ideológicas impactam o resultado desde sempre. Não fossem os traumas causados pela Segunda Guerra, a lista de 1952, a primeira da revista, não teria “Ladrões de Bicicleta”, com seu aparente realismo, em 1º lugar, enquanto “Cidadão Kane”, com seus excessos efeitos visuais, figurava em 11º. Em 1962, a presença do recém-lançado “A Aventura” (1960) em 2º lugar indicava um gesto de afirmação aos cinemas novos.

Discussões sobre diversidade foram muito recorrentes nos meios da crítica de cinema dos últimos anos, e a lista da revista britânica reflete este desejo por buscar um cânone mais plural. O peso dos curadores de festivais, a quem com frequência é depositado o dever de conduzir este processo, é bem visível, muitas vezes maior que o da crítica tradicional.

Defensores de um cânone mais clássico por vezes ignoram as forças ideológicas que ajudaram a formar suas preferências. Os partidários de um novo cânone são bem mais conscientes de tais processos, mas nem sempre reconhecem o papel do mercado sobre ele.

Se algo me parece decepcionante na lista de 2022 é como o chamado sul global permanece ignorado. Há somente um filme da Tailândia (“Mal dos Trópicos”, 95º), Índia (“A Canção da Estrada”, 35º), Irã (“Close Up”, 17º) e dois do Senegal (“Touki Bouki”, 66º, e “A Negra de…”, 95º). É muito pouco.

Um cânone que se deseja plural não pode excluir por completo o cinema latino-americano ou dar tão pouco espaço ao sul da Ásia ou ao cinema africano. A falta de interesse em promover um cinema fora dos grandes eixos de produção resulta em uma falta de curiosidade por ele.

A presença de “Jeanne Dielman” em primeiro lugar é, com certeza, a maior novidade da lista. Assim como “Kane” ou “Um Corpo que Cai”, o filme de Akerman está entre os maiores já feitos, e trata-se de uma escolha crível entre muitos candidatos justos, ainda mais em uma pesquisa que reforçou a presença de um cinema mais experimental.

“Ladrões de Bicicleta” apontava para o triunfo de um cinema nobre e humanista, enquanto “Cidadão Kane” e “Um Corpo que Cai” representavam a vitória da personalidade do artista dentro da indústria, sem deixar de afirmar as possibilidades do sistema industrial. Já “Jeanne Dielman” é um filme estrutural, dirigido por uma mulher e que estabelece outra relação com o espectador.

Acompanha-se três dias na vida de uma dona de casa que se prostitui de noite. O filme narra eventos rotineiros, mas é tão deliberadamente construído quanto “Cidadão Kane”. “Jeanne Dielman” tem uma reputação realista, mas se trata de um realismo artificial, com a mão da cineasta sempre muito visível.

A dona de casa é interpretada por Delphine Seyrig, estrela do cinema francês do período, e os sentidos do filme surgem de sua presença em cena. Não se propõe desaparecer o artifício do cinema em uma ilusão de realismo, mas se posicionar diante dele. É o oposto de “Ladrões de Bicicleta”.

Trata-se de um filme criado partir das ações em cena. Não há psicologia, e tudo existe na superfície de gestos por vezes contraditórios. O final impactante menos oferece uma catarse do que a oportunidade de repensar esses atos.

Críticos são atraídos por filmes sobre o olhar e o cinema. “Jeanne Dielman”, assim como “Um Corpo que Cai”, reflete a respeito de olhar para uma mulher e as relações de poder inerentes a isso. Ambos colocam em primeiro plano um espelho sobre a própria atividade cinematográfica. O ato de filmar e o de ver.

O clássico de Hitchcock é um filme sobre as prerrogativas perversas do olhar do cineasta para a mulher observada e desejada. Já o de Akerman coloca a ênfase na interrogação da relação que o espectador desenvolve com as imagens daquela mulher em ação.

Além da lista da crítica, a Sight and Sound conduz, desde 1992, uma votação apenas com cineastas, da qual participaram 480 artistas. Nesta pesquisa paralela, o filme de Akerman terminou em 4º lugar, reforçando sua posição sedimentada no cânone, com influência cada vez mais crescente. O campeão foi “2001”.

É possível observar nos resultados da pesquisa britânica uma afirmação da cultura cinematográfica desenvolvida na internet, com um pé no formalismo e o outro na sociologia. Traz com ela vantagens como ecletismo e curiosidade, mas também limitações, como uma atenção curta e ausência de interrogações maiores.

A despeito das discussões sobre grandes mudanças e o caráter revisionista da lista, ela ainda é uma afirmação de um cânone reconhecível. Alfred Hitchcock, o cinema clássico de Hollywood, e Jean-Luc Godard, o modernismo dos anos 1960, seguem os nomes mais lembrados com quatro filmes cada, embora em média com posições mais baixas do que em pesquisas anteriores.

Apontam-se mudanças de paradigma geracionais e de formas de assistir e de se posicionar diante do cinema, mas apenas até certo ponto. Trata-se menos de uma revolução do que de uma correção do cânone. Como quase toda modernização conservadora, muda-se para preservar a si mesmo.

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