Legado de insubordinação de 1972 vive ainda hoje – 25/12/2021 – Hermano Vianna

Legado de insubordinação de 1972 vive ainda hoje – 25/12/2021 – Hermano Vianna


Quase 2022. Ano lotado de efemérides, que podem nos ajudar a repensar nosso projeto de nação ou determinar se queremos mesmo ser uma nação. De onde viemos e para onde vamos. Somos realmente um país moderno e independente?

Não haverá tempo para falar de outras coisas. Por isso aproveito o finalzinho de 2021 e antecipo outras comemorações que não vão ter chance de competir, na escassez que comanda a economia da atenção midiática, com centenário disso, bicentenário daquilo —e eleições, além da pandemia eterna enquanto dura.

Quero aqui celebrar vários cinquentenários. De volta a 1972. Fazia escuro, mas muita gente combatia a repressão com alguns dos cantos mais libertários e poderosos da história da música no Brasil.

Lançamento de “Acabou Chorare“, “Transa“, “Drama – Anjo Exterminado”, “Expresso 2222”, “Jards Macalé”, “A Dança da Solidão”, “Ben”, “Clube da Esquina”. Isso para citar só alguns dos discos que marcaram a época e a teia de linhas evolutivas da cultura brasileira até hoje.

O ano de 1972 começa com a volta de Caetano Veloso e Gilberto Gil do exílio. Caetano traz na bagagem “Transa” já gravado. Logo em seguida, Gil faz sucesso com compacto-simples-manifesto apresentando “Cada Macaco no Seu Galho” (com Caetano) e “Chiclete com Banana”.

Airton Moreira, que lançou “Free” naquele ano, já estava ensinando o Tio Sam (via Miles Davis, Wayne Shorter, Chick Corea etc.) a tocar um tamborim e pegar no pandeiro. Os Novos Baianos, coletivo que passou a ser bem orientado por João Gilberto, estava colocando mais rock no seu samba.

A orientação de João Gilberto, o mesmo que fixou no coco de Caetano a identificação “somos chineses”, estava longe de ser nacionalista. Incluía sim Assis Valente, mas misturado com o Oriente de Paramahansa Yogananda e com pílulas de vitaminas compradas nos EUA (ainda raras em farmácias brasileiras).

Tratamento de choque gentil: abertura de portais para outras percepções artísticas. Como João Gilberto ensinou, naquela época, para Galvão: “Um encontro é coisa séria”.

No LP “Expresso 2222”, Gil aconselhava: se oriente, rapaz, e considere a possibilidade de ir para o Japão. “Ben” animava a festa com “Taj Mahal”. Isso no mesmo ano em que Hélio Oiticica, direto de Nova York (centro do Ocidente de Andy Warhol e John Cage), não via escapatória além de “experimentar o experimental” (texto para o cinquentenário da Semana —as coisas se repetem…).

“Fios soltos”. Experimentamos com gosto, com alegria. No último Festival Internacional da Canção, em setembro de 1972, Raul Seixas apareceu para todo o Brasil cantando “let me sing my rock’n’roll”. E Walter Franco radicalizou tudo, em transmissão nacional, com “Cabeça”, momento em que biscoitos finos da música mais-que-concreta foram enfiados pelas goelas das massas, que vaiavam sem parar.

Aquela coisa toda não poderia ficar contida nos limites temporais de um único ano. Mil novecentos e setenta e três presenteou o país com três dos discos mais experimentais de nossa aventura cívica-estética: “Araçá Azul”, de Caetano Veloso; “Ou Não”, de Walter Franco; “Amazonas”, de Naná Vasconcelos. Nunca tivemos tanta ousadia?

Responder sim seria cair numa armadilha nostálgica. Poderia chamar essas três obras de “clássicos”, mas aprendi com Debussy defendendo seu “grande mestre” Bach: “Por que deveria ser chamado de clássico, já que ele vive, ele respira e palpita ainda hoje?”

“Araça Azul”, “Ou Não” e “Amazonas” e o legado de insubordinação de 1972 vivem e respiram ainda hoje. E educam nossos ouvidos para conseguir perceber o que palpita nos lançamentos contemporâneos, na preparação para 2022.

Lista evidentemente incompleta (como a anterior) de outra utopia desesperada de Ano Novo: “São”, o esplendoroso novo disco de Thiago Amud; o “transflorestar” de Iara Rennó; a arte curativa pós-death em qualquer trabalho de Josh Krigg; novas buscas das batidas perfeitas do funk, do bregafunk, de piseiros e arredores nada periféricos (como DJ K: “Não está mais produzindo, está fazendo bruxaria”); os instrumentos de “brincadeira” da garotada do Fundo de Quintal OFC, interior profundo do Maranhão, centro do YouTube.

Também a bateria de Igor Cavalera no Palais de Tokyo ocupado por Anne Imhof; o presente que Letieres Leite nos deixou com Rumpilezz dançando sobre as claves de Moacir Santos; o prog-metal paraibano do Papangu; a pós-geografia de “Delta Estácio Blues” de Juçara Marçal (e seu “direto ao coração” enquanto Moor Mother nos ensina que as mulheres de sua família ancestral colheram tanto algodão que salvaram o mundo).

Tem mais, muito mais. Muitas pessoas cantando bem: não vamos deixar ninguém esculhambar com a nossa história experimental.


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