Juliette Lewis fala sobre thriller ‘Yellowjackets’ e diz que sabe seu valor – 12/01/2022 – Cinema e Séries

Juliette Lewis fala sobre thriller ‘Yellowjackets’ e diz que sabe seu valor – 12/01/2022 – Cinema e Séries


Nova Orleans


The New York Times

Juliette Lewis vem pensando muito sobre ser invencível. O que ela não é, claro –basta ver a joelheira ortopédica de plástico que protege sua perna direita por sobre calças pretas de couro ecológico. Ela tinha acabado de gravar o thriller psicológico “Yellowjackets” para a rede Showtime, em meio ao isolamento da Covid no Canadá, e partiu direto para férias ensolaradas, mas exagerou fisicamente e rompeu um menisco e o ligamento anterior cruzado, lesões comuns em atletas mas, no caso dela, derivadas de anos de saltos e passos de dança exuberantes nos palcos com sua banda de rock, Juliette and the Licks.

Invencibilidade foi uma das palavras tema que ela deu a Cubs the Poet, um parente de Lewis que serve como artista residente do Ace Hotel em Nova Orleans; ele escreve poemas na hora. “Excesso de vigor e entusiasmo”, ela disse a ele, descrevendo por que estava mancando de um lado para outro de Nova Orleans, onde está terminando de rodar a versão repaginada de “Queer as Folk”.

“E além disso, falta de alongamento. Mas dizer isso não parece tão cool”, ela disse, rindo, enquanto ele digitava o poema. Lewis, 48, trabalha desde a adolescência e deixou sua marca em filmes como “Cabo do Medo” e “Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador”.

“Eu me apanho, na metade da vida, em uma situação em que conheço meu valor onde quer que eu esteja”, ela disse. Mas acrescenta que seu senso de limites precisou de uma boa sintonia fina. “Eu descobri só recentemente que existia um conceito como o de procurar o equilíbrio entre a vida e o trabalho. Não sabia que existia um nome para isso. É um conceito maravilhoso. Eu achava que o esquema era trabalhar até cair, trabalhar até explodir, e aí você faz uma pausa para curar seu corpo e sua mente”.

Mas ela acrescentou que não estava se queixando de seu trabalho. “Essa indústria me alimentou. Não existe outro lugar para mim como uma fadinha esquisita da imaginação”.

“Yellowjackets” —​disponível no Brasil pela Paramount+— se passa em parte na década de 1990, o momento em que Lewis ascendeu em Hollywood, e vivemos um período no qual a cultura parece estar passando por um momento de franqueza sobre a maneira pela qual as mulheres foram (mal)tratadas no passado, o que acrescenta uma dimensão adicional à série.

A mecânica da celebridade e os limites impostos às mulheres jovens –”se você tem cabelos castanhos, seu papel é o de adolescente sarcástica e rebelde; se você é loira, o papel é de bonitinha e burra”, nas palavras de Lewis– quase a fizeram desistir do cinema. (Martin Scorsese, que a escalou para “Cabo do Medo”, salvou sua carreira.) Só agora, depois dos 40 anos, ela encontrou um papel que interroga de maneira inteligente as expectativas que eram impostas às adolescentes então e que trata da recuperação que eles precisam procurar como adultos.

Karyn Kusama, produtora executiva de “Yellowjackets”, disse que não planejou espelhar a década de 1990 ao selecionar seu elenco, que também inclui Melanie Lynskey e Christina Ricci, mas que, quando isso aconteceu, a reação da audiência foi positiva.

“De alguma forma nós sentíamos que éramos donos de suas imagens”, ela disse sobre os dias iniciais de carreira de suas estrelas. “E não éramos, não éramos donos de coisa alguma. Talvez tenha sido isso que nos enlouqueceu como cultura: o fato de que jamais tenhamos podido possuir nossas estrelas da maneira que desejávamos”.

Isso talvez se aplique de maneira especialmente intensa a Lewis, que sempre resistiu a categorizações. “Um diretor sempre quer alguém disposto a ir a extremos, talvez dentro de uma mesma cena. E ela tem todo o necessário para isso”, disse o cineasta Tate Taylor, que dirigiu Lewis no filme de terror “Ma” (2019). “Ela consegue apavorar o espectador no começo de uma cena a ponto de você ter medo de morrer e no final da cena ela parte seu coração”.

“A maneira pela qual ela ostenta sua vulnerabilidade é diferente do que eu vi em qualquer outra atriz”, ele acrescentou. “Você se sente como um voyeur quando contempla sua vulnerabilidade”. Ele também queria Lewis para “Histórias Cruzadas” (2011), um filme de época indicado ao Oscar, mas Lewis estava ocupada em uma excursão à Europa com sua banda.

Como atriz e cantora, Lewis teve sua cota de momentos de invencibilidade: personagens juvenis que ostentavam empáfia adolescente até que as coisas desabavam, em muitos casos brutalmente. Ela voltou a garimpar esse território agora em “Yellowjackets”, mas visto pelo outro lado. Sua personagem, Natalie, que foi estrela de futebol na época do segundo grau, sobreviveu a uma queda de avião em uma região selvagem com algumas colegas de time.

A série alterna entre as violentas consequências do desastre, acompanhando as adolescentes em flashbacks que levam o espectador à década de 1990 e o presente, quando Lewis e suas colegas de elenco, Ricci, Lynskey e Tawny Cypress, tentam enfrentar as consequências do trauma como adultas. (Sophie Thatcher interpreta Natalie como adolescente.)

“O papel de Natalie foi escrito, acredito, como o de uma força tóxica”, disse Lewis. “Mas ela regride completamente e se torna fraca e conciliatória com as meninas. A maneira pela qual ela termina é estranha. Não imaginei que fosse assim”.

Em longas conversas nas noites posteriores às filmagens, as estrelas da série, todas com mais de 40 anos, trocaram ideias sobre a dinâmica de poder da década de 1990 e sobre as posições de poder de cada gênero. “Todas nós contamos histórias de horror sobre aquele período –sexismo, misoginia”, disse Lynskey, 44, que estreou em “Almas Gêmeas”, em 1994.

“Quando todas nós começamos, acho que nos convenceram da ideia de que tínhamos de fazer tudo que pudéssemos até chegar aos 40”, ela acrescentou. “Eu não via muitas mulheres mais velhas tendo carreiras magníficas”. O streaming mudou a situação, em alguma medida, mas Lynskey disse que “é preciso muita tenacidade para persistir e acreditar que o tempo que você tem no ramo não é finito”.

Lewis foi indicada ao Oscar aos 19 anos contracenando com Robert De Niro em “Cabo do Medo”, e logo em seguida teve outro papel de enorme impacto como uma matadora selvagem em “Assassinos por Natureza”, de Oliver Stone.

“O papel se transformou em um tema bonitinho de Halloween”, ela disse. “A cada Halloween, pessoas na mídia social me mandam fotos em que aparecem vestidas como os personagens de ‘Assassinos por Natureza’”.

Estávamos tomando café no deque do topo do hotel, sentadas juntas em uma cama redonda para que ela pudesse estender melhor sua perna lesionada. Lewis tinha tirado os tênis bem gastos que usava e estendeu os dedos dos pés, como a bailarina que treinou para ser quando criança. As palavras de Lewis circulam como imagens de um caleidoscópio, entremeadas por surtos de energia cinética. Ela se mexe, flexiona e retorce braços e pernas e me contou histórias sobre Stone.

“Ele trata você como um sargento do Exército”, ela disse. “É igualmente insultuoso com homens e com mulheres”. Ela ressaltou que, quando hesitou em tirar a roupa para uma cena de sexo, dizendo ao diretor que a cena parecia gratuita, ele concordou com sua sugestão de ficar vestida.

Nos sets de filmagem, ela não tem dificuldade em falar sobre suas necessidades criativas, ainda que na adolescência “eu não fosse fácil”, disse. Nick Nolte e Jessica Lange, que interpretavam seus pais em “Cabo do Medo”, propuseram levá-la a um parque de diversões como uma experiência de aproximação familiar. Mas, teimosa, Lewis recusou.

“Hoje eu fico dizendo a mim mesma, sua (palavrão), por que é que você perdeu a oportunidade de um (palavrão) passeio com Nick Nolte e Jessica Lange, sua adolescente insuportável!” O romance que ela teve na época com Brad Pitt, a quem conheceu quando os dois trabalharam juntos em um filme para TV, coincidiu com o momento em que ambos estavam saindo do anonimato. “Estávamos os dois resolvendo nossas inseguranças”, ela disse.

Ela cresceu na região de Los Angeles; seu pai era ator e costumava fazer papéis pequenos, principalmente em westerns. “Às vezes tínhamos dinheiro e às vezes, não”, ela disse. Em lugar de contratar babás, ele a deixava no trailer de maquiagem enquanto trabalhava. Os pais de Lewis se separaram e criaram os filhos –cada qual tinha outros filhos de outros relacionamentos– de modo bastante boêmio. A mãe dela, artista plástica e gráfica, era o tipo de mãe que insistia em que a filha escovasse os dentes com bicarbonato de sódio para evitar o flúor.

“Meus pais cultivaram a rebelde em mim, ou seja, eles cultivaram meu espírito individual”. (Os dois estudaram a cientologia, assim como Lewis, mas ela não se define como adepta da religião. “Sou espiritualista”, diz.)

Quando Lewis chegou aos 14 anos, já tinha um agente e começou a conseguir trabalho em sitcoms. O desempenho dela na escola não era bom. “Encontrar propósito ao contar histórias me ajudou a evitar problemas”, ela disse. Foi algo que ela percebeu mais tarde, quando tinha pouco mais de 20 anos e as demandas da fama começaram a pesar sobre ela; Lewis se sentia distante da imagem que era esperada de alguém em sua situação.

“O que me interessava era tentar coisas nos meus próprios termos”, ela disse. “Eu usei um chapéu que comprei por US$ 15 (R$ 83) em uma venda de garagem no Vale de São Fernando em uma cerimônia do Globo de Ouro. Mas em sessões de fotos, havia momentos em que eu tinha de me trancar no banheiro para chorar por causa da pressão”.

Ela se viciou em drogas. “Foi difícil. Passei por uma implosão”, disse Lewis. Aos 22 anos, ela parou de trabalhar por dois anos para recuperar a sobriedade. A pausa prejudicou a trajetória de sua carreira, ela disse. Mas, depois de fazer 30, decidiu abandonar de novo o trabalho como atriz e concentrar suas atenções na banda Juliette and the Licks. Ela cantava e compunha há muito tempo sem que ninguém soubesse.

“Quando cheguei aos 30 anos, fiquei pensando que existia uma coisa que eu amava demais e ainda não tinha feito. E que eu já tinha 30 anos. O que estava esperando?” Ela passou os seis anos seguintes excursionando com sua banda em modo grunge.

“Juliette chegou atirando, fervilhando, disposta e determinada a ser uma estrela do rock”, disse Linda Perry (da banda 4 Non Blondes e compositora de “Get the Party Started”, sucesso na voz de Pink), a produtora do primeiro EP de Lewis. “Ela não era uma atriz que estava tentando se tornar cantora, mas sim uma estrela de rock ocupando a posição que lhe era devida”.

Quando a banda de Lewis se desfez pela primeira vez, uma década atrás, a carreira dela nas telas voltou a ganhar impulso. Colegas de elenco e diretores expressam enorme admiração pela sua capacidade de conjurar o imprevisível, especialmente como parte do trabalho estafante de uma produção de TV que depende do conjunto do elenco.

“Ela é como um fio desencapado quando está trabalhando”, disse Kusama, que dirigiu o primeiro episódio de “Yellowjackets”. “É uma das atrizes mais instintivas e mais intuitivas com quem já trabalhei. Aprendi rapidamente, no piloto da série, que ela jamais repetiria a interpretação de uma cena”.

Lynskey recorda uma cena no final da temporada. Os personagens das duas “têm um relacionamento um tanto antagônico; as duas trocam farpas o tempo todo”, ela disse. Mas em uma cena, “fiz a escolha de olhar para ela como se para verificar se estava bem e, no momento em que olhei em sua direção, ela caiu em lágrimas. Ela está sempre assim, sempre presente, sempre à beira da emoção a cada momento”.

Em “Yellowjackets”, Natalie enfrenta problemas por vício e outras dificuldades. “Eu não queria que Natalie se tornasse uma personagem tão sombria quanto se tornou, mas a decisão não foi minha, foi dos roteiristas”, disse Lewis.

Ela pareceu se incomodar um pouco quando perguntei por que ela parecia ser vista como tão talentosa em interpretar pessoas com passados traumáticos ou tendências violentas. Ela gosta de ressaltar que, depois de “Assassinos por Natureza”, fez uma comédia natalina de Nora Ephron, contracenando com Steve Martin. Mas o filme não fez assim tanto sucesso.

“Manter-me em um espaço de dor e apatia sustentadas –isso é exaustivo para mim”, disse Lewis. Ela também precisa de energia, de barulho. Quando Taylor organizou uma festa em sua casa no Mississipi durante a filmagem de “Ma”, Lewis se entusiasmou tanto durante “Jump”, um clássico do hip-hop, que fez com que todos os convidados pulassem juntos.

“Havia 45 pessoas lá”, disse Taylor. “Um quadro caiu da parede, uma escultura virou”. O pessoal da equipe de filmagem teve de reforçar o piso do local. “Era uma casa construída em 1830 –e Juliette Lewis quebrou o salão de baile, dançando”, ele disse, rindo.

Não existe invencibilidade. Mas depois de uma carreira de quase 35 anos, Lewis sabe o que a sustenta. “Acho que aquilo que você aprende com o tempo é que tem a capacidade de se recuperar, desde que coloque o coração e o cérebro nisso”, ela disse. “É preciso ter disciplina e não atrapalhar a você mesmo”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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