Jovem fez Jordan Peele chorar durante audição para novo filme do diretor; conheça – 31/07/2022 – Cinema e Séries

Jovem fez Jordan Peele chorar durante audição para novo filme do diretor; conheça – 31/07/2022 – Cinema e Séries



The New York Times

Quando Brandon Perea tinha 15 anos, e estava em turnê pelos Estados Unidos como dançarino profissional e patinador, ele teve um momento de epifania, no estacionamento de um restaurante Blue Coast Burrito: se mudaria de Chicago para Los Angeles a fim de tentar realizar seu sonho de se tornar ator.

Mas sonhos raramente levam em conta os momentos de dificuldade. Perea achou que estava com a vida feita quando, aos 20 anos, conquistou um papel regular, como o estudante Alfonso Sosa, conhecido como French, na enigmática série “The AO”, da Netflix, mas o programa acabou cancelado depois de apenas duas das cinco temporadas planejadas.

“Eu tinha muita confiança sobre o lugar a que tinha chegado, e acreditava que conseguiria um monte de papéis depois daquele”, disse Perea, embora trabalhos novos tenham se provado escassos. “Eu ficava naquele estranho meio-termo entre ‘The OA’ ter sido um trabalho maravilhoso, que mudou minha vida, mas ao mesmo tempo não ser o tipo de trabalho em meu currículo que pudesse me ajudar a superar atores mais famosos na disputa pelos melhores papéis. Você vai às audições porque pode ser que o ator mais famoso diga não, mas sabe que quem diabos diria não a um papel tão bom?”

Ainda assim, Perea continuou a batalhar pelo seu sonho, e seus esforços foram recompensados quando ele conseguiu um papel de destaque em “Não! Não Olhe!”, o novo filme de Jordan Peele, estrelado por Daniel Kaluuya e Keke Palmer como dois irmãos que tentam fotografar uma entidade extraterrestre que veem pairando sobre seu rancho na Califórnia. Os esforços deles terminam envolvendo Angel, um jovem de cabelos platinados, empregado de uma loja de eletrônicos, que Perea se divertiu demais ao interpretar. Embora Angel pareça terminalmente entediado quando aparece no filme pela primeira vez, ele não demora a ganhar interesse pela aventura da dupla de irmãos, fazendo revelações embaraçosas sobre o recente final de seu namoro e conversando avidamente sobre a série “Ancient Aliens” enquanto as circunstâncias que o trio enfrenta vão se tornando mais e mais estranhas.

Peele ficou tão satisfeito com o trabalho de Perea, 27, que expandiu seu papel durante as filmagens, e, agora que “Não! Não Olhe!” chegou ao primeiro lugar nas bilheterias americanas (no Brasil, o lançamento está previsto para o próximo dia 18), o ator está feliz por ter se apegado às suas convicções.

“Chamo esse filme de trabalho milagroso por um motivo –é um milagre que Deus me deu, e algo muito maior do que eu poderia imaginar ou sonhar”, disse Perea em uma conversa via Zoom na semana passada. “Trabalhar em Hollywood é um privilégio, é difícil manter esse privilégio, e por isso você precisa ser grato caso consiga mantê-lo. Quando eu deixar de ser grato, pode me chutar para fora”.

Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

O que estava acontecendo em sua vida quando você foi escalado para “Não! Não Olhe!”?

Eu não tinha trabalhado em nada verdadeiramente significativo por muito tempo, e houve muitos pontos baixos antes de “Não! Não Olhe!”. Cheguei perto de conseguir um papel em uma ótima série –passei por três ou quatro rodadas de testes e cheguei a pensar comigo mesmo que o papel era meu, e eu estava de volta—, mas no fim não consegui o trabalho. Depois me ofereceram um roteiro muito bom, e minha sensação foi a de que arrasei na audição. Pessoas para quem mostrei o vídeo da audição me disseram que “cara, esse papel já é seu”. Mas terminei sendo rejeitado.

Mas as coisas viraram para mim quando pensei comigo mesmo que “sabe de uma coisa? Estou orgulhoso do meu nível de atuação, e alguém vai confiar em mim um dia”. Isso serviu para aliviar a pressão que eu mesmo exercia sobre mim mesmo. Foi a primeira vez que aceitei a rejeição e consegui seguir em frente, sem ficar chateado por não ter conseguido o trabalho.

E aí surgiu “Não! Não Olhe!”?

Recebi um email sobre um projeto sem título de Jordan Peele, minha primeira grande audição depois de um longo tempo. Eu presumi que seria um papel de uma fala só, porque Peele está em uma situação que lhe permite escolher os atores que quiser para seus filmes, mas logo percebi que era um dos papéis principais. Fiquei pensando que “meu Deus, ele está fazendo audições para os papéis principais? Isso é loucura. Vou fazer meu melhor, mas o que posso fazer que seja diferente de todos os outros atores?”

Qual foi sua opinião sobre o personagem, então?

A audição inicial era de apenas três páginas de diálogo simples, sobre um carinha que trabalha em uma loja de eletrônicos: “Olá, posso ajudar em alguma coisa? Você gostaria de abrir uma conta na loja?”. Ele tinha um comportamento que parecia muito animado, muito positivo. E eu pensei comigo que “mmm, isso não é o que você vê quando vai a uma loja de eletrônicos. Os empregados não querem estar lá”. Por isso, fiz a cena do jeito que imaginei que o empregado se sentiria, e despachei o vídeo para o universo; duas semanas depois, fui chamado para uma conversa com Jordan no Zoom.

Como você se sentiu?

Fiquei empolgado, nervoso e humilde. Minha reação foi “mano, fico feliz por só poder conversar com esse cara. Se conseguir o papel, ótimo, mas também fico feliz só por ter chegado onde cheguei”. Mas algumas das pessoas que me cercam diziam que “não, cara: peça, acredite, receba. O trabalho é seu, e você vai consegui-lo”. E o sujeito com quem eu dividia o apartamento na época me mostrou vídeos motivacionais de Steve Harvey, e isso realmente foi positivo, porque ajudou a aumentar minha confiança.

Cheguei com uma energia do tipo: “Não estou aqui para fazer uma audição, é uma sessão de trabalho. Vim para fechar negócio, não para implorar pelo trabalho”. E eu agi como se já conhecesse Jordan, porque tinha assistido a muitas entrevistas dele para me preparar. Minha atitude era a de “yo, o que você manda, JP? Tudo bem por aí?” Muito confortável, sem aquela coisa de “Sr. Peele, como vai o senhor?”

Você chegou com uma energia de colega de trabalho, e não de fã.

Sim, exatamente, e, depois que a conversa acabou, fiquei tão orgulhoso que chorei. Estava sozinho no meu sofá, pensando, “cara, eu nem me importo se conseguir ou não o emprego. Um dia ele vai me contratar”. E dois dias depois, minha equipe entrou em contato e perguntou se eu estava livre para uma sessão de improviso naquela tarde com Jordan. Começamos a conversa via Zoom e Jordan me disse que “o problema é que o personagem que você trouxe para a mesa é muito diferente daquilo que escrevi. Portanto, preciso ver você fazer isso de outras maneiras, porque eu teria que reescrever todo o meu roteiro para te escalar nessa coisa”.

Pensei comigo mesmo que, “droga, provavelmente não vou conseguir esse trabalho”. Mas ele disse: “Mas, quer saber? Vou fazer isso. Vou reescrever meu roteiro”. Fiquei de boca aberta. Ele disse: “É cara, você conseguiu o trabalho”. E aí, bum, lágrimas instantâneas. Comecei a ladainha: “Cara, essas coisas de Hollywood te colocam para baixo, é uma montanha-russa cheia de altos e baixos. Obrigado por confiar em mim. Você ouve um milhão de nãos antes de ouvir um sim, e eu ouvi um bilhão antes de ouvir esse sim”. E Jordan também começou a chorar. Lembro de que ele tirou os óculos, e de me dizer “sei como é, cara, sei como é”.

Essa é a coisa complicada quanto a ser um ator profissional, imagino: você muitas vezes faz um monte de audições espetaculares, mas nunca sabe o que eles estão procurando de fato.

Demorou demais, mas fico feliz por não ter conseguido os outros trabalhos que eu tanto queria e dos quais eu achava que precisava. “Não! Não Olhe!” surgiu na hora perfeita, porque agora estou aqui e estou preparado. Eu tinha muitas coisas ainda a aprender na vida, e não só como ator ou artista.

O que teria acontecido se você tivesse conseguido um papel assim logo depois de “The OA”?

Eu simplesmente não teria lidado com o sucesso da melhor maneira, acho. Naquela época, eu provavelmente teria deixado que o sucesso me afastasse mais da arte, só para conseguir algum dinheiro ou um grande número de seguidores. Há uma série de TV muito popular na qual acreditei que estava perto de conseguir um papel, mas acho que minhas intenções não estavam bem direcionadas. Eu só pensava em ter muitos telespectadores, ter muitos fãs entre os jovens. Eu não pensava em termos de “eu amo esse personagem, e eu realmente quero fazer meu melhor nessa série”. Por isso, fico feliz por ter ouvido um não deles, porque é um programa muito viral e…

Estamos afalando de “Euphoria”?

Oh, você adivinhou. Você é bom. Mas tudo acontece por uma razão, e eu tinha que aprender isso.

Então, Jordan o lançou. E depois?

Foi uma montanha-russa emocional, depois disso –tipo, “agora tenho de começar o trabalho e mostrar serviço”. E era tudo um grande mistério. Não havia sinopse, eu não fazia ideia do que diabos eu estava prestes a fazer. No dia em que consegui o papel, Jordan me enviou uma lista de filmes: “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “Tubarão”, “Alien – O Extraterrestre”, “2001: Uma Odisseia no Espaço” e “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Pensei que aquela era uma lista realmente aleatória de filmes, e fiquei tentando adivinhar o que ele estava conjurando, e como todas aquelas coisas se conectavam. E aí, um pouquinho mais tarde, recebi uma mensagem de texto dele tipo “Feliz Natal”, e nela havia um link para o roteiro pronto.

Lembro de que, quando li, pensei que ninguém esperaria aquilo de Jordan. E também não sabia quem estava no elenco, mas ele começou a me mandar mensagens com dicas aleatórias. Ele escreveu “D.K.” e eu fiquei pensando – “D.K.? Daniel Kaluuya?” Nós tínhamos falado sobre Kaluuya porque uma entrevista dele no YouTube tinha sido uma inspiração –um diretor lhe disse um dia que ele sempre devia interpretar buscando a verdade, e não buscando ser engraçado.

Depois de assistir a tantos vídeos de Daniel Kaluuya, o que acontece quando você está contracenando de verdade com ele?

A primeira vez que nós todos nos encontramos em pessoa foi para a cena em nós nos encontramos pela primeira vez no filme. Eu não conhecia Daniel e Keke, e eles já tinham seu vínculo, o que me levou a pensar: “Vou usar isso em meu benefício. Vou me comportar como Angel o tempo todo e depois do final da gravação da cena eu digo oi”. Foi o que fizemos. Há um descompasso de tempos ali, e eu encaro Daniel de volta quando ele decide me encarar. Lembro-me de ouvi-lo dizer a Keke que “meus olhos veem tudo”. Por isso, eu não desviei os olhos dos olhos dele –como um duelo em que eu dissesse “estou aqui com você”.

Você postou um vídeo que mostra sua reação emotiva ao ver o cartaz de “Não! Não Olhe!” pela primeira vez. O que os cartazes e outdoors do filme significam para você?

Minha intenção quando era mais moço era simplesmente “quero estar em um outdoor”. Não era algo que eu encarasse de modo mais complexo e profundo. Mas se você realmente olhar para o cartaz de “Não! Não Olhe!”, e dissecá-lo, uau, eu sou só um garoto meio filipino meio porto-riquenho, dividindo aquele cartaz com representação asiática, representação negra e um diretor negro, em um filme de produção cara. Fico muito feliz por o sucesso ter demorado tanto tempo, porque agora consigo apreciar o privilégio. Daniel Kaluuya, Keke Palmer, Steven Yeun, Jordan Peele: estou trabalhando com alguns dos melhores do ramo do cinema hoje em dia. Eu sou o novato, e por isso o fato de que estou dividindo um cartaz com essas pessoas todas é algo que me inspira muita gratidão, pela confiança que eles tiveram em mim.

Tradução de Paulo Migliacci



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