Jorge, que vivia na rua em frente ao meu prédio, sumiu sem ninguém perceber – 26/12/2021 – Casos do Acaso

Jorge, que vivia na rua em frente ao meu prédio, sumiu sem ninguém perceber – 26/12/2021 – Casos do Acaso


Já deve ter acontecido com você em alguma calçada estreita. Dou um passo para direita, ele para a esquerda. Como estamos de frente um pro outro, vamos para o mesmo lado. Em um gesto automático, me movimento, agora para a esquerda, e ele, para a direita. De novo, empacamos. Dois pra lá, dois pra cá.

Eu paro, com vontade que o homem saia da frente. Ele estaca como um poste, talvez com o mesmo sentimento.

Dez e dez da noite, o Sacolão já fechou, o que deixa a rua ainda mais escura. Estamos parados a cinco passos um do outro. Ninguém por perto. A gente enfim se olha. “E aí tio, vai ou não vai?”, ele me pergunta.

Não estou com medo, tampouco tenho ímpeto de correr e nem sangue frio para rir da situação. “Obrigado, vou sim”, respondo. Quando passo por ele, a mão comprida segura meu ombro. “Tio, quero fumar um baseado e beber uma cerveja, me ajuda com uma nota de dez?”, me pede. Dou duas de cinco. De troco ganho um sorriso, faísca no breu.

No dia seguinte, a surpresa, nos encontramos de novo. Pedalo na ciclovia e, em sentido contrário, vem um carrinho cheio de papelão e ferro amassado. O trânsito impede que eu desvie para a pista. Paro e o carrinho também, ocupando as duas faixas da ciclovia.

“Ei tio, a gente não se conhece?”, ele diz.

“Hum, não lembro de onde”, afirmo.

“Foi ontem. Ali na outra rua, cê me deu dez reais”, me conta.

O trânsito diminui mas quero conhecer quem o destino colocou em meu caminho.

“Como é o seu nome?”, o questiono.

“Jorge”, ele fala.

“Eu, Luis Cosme.”

Batemos cotovelos.

“Cosme, cê mora por aqui?”, ele pergunta.

“Sim, na rua das Palmeiras.”

“Eu também, mas é de vez em quando”, diz.

“Como assim?”

Quem vive na rua, tem um monte de endereço e nenhum teto”, ele afirma.

Desisto de pedalar e vamos conversando. Estamos no início de 2019, e Jorge quer me mostrar onde passou a noite, na calçada do Cartório de Registro de Imóveis da Vila Buarque, em frente ao prédio em que morava havia pouco tempo. É nossa primeira conversa, e meu vizinho é mais articulado que eu pensava.

“Ninguém quer a gente por perto, só que a rua também é nossa. É do rico e é do pobre. Eu não estou dormindo dentro da farmácia ou da loja, estou na calçada, que é pública. Tá vendo aquela mulher ali com o cachorro?”, ele aponta.

“Sim”, respondo.

“Ela tá parada na calçada. Eu posso ir lá e pedir para ela sair? Não posso. Então, ninguém devia expulsar a gente. Os cachorros sujam tudo e a gente não pode mijar e fazer cocô? Eu sei que não, mas se ninguém deixa usar o banheiro, como faz?”.

“Fala mais, Jorge”.

“Sabe o que alguns síndicos aqui do bairro mandam os porteiros fazer?”, ele fala.

“O quê?”.

“Molhar as calçadas de hora em hora pra gente não deitar.”

Jorge acende um cigarro e revela outras formas cruéis de preconceito.

“Este condomínio comprou lixeira de ferro com cadeado. Porra, a gente vive disso. De catar o que eles não querem. Então, quem separa a sucata e vende somos nós. Os caras querem proibir a gente de fazer isso? Ô sangue ruim. Não era mais barato deixar a gente pegar?”

Jorge é um homem preto, sem sobrenome, sem documento, de no máximo 25 anos. Depois desse papo, falamos quase todo dia. Ao longo do tempo, dei algumas roupas e comida e sempre recebi gentileza e simpatia.

Aos poucos, fui conhecendo a história dele. Jorge é soropositivo, tem família, que quase não vê, no interior de Minas. Gostava do Jeferson, namorou a Suzy, mas agora está só. Respira fundo, pede para mudar de assunto e acende o resto do cigarro que estava atrás da orelha direita.

Jorge é alto, magro, lembra o xará, o seu Jorge, cantor e ator. Muitas vezes já sonhei acordado com esse homem. É um exercício de imaginação inspirado em uma pergunta sem resposta. Como o Brasil seria se resgatasse os Jorges que vivem nas ruas?

Em meus sonhos, Jorge está em uma sala de aula. Tem professor, material escolar, merenda, colegas. O estudante Jorge veste camiseta, jeans, tênis e embarca em um ônibus. Vai ao cinema, pega e paga um Chicabon. Passeia sem pressa pelo centro, que está livre da violência, da miséria, das sirenes.

Um cidadão brasileiro de banho tomado, sorriso largo e cabelo penteado; tem CPF, carteirinha do SUS, barriga cheia e um livro debaixo do braço. A vida real de Jorge podia mesmo ser muito diferente, mas de tudo que surge em minha fantasia, só o sorriso é verdadeiro. Uma risada frouxa que ele espalha pela Vila Buarque e usa em seu repertório de pedidos. Sim, Jorge apela às esmolas quando não enche o carrinho.

“Ei, pode me dar um real? Tô com fome. Me ajuda com um saco de arroz? Se você só tiver cartão compra um pão de forma? Se não tiver dinheiro nem cartão traz uma cueca de casa?” são coisas que ele costuma dizer. Quando cansa de ouvir a palavra “não”, Jorge dispara, desconcertante: “E um sorriso? Você me dá? Um só?”.

O homem apressado, a executiva preocupada, o velho sisudo, todos se rendem e param. Breves instantes de risonha fraternidade. Criativo, bem-humorado, Jorge ri da própria dificuldade e diverte até os paulistanos mais estressados.

Em um dia de garoa, a calçada amanhece vazia, a porta do sacolão em silêncio, no restaurante popular falta uma boca. Jorge sumiu como chegou: sem ninguém perceber.​

​Para participar da série Casos do Acaso, o leitor deve enviar seu relato para o email [email protected]. Os textos devem ter, no máximo, 5.000 caracteres com espaços e precisam ser inéditos, não podem ter sido publicados em site, blog ou redes sociais. As histórias têm que ser reais e o autor não deve utilizar pseudônimo ou criar fatos ou personagens fictícios.

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