Identidades contraditórias aproximam protagonista de ‘Ulysses’ e Macunaíma – 26/02/2022 – Bernardo Carvalho

Identidades contraditórias aproximam protagonista de ‘Ulysses’ e Macunaíma – 26/02/2022 – Bernardo Carvalho


Com o início da pandemia, passei a ir ao Rio de carro e adotei os audiolivros como companhia de viagem. Tem sido uma experiência estranha, dividido entre as exigências da realidade e da narração, duplicado pela viagem feita simultaneamente em mundos paralelos, o tempo suspenso, como num sonho acordado.

Comecei o ano escutando “Ulysses“, na esperança de que uma voz me ajudasse a concluir o que nunca consegui terminar sozinho.

A edição da Penguin vem com o prefácio de Declan Kiberd, de 1992, que insere o livro no contexto da independência da Irlanda e da busca pela representação de uma identidade nacional, sob a perspectiva dos estudos pós-coloniais. É tentador para o leitor brasileiro comparar a forma que Joyce dá à ideia de identidade nacional com o que aqui se gestava entre intelectuais e artistas na época —e continua, cem anos depois, a nos assombrar como um fantasma.

“Ulysses” foi escrito durante o movimento de independência e publicado às vésperas da guerra civil. À “matriz celta”, entretanto, idealização fácil de um mito de origem, representação heroica de um suposto espírito nacional, Joyce contrapõe um protagonista judeu, errando num mar de antissemitismo nem sempre velado: Leopold Bloom em sua odisseia por Dublin, releitura moderna do herói grego, enquanto a mulher se encontra em casa com um amante.

O “novo homem feminino”, não no sentido efeminado, mas plural, cosmopolita, cruzamento de opostos e incompatibilidades, reflexo negativo do modelo de herói viril do colonizador britânico, tem algo de macunaímico. Expõe as contradições contra as tentativas de amálgama edificante. “Não corrijo”, escreveu Mário de Andrade a Manuel Bandeira, em relação aos disparates de seu “herói sem nenhum caráter”, “contradição [assumida e deliberada] de si mesmo”.

Kiberd menciona a distinção entre sinceridade e autenticidade, segundo o crítico Lionel Trilling. Sinceridade é a correspondência entre o eu e sua expressão. É o ideal romântico da verdade confessional, fidelidade a uma essência, a uma identidade.

A autenticidade, ao contrário, supõe um “problema de forma” que põe em questão a própria ideia de essência, a favor da pluralidade de identidades simultâneas e contraditórias que compõem as pessoas e as nações. É a modernidade ambulante de Bloom, as incoerências de Macunaíma.

Num texto recente, publicado na revista The New Yorker, Merve Emre distingue amor e desejo como os dois polos entre os quais oscilam “Ulysses” e seus leitores. Com base na situação de Bloom, adiando a volta à casa para evitar a confirmação de suas suspeitas, a ensaísta, professora de inglês em Oxford, associa o desejo à vontade de saber, à ansiedade de conhecer e dominar, e o amor à resignação, opção por não saber, abrindo mão do controle sobre o outro.

A defesa do amor ganha então um quê de religião e fé. E é correlata à necessidade de crença em alguma coesão diante de um mundo que se esfacela. Uma perspectiva que entretanto precisa se sustentar em polarizações para lidar com um romance no qual amor e desejo seriam em princípio indissociáveis, força vital contraditória.

A propósito do desejo, Emre cita Leo Bersani, que, num ensaio seminal (“Realismo e o Medo do Desejo”), alça Proust aos píncaros do realismo moderno, por contrapor ao ideal de coerência psicológica do personagem oitocentista um narrador que já não cabe em si, é ao mesmo tempo todos e ninguém, para quem o desejo são os outros em si mesmo.

O desejo em Proust desmonta a representação de um sujeito coerente e coeso, assim como o espelho estilhaçado do modelo heroico do colonizador britânico reflete o anti-herói concebido por Joyce, judeu num mar de antissemitismo, constituindo a nação não mais como amálgama e ocultamento, mas exposição do recalque à luz do dia.

Assim como no século 19, em meio ao caos social provocado pelo advento do capitalismo, também hoje, diante de crises sociais e econômicas cada vez mais insustentáveis, o amor ganha valor moral aglutinador (contra os caprichos do desejo), ao mesmo tempo que o sujeito e o mundo se tornam descaradamente narcisistas.

A autoimagem não é capaz de barrar o que foi recalcado pela idealização da identidade, tanto no nível pessoal como no coletivo. É o problema da tentativa de criação de mitos por meio de bordões de autossugestão nacional, mesmo quando carregados de humor, ironia e talento literário.

De que vale dizer “só a antropofagia nos une”, quando sabemos que o que nos une são as contradições que o bordão encobre? Contradições recalcadas, que mais cedo ou mais tarde se manifestam, como já vimos, das piores maneiras.


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