Ideb: atenção às desigualdades e à cultura do fracasso – 16/09/2022 – Educação

Ideb: atenção às desigualdades e à cultura do fracasso – 16/09/2022 – Educação


Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Brasileira (Ideb) e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2021 apresentados nesta sexta-feira (16) reforçam o cenário de acirramento das desigualdades educacionais já revelado em outros estudos e pesquisas que avaliam a educação do país.

Mesmo assim, alguns pontos merecem atenção para projetar o debate a um outro nível de entendimento sobre a situação enfrentada pelas equipes escolares, as famílias e as(os) estudantes.

O primeiro deles diz respeito à cautela na leitura desses dados, amplamente sublinhada pela imprensa na cobertura deste ano. Além da baixa participação de estudantes no Saeb em função da suspensão das aulas, um número significativo de redes e sistemas de ensino seguiu a recomendação do Conselho Nacional de Educação de não reprovar alunas e alunos devido à pandemia, o que acabou incidindo na taxa do Ideb.

É importante ressaltar que temos uma compreensão problemática sobre o fenômeno da reprovação, que esbarra na visão da repetência como estratégia para qualificar o ensino, quando, na verdade, o que acontece é exatamente o contrário.

Estamos presos a uma cultura do fracasso escolar que naturaliza que determinados estudantes, devido à sua cor, nível socioeconômico ou território de origem, não aprendam e sejam reprovados, o que agrava ainda mais a evasão e o abandono de meninas e meninos da escola.

O fato de termos tido uma aprovação mais ampla em 2021 permitiu que o Ideb refletisse de forma mais acurada a condição do aprendizado de estudantes, uma vez que, com uma maior padronização dos indicadores de rendimento, o Ideb tende a refletir mais os resultados de aprendizagem.

Outro ponto de alerta recai justamente sobre essa questão da aprendizagem no ensino fundamental, que já no levantamento de 2019 dava sinais de atenção e, agora com a pandemia, retrocedeu a patamares de mais de dez anos atrás.

Como mostram os dados do Saeb 2021, dobrou o percentual de crianças do 2º ano do fundamental que não sabem ler e escrever —de 15% em 2019 saltamos para 34% em 2021. Em matemática, 2 de cada 10 estudantes não sabem somar e subtrair.

Não obstante temos no 5º ano do ensino fundamental 38,9% dos estudantes que chegam a essa série sem conseguir identificar figuras geométricas, a exemplo de triângulo ou círculo. Em 2019, tínhamos 30,3% de meninas e meninos nesse patamar em matemática.

E quem são essas alunas e alunos com dificuldades de aprendizagem? Diversos estudos já realizados dão pistas para concluir que são os mais vulneráveis: meninas e os meninos pobres, pretos e pardos e que vivem nas periferias dos centros urbanos ou nas zonas rurais.

Não por acaso, foram também esses grupos os mais impactados durante a pandemia com a interrupção das aulas, a falta de conectividade, e tantos outros fatores que comprometeram o acesso digno à educação.

Em nosso último ponto, destacamos a importância de considerar no próximo Ideb (cuja elaboração já está em discussão) a questão da desigualdade em seus indicadores. Isso será fundamental para enxergar de verdade os desafios enfrentados pelas redes de ensino e pelas escolas, além de poder auxiliar na formulação de ações efetivas de curto, médio e longo prazo, realizadas por todos os níveis da federação.

A garantia da aprendizagem e o combate às desigualdades educacionais devem ser prioridades e empenho de esforços de todas e todos neste momento.

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