Historiador lança reflexão sobre formação da identidade de judeus brasileiros – 15/11/2022 – Juliana de Albuquerque


Em um dos ensaios publicados em “Old Truths and New Clichés” (2022), Isaac Bashevis Singer comenta que, para permanecer relevante, a literatura judaica deve se esforçar em refletir o que há de singular na maneira como cada indivíduo empresta sentido à sua identidade enquanto judeu.

Singer chama atenção para o fato de que a identidade judaica é diversa, a comportar as experiências de homens e mulheres espalhados pelo mundo e que, a todo momento, se questionam sobre o conjunto de práticas culturais que herdaram ou que, por algum motivo, decidiram adotar.

O que Singer quer dizer com isso é que a relevância da literatura judaica, a sua sobrevivência, por assim dizer, depende de sua capacidade representativa, ou seja, de proporcionar visibilidade àquelas experiências que nem sempre encontram espaço adequado em nossa história, mas que inevitavelmente nos ajudam a compreender quem somos. Um exemplo é a sanha messiânica inspirada por Sabbatai Zevi (1626-1676), sobre a qual Singer escreve no romance “Satã em Gorai”.

Essa reflexão de Singer sobre a literatura judaica foi a primeira coisa que me veio à cabeça assim que terminei de ler “O Não Judeu Judeu: a Tentativa de Colonização do Judaísmo pelo Bolsonarismo“, de Michel Gherman.

Publicado em setembro deste ano pela editora Fósforo, o livro de Gherman —professor de sociologia e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)— traça um complexo panorama das comunidades judaicas brasileiras entre começo do século 20 e o atual momento, permitindo-nos vislumbrar como instituições e indivíduos responderam ao Holocausto, ao regime militar e, mais recentemente, à ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência da República.

Segundo Gherman, cada um desses eventos provocou transformações na maneira como os judeus passaram a se relacionar entre si e com os demais grupos da sociedade brasileira.

Por volta da década de 1920, as discussões políticas dentro das comunidades judaicas do Brasil, bem como na Europa Central e na América do Norte, giravam em torno do sionismo revisionista, do sionismo socialista, do bundismo (movimento judeu socialista presente na Rússia e em países vizinhos), do anarquismo e do comunismo, sem que essas ideologias fossem necessariamente utilizadas por terceiros para deslegitimar o judaísmo dos seus apoiadores:

“Coesão e pluralidade determinavam práticas e reconhecimentos mútuos. Não foi um judaísmo religioso e mumificado que criou as entidades judaicas no Brasil. Foi um judaísmo em transformações radicais e dinâmicas; o país de chegada foi parte do laboratório sobre ser judeu e ser cidadão do mundo iniciado na Europa […]. Somando-se à própria experiência brasileira, a identidade judaica no país foi produto mais das mudança do que das permanências”.

Durante a década de 1940, quando o Holocausto se tornou conhecido e muitos dos judeus brasileiros ou constataram a perda de familiares nos campos de concentração nazistas ou passaram a se enxergar como vítimas em potencial de uma futura chacina, novas transformações ocorreram dentro das comunidades. Pois, segundo Gherman, foi a partir dessa dolorosa experiência que as relações dentro das comunidades judaicas começaram a se tornar mais verticalizadas:

“Até o fim da Segunda Guerra Mundial, a pluralidade ideológica e política impedia uma organização hierárquica e vertical, ou seja, a centralização da liderança. Tudo mudou no pós-guerra, principalmente depois de descobertas as dimensões do genocídio judaico […]. De maneira trágica e inesperada, o Holocausto apontou, quase pedagogicamente, que os sionistas sobreviveram, enquanto os universalistas progressistas foram atropelados pelos nazistas e seus apoiadores”.

Em qualquer comunidade, uma das principais consequências da verticalização das relações humanas e da centralização política é a opção por uma ideologia ou ponto de vista organizacional que se sobressai aos demais, tornando-se, por isso mesmo, o vetor a partir do qual são tomadas as principais decisões sobre a segurança, o bem-estar e a manutenção daquele grupo social ante um cenário de crise, ao exemplo do que houve no Brasil durante o período militar.

Aqui, vale lembrar que a ideologia anticomunista do regime militar brasileiro era alimentada por temas e questionamentos marcadamente antissemitas, como a crença na intrínseca relação do judeu com o capital financeiro, a partir da qual operava-se a “desconversão”, ou seja, a deslegitimação da identidade religiosa e cultural de militantes comunistas de origem judia.

Neste sentido, Gherman reflete sobre as estratégias de defesa empregadas pelas instituições judaicas durante um dos períodos mais sombrios da história do país:

“Há, aqui, certa ‘imposição’ de limites que acaba transformando a comunidade judaica em um lugar de abrigo contra ameaças externas. Tais ameaças podiam provir do governo ou, ainda, de grupos de esquerda. No primeiro caso, a comunidade, ou setores dela, poderia, em dupla negociação, estabelecer compromissos lá e cá. Assim, uma espécie de paz social intracomunitária seria garantida, excluindo-se militantes radicalizados (refiro-me aqui a militantes judeus) e impedindo a entrada da repressão em instituições judaicas brasileiras”.

No entanto, um dos pontos que Gherman parece ressaltar em sua abordagem é justamente que a mesma estratégia que aparentou garantir a nossa defesa e sobrevivência no passado, em outro momento, se aplicada de modo irrefletido —sem levar em consideração as particularidades da situação em que estamos inseridos— acaba sendo responsável por nos colocar em risco.

Foi justamente isso que aconteceu em abril de 2017, quando o então deputado Jair Bolsonaro participou de um evento no clube Hebraica do Rio de Janeiro. Ali, argumenta o autor, dinâmicas de “conversão” e “desconversão” saíram do controle. De repente, homens e mulheres que sempre haviam participado da vida institucional judaica sentiram-se questionados com relação ao seu pertencimento religioso e cultural, enquanto figuras de fora dessas comunidades, tais como Bolsonaro, Olavo de Carvalho e representantes de alguns segmentos das igrejas neopentecostais, pareciam ter a última palavra sobre quem era e como deveria se comportar um judeu.

O problema, no entanto, é que todos esses atores políticos externos possuem uma ideia de judeu profundamente estereotipada e instrumental, determinada pelo que Gherman apelidou de judaísmo imaginário.

Segundo o historiador e a sua parceira de estudos, a antropóloga Misha Klein, que assina o prefácio do livro, o judeu imaginário é uma abstração elaborada a partir das expectativas políticas de grupos alheios à vida judaica, permanecendo, por isso mesmo, totalmente indiferente à realidade tal qual ela se apresenta ao indivíduo judeu contemporâneo.

Ao se reportar ao discurso de Bolsonaro no clube Hebraica do Rio de Janeiro em 2017 e à anterior palestra de Olavo de Carvalho na Hebraica de São Paulo em 2004, Gherman chama a nossa atenção para o fato de que, embora setores da nova direita tentem se mostrar simpáticos ao que eles entendem por judeu, ainda assim, todo discurso filossemita elaborado a partir de um conceito de “judeu imaginário” demonstra prescindir da existência de indivíduos judeus de carne e osso, estando, por isso mesmo, bastante próximo de uma retórica antissemita.

Por fim, o relato oferecido por Michel Gherman ganha ainda mais força quando percebemos que cada um dos eventos analisados pelo autor está de alguma forma relacionados à sua trajetória de vida e ao entendimento que ele possui da própria judeidade.

Com isso, ele se afasta dos clichês literários amplamente denunciados por Isaac Bashevis Singer e entrega uma obra capaz de nos fazer refletir sobre como nos relacionamos com as nossas instituições e articulamos as nossas identidades enquanto judeus brasileiros.

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