Fragilidade branca – 17/01/2022 – Vera Iaconelli

Fragilidade branca – 17/01/2022 – Vera Iaconelli


Conheci um senhor tido como trabalhador e decente, que batia na esposa de vez em quando. Diante do olhar de terror dos filhos pequenos, ele se justificava dizendo que ela precisava disso para não cair na autopiedade. Levou muito tempo para que a prole, já adulta, reconhecesse a violência doméstica, tamanha naturalidade com que o pai tratava a questão.

Encontrar justificativas para comportamentos indefensáveis é um mecanismo psíquico conhecido, que Freud chamou de racionalização. O truque serve para manter o sujeito em paz consigo mesmo, preservando a fama de homem justo e bem intencionado que, convenhamos, não orna com encher a companheira de porrada.

Somos todos ciosos de nossa autoimagem construída à força de colocar de lado, como sendo estranho, tudo em nós que cria arestas naquilo que o espelho nos devolve.

E se podemos nos escandalizar com o exemplo de um homem pífio, espancador de mulheres, não estamos tão longes de imputar a mesma racionalização à ciência, essa que tem a pretensão de ser livre dos deslizes do inconsciente.

Quando piedosos cristãos precisaram justificar a escravidão –sem outro motivo que a exploração do semelhante– usaram o paganismo como justificativa. Os povos da África e das Américas, cujos costumes à época anteciparam em quatro séculos a revolução sexual dos anos 1960, eram descrentes da moral bíblica e, portanto, inferiores.

Encerrada a escravidão oficial, chegou a vez da ciência dar sua cartada de mestre para manter a segregação: negros são inferiores porque, mesmo quando convertidos ao cristianismo, pertencem a outra raça. Não se trataria de diferenças de cor, tamanho, textura, traços, mas de uma diferença radical que faz com que não brancos pertençam a outra espécie de humanos. Haja verbo para martelar essa hipótese vexatória, que também foi usada contra as mulheres.

Mas eis que chega o mapeamento do genoma humano e fica provado que compartilhamos 99,9% do mesmo material genético, sobrando 0,1% para características periféricas e desimportantes, que foram usadas para continuar a subalternizar raças e gêneros. Mais recentemente, as mídias permitiram visibilizar sujeitos das periferias do mundo e potencializaram movimentos negros. A negritude passou a ser cultuada como um valor e não um demérito.

Nesse momento crucial, a branquitude corre atrás de uma expressão que sirva para racionalizar o mal-estar de se olhar no espelho e reconhecer-se incomodada com as demandas por justiça. Desse mal-estar inconfesso surge a conveniente –e ultrajante– ideia de “racismo reverso”.

Ideia que segue a mesma lógica de imaginar que o feminismo é o oposto de machismo. Existem mulheres que odeiam homens, negros que odeiam brancos e toda combinação que se puder imaginar de intolerâncias e preconceitos entre povos e sujeitos. No entanto, um sistema secular de violências ligadas ao traço de cor e gênero não é anedótico, é estrutural e perpetua desigualdades.

A fragilidade branca (título do livro de Robin Diangelo, 2018) –medo de reconhecer em si mesmo o racismo que todos carregamos– só será superada quando encararmos nosso pavor de perder privilégios, nosso pavor de ver o estranho diante do espelho. O mínimo que se espera, para além da força da lei, é que assumamos a responsabilidade pela reprodução da história.

A Folha de S.Paulo é um jornal que abarca diversas vozes, fato comprovado pelos elogios e críticas que recebe de conservadores e progressistas. Ainda assim, considero estarrecedor que a nova munição pseudocientífica a favor do racismo circule em suas páginas.


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