Filmes sobre futebol e a Copa do Mundo batem um bolão – 17/12/2022 – Cinema e Séries

Filmes sobre futebol e a Copa do Mundo batem um bolão – 17/12/2022 – Cinema e Séries



The New York Times

A cada quatro anos, a Copa do Mundo oferece algo não muito diferente do cinema: durante um mês inteiro, ela faz o tempo parar, e envolve seus espectadores distantes no brilho verde-elétrico da tela.

Mas há mais no “jogo bonito” do que o movimento dançante da bola e o suspense agonizante das partidas caracterizadas por placares apertados. “Os Miseráveis” (2019), thriller criminal de Ladj Ly ambientado no submundo povoado de imigrantes dos “banlieues” [subúrbios] parisienses, retrata a situação de forma vívida: nos minutos iniciais do filme, somos conduzidos aos Champs-Élysées, onde multidões de torcedores envoltos no vermelho, branco e azul da bandeira celebram a vitória da França na Copa do Mundo de 2018. O momento eletrizante é de exultação comunitária, e contrasta fortemente com o que filme retrata mais adiante: uma sociedade multiétnica facciosa.

“O importante do futebol é que não se trata apenas de futebol”, escreveu o escritor inglês Terry Pratchett no romance “Unseen Academicals”. Essa observação poderia muito bem se aplicar a todos os esportes construídos sobre uma massa de torcedores e transformados em negócios de bilhões de dólares, mas o futebol —um símbolo potente da globalização, carregado de bagagem histórica— é revelador de uma maneira única: o jogo é um prisma através do qual o mundo em constante evolução, e o destino interconectado de pessoas em diferentes partes dele, vêm à luz.

Não admira que os filmes de futebol sejam muitas vezes ecléticos e às vezes impossíveis de classificar, extraindo inspiração de múltiplos continentes e gêneros cinematográficos. Um exemplo é o drama de aventura “Fuga para a Vitória”, de John Huston, que se passa na Segunda Guerra Mundial. O lendário atacante brasileiro Pelé tem a companhia de Sylvester Stallone, Michael Caine e de futebolistas profissionais de toda a Europa e América do Norte e do Sul, em uma partida contra rivais nazistas. E de Hong Kong, temos “Kung-Fu Futebol Clube”, uma comédia de sucesso dirigida por Stephen Chow e lançada um ano antes da Copa do Mundo de 2002 no Japão e Coréia do Sul, que representa um aceno ao rápido crescimento da popularidade do futebol em toda a Ásia.

Não que os filmes de futebol sejam todos sobre cooperação mundial e a vitória do mais fraco; alguns zombam dos maiores ícones do esporte. Um exemplo é o brilhante e alucinado “Diamantino”, um filme surrealista de espionagem português com um sósia de Cristiano Ronaldo que se prepara para o jogo imaginando que ele está em um campo de algodão doce, cercado de lulus da pomerânia do tamanho de elefantes.

A Copa do Mundo de 2022 no Qatar, a primeira realizada em uma nação do Oriente Médio, já causou numerosas controvérsias, porque as tradições conservadoras do país anfitrião divergem totalmente das bases de fãs modernas do esporte. A Fifa e o Qatar vêm sendo acusados de corrupção e suborno, mas o mais chocante talvez sejam os relatos de exploração da mão-de-obra imigrante, que resultou na morte de milhares de trabalhadores oriundos de países principalmente da África e do sul da Ásia. O documentário “A Copa dos Trabalhadores” (2018) nos leva aos campos de trabalho construídos na periferia de Doha, onde encontramos um punhado de trabalhadores amantes do futebol que se adaptam aos fundamentos de uma indústria brutal –aquela mesma que nutre seus sonhos esportivos pessoais.

Desde o início do torneio, torcedores e jogadores vêm se pronunciando sobre as controversas políticas da região (que incluem a criminalização da homossexualidade) e suas práticas religiosas. Quanto a isso, e à capacidade do futebol de aliviar ou exacerbar tensões étnicas, o documentário “Forever Pure” (2017) vem à mente.

Dirigido por Maya Zinshtein, o filme retrata um dos episódios mais feios do futebol israelense, e serve também como uma exposição daquilo que seus realizadores veem como o racismo sistêmico do país. O filme consiste de entrevistas com os jogadores, proprietários e torcedores do Beitar Jerusalem Football Club, e examina as reações contrárias à contratação de dois jogadores muçulmanos pelo clube – e o uso de uma linguagem de pureza racial para justificar a oposição.

Menos inflamatórios, mas igualmente esclarecedores, são dois documentários que examinam a dimensão política por meio de histórias intensamente pessoais de obsessão pelo futebol, os dois do cineasta romeno Corneliu Porumboiu. O primeiro, “Al Doilea Joc” [“o segundo jogo”], mostra comentários de Porumboiu e seu pai enquanto os dois assistem a um videoteipe de uma partida de 1988, arbitrada por Porumboiu pai, entre dois dos principais times da Romênia.

O jogo aconteceu um ano antes da revolução que derrubou o líder totalitário do país, Nicolae Ceausescu —um período em que o futebol romeno servia abertamente como ferramenta de manipulação política; uma equipe estava associada aos militares, a outra à polícia secreta. Ao mesmo tempo, há um leve indício de nostalgia quando os dois homens contemplam os jogadores do passado, considerados como a geração dourada do futebol romeno, e que eventualmente deixariam o país para jogar por times mais prestigiosos na Europa Ocidental.

O segundo filme, “Fotbal Infinit”, nos apresenta um ex-jogador de futebol claudicante transformado em burocrata, e seu complicado plano para reinventar as regras do jogo, a fim de prevenir lesões como a que encerrou sua carreira esportiva. É uma parábola para o estado fraturado da própria Romênia, usando como lente a tentativa desesperada de um homem de consertar aquilo que o quebrou.

Na primeira semana do torneio deste ano, membros da equipe iraniana se recusaram a cantar o hino nacional antes do jogo com a Inglaterra —uma demonstração de solidariedade para com o movimento de protesto que continua a se manifestar contra a liderança do Irã, em reação ao assassinato de uma jovem mulher que estava sob custódia policial.

A confluência desses eventos traz à mente um dos grandes filmes de futebol dos últimos vinte anos, “Fora do Jogo” (2007), de Jafar Panahi, o mestre iraniano atualmente preso por suas crenças políticas. Crítica aguçada às restrições misóginas do país, mas levado em ritmo de comédia de humor negro, o filme acompanha um grupo de mulheres que são pegas disfarçadas de homens tentando entrar em um estádio de Teerã, onde uma partida determinará a classificação do Irã para a Copa do Mundo de 2006.

Como “Fora do Jogo”, vários filmes internacionais destacam a maneira pela qual os torcedores de futebol opõem modernidade e formas de vida tradicionais, simplesmente ao mostrar as dificuldades de pessoas que só querem assistir futebol. “A Copa” (2000) foi o primeiro filme do Butão a ser indicado para a disputa do Oscar, e mostra monges tibetanos reais capturados pelo frenesi da Copa do Mundo de 1998.

Um grupo de noviços organiza jogos de futebol improvisados usando uma lata de Coca-Cola como bola, e à noite eles fogem do mosteiro para assistir à Copa em uma casa próxima. Depois de receber permissão para instalar uma televisão no mosteiro, antes da final entre a França e o Brasil, os rapazes correm para angariar fundos para uma antena parabólica, e instalam o aparelho em tempo para o pontapé inicial.

A mesma dinâmica se desenrola em três locais remotos diferentes em “La Gran Final” (2006), um falso documentário amável de Gerardo Olivares que também é estruturado em torno da luta para assistir a uma final da Copa do Mundo —o duelo de 2002 entre Brasil e Alemanha. O filme acompanha as desventuras de três grupos não relacionados de torcedores de futebol: nômades cazaques das estepes da Mongólia Oriental, povos berberes montados em camelos no Saara, e indígenas da Amazônia.

Ambos os filmes apresentam o amor ao futebol como um vínculo universal, o que é uma pílula amarga se considerarmos que ele talvez também seja a única base comum entre nós, telespectadores, e aquelas culturas que estão a ponto de desaparecer —afinal, o futebol é acima de tudo uma ferramenta de hegemonia cultural.

Ao mesmo tempo, embora aquilo que está em jogo não seja uma questão de vida ou morte, a paixão daqueles torcedores —a maneira como persistem em seus esforços para desfrutar de uma pequena dose de prazer em um mundo de trabalho incansável, exílio e dificuldades materiais— poderia ter algo a dizer sobre aquilo que o futebol tem a oferecer caso seja despojado de seus fanáticos territoriais e de sua pompa e cerimônia bilionárias.

Tradução de Paulo Migliacci

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