Felicidade natalina não combina com consumismo – Notícias

Felicidade natalina não combina com consumismo – Notícias




Recebo, no meu consultório, muitas pessoas que atribuem à situação econômica difícil e outros fatores externos a causa de alguns transtornos mentais, como a depressão. Há questões conceituais coletivas que devem ser trabalhadas e retificadas pelos terapeutas, sem dúvida.


Para alguns, o comprar torna-se o ideal de felicidade, porém, as questões são mais complexas e uma análise reflexiva faz-se mister, principalmente, no período natalino, onde o consumismo é estimulado ao extremo, abdicando-se de valores vitais muito mais importantes e sólidos na busca da paz e alegria de viver.


O consumismo desenfreado pode colocar as pessoas em um círculo vicioso e perigoso. Todos trabalham cada vez mais, estressando-se até o limite, a fim de manter o poder para gastar mais. A mídia e os publicitários trabalham com o inconsciente coletivo das pessoas, estimulando o desejo impulsivo e cultivando a insatisfação com aquilo que elas conquistaram com suor. Estimula-se uma competição consumista desvairada e até favorecedora de ódio e inveja. Essa estratégia de marketing apresenta armadilhas perigosas.


A felicidade não é medida pelo acúmulo de riquezas e isso não é um “chavão”. As metas inatingíveis- fomentadas pelos publicitários-, embora sedutoras, merecem ser repensadas. Parece-me que nos períodos de estabilidade da economia tais compulsões são ainda mais estimuladas, tudo em nome dos juros baixos.


As recentes tecnologias incorporadas, apesar de nos fornecerem inúmeros benefícios, também nos trazem uma preocupação excessiva para mantê-las e atualizá-las. Portanto, o pobre se estressa para manter a sua subsistência, enquanto os mais ricos para poderem ter TV a cabo, internet, roupas de griffe, etc. Tudo em nome de um culto ao consumismo, gerador de sofrimento e escravidão.


A manutenção de um determinado status também é um fator gerador de estresse. Segundo Clive Hamilton, autor do relatório do Instituto da Austrália publicado anos atrás, cerca de 25% dos britânicos, na faixa dos 30 aos 59 anos, resolveram diminuir os seus ganhos para melhorar a qualidade de vida. Ou seja, começa a haver uma conscientização de que o dinheiro não é o principal fator no alcance da real felicidade. Claro que tudo isso tem validade após condições dignas de alimentação, saúde, educação, vestimenta e lazer.


O americano Gregg Easterbrook escreveu o livro “Progress Paradox” (paradoxo do progresso). Segundo ele, apesar da vida material das pessoas ter evoluído, isso não causa um impacto positivo na felicidade das pessoas. Pelo contrário: a sociedade ocidental enfatiza as reclamações; a mídia estimula a raiva nas pessoas. Inicialmente, as energias ficam focalizadas no sucesso material e na sobrevivência; uma vez atingidos tais objetivos há mais tempo para ficar aborrecido e insatisfeito, aí entra a mídia.


Como psiquiatra, eu, realmente, observo tais impactos negativos da mídia no estímulo exagerado ao consumismo e frustração das pessoas. Todos acabam tendo a percepção distorcida de que a felicidade está diretamente relacionada ao poder de compra. Se assim o fosse, com certeza, o mundo seria bem mais simplificado e óbvio. Não passa tudo de uma ilusão mercantilista desencadeadora, em pessoas vulneráveis geneticamente, de quadros depressivos e ansiosos, cada vez mais crescentes na minha prática clínica.


A publicidade sempre terá a sua importância, de forma inquestionável. Comprar é inexorável ao ser humano. O que deve haver, em alguns segmentos, é uma rediscussão ética, com toda a sociedade, para a mudança do enfoque, estabelecendo-se limites e parâmetros- dentro de uma liberdade de expressão-, que possam nortear campanhas publicitárias com projetos sociais implícitos e sem armadilhas de comunicação- eliciadoras de comportamentos compulsivos.


Um feliz natal a todos vocês, prezados leitores do R7, com consumismo moderado, alegria e paz! 

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