Então, é Natal – 19/12/2022 – Vera Iaconelli

Então, é Natal – 19/12/2022 – Vera Iaconelli


Natal é como a Copa do Mundo, mesmo quem não gosta de futebol é tragado pela circunstância. Assim também, ateus, muçulmanos, judeus podem comparecer, presentear e ser presenteados sem que isso cause estranhamento.

Se, na Copa, a ideia de torcer pelo país serve de ponto comum, no Natal, o que permite tamanho ecletismo é o guarda-chuva da família, termo sensível a todos. Quem tem preza, quem não tem lamenta, mas todos questionam sobre o seu lugar dentro e fora dela. Como o tema do Natal é a reunião familiar, resta saber a quantas ela anda em 2022, ano que está “demorando em ser tão ruim”.

Desde a eleição de 2018, as desavenças intrínsecas a qualquer família se tornaram motivo para rupturas. A licenciosidade de expressar opiniões de forma violenta e a não aceitação do contraditório inundaram os encontros familiares. Discordar tornou-se ofensa e convencer o outro, uma missão, revelando o caráter religioso dessa aspiração. Antigos desafetos encontraram a desculpa ideal para não ter mais que conviver e grandes decepções foram criadas em relações onde as suspeitas se viram confirmadas.

O parente indigesto, cujas opiniões eram relevadas ou ignoradas, a partir da declaração de voto e da alcunha correspondente (bolsonarista X esquerdista), tornou-se intolerável. Quem já não suportava o rito familiar encontrou a deixa perfeita para se afastar, quem depositava melhores votos nos seus se sentiu traído e magoado.

O curioso é que a família que imprimiu a marca da discórdia nas demais, incentivando a virulência no trato sociofamiliar, revelou-se absolutamente disfuncional. A perda de poder desestabilizou as relações aparentemente cordiais entre Michelle e Carlos Bolsonaro que teriam chegado às vias de fato. Jair Bolsonaro, visto chorando em público diversas vezes, foi abandonado por outros filhos, que não abriram mão de viajar para assistir à Copa na hora mais escura do pai.

Ironia do destino, o Natal na família do atual presidente promete ser tão feio quanto as “obras de arte” que têm sido evacuadas do planalto.

Se o grande valor de uma família é sua capacidade de superar momentos difíceis mantendo-se unida, o é na condição de que não seja como uma quadrilha, legislando em causa própria aos moldes das máfias. A família “nós contra rapa” (contra leis, contra outras) é o que de pior se cultua em nosso tempo.

A família que faz algum sentido ainda hoje é aquela sensível às outras, criando círculos de inclusão, nos quais o sentido último do Natal —mas também de outras religiões— ainda pode prevalecer: solidariedade entre humanos.

Será que conseguiremos refazer o verniz de civilidade que nos permite conviver nesse núcleo tão díspar que, diferentemente do grupo de amigos escolhidos por afinidade, tem um tanto de encontro aleatórios? Essa é a pergunta que só poderá ser respondida no um a um dos investimentos amorosos. O balanço entre o que suportamos e o que desfrutamos dessas relações é algo que ninguém poderá responder por nós.

O que mantém essa bizarrice relacional que chamamos de família, na qual se reúnem as figuras mais inconciliáveis, é a história da origem comum. Longe de qualquer apelo biológico, são as experiências compartilhadas por gerações que permitem nos reconhecermos como parte desse núcleo. Mesmo quem acabou de chegar, recém-nascido ou adotado, é herdeiro de um lugar na saga familiar.

Infelizmente, 2022 será lembrado como o Natal da fome, com milhões de famílias brasileiras indo dormir mais cedo, uma vez que não há o que servir em suas ceias.

Esperamos que a PEC da Transição —batizada de forma espúria por este jornal como PEC da Gastança—, permita um Natal de 2023 mais cristão.


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