Ensino de arte evolui e permite entrada de teatro e saraus em sala de aula – 11/03/2022 – Educação

Ensino de arte evolui e permite entrada de teatro e saraus em sala de aula – 11/03/2022 – Educação


Quem vê o feed no Instagram da adolescente Eduarda Nanes, 17, percebe que ela gosta de desenhos e ilustrações. Aluna do terceiro ano do ensino médio em uma escola estadual em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, ela sempre se interessou por artes, mas não necessariamente por causa da escola, onde gosta mais das aulas de história e filosofia.

​”Sempre achei chatas as aulas de artes por conta de ser sempre a mesma coisa todo ano”, conta. A exceção, segundo ela, foi um professor no nono ano do fundamental que não quis seguir o mesmo roteiro. “Fizemos vários projetos diferentes. Os de que me lembro melhor são o projeto de uma fonte feita de isopor e cimento, de um desenho em madeira e criação de logotipo”, relembra.

A possibilidade de fazer “projetos diferentes”, como explicou Eduarda, faz parte de uma mudança no ensino de artes nos últimos anos e que têm possibilitado novas formas de aprender nas periferias. Algo que era diferente no começo dos anos 2000.

Quem já saiu da escola há mais de dez anos com certeza se lembra da matéria de “educação artística” e de uma das atividades mais comuns dessa disciplina: a reprodução do quadro “Abaporu”, da artista modernista brasileira Tarsila do Amaral.

Atualmente, a disciplina não leva mais esse nome (tornou-se ensino da arte) nem usa a obra de Tarsila apenas para o aluno redesenhá-la.

Para entender as mudanças, é preciso voltar cerca de 50 anos no tempo, para 1971, quando uma nova LDB (Lei de Diretrizes e Bases) entrou em vigor, determinando a educação artística nas escolas. Contudo, não era uma disciplina curricular oficial, tendo apenas caráter complementar. “Se você tivesse nota naquele componente ou não, você seria promovido”, explica Virgínia Marcondes, professora universitária e pesquisadora em políticas públicas, currículo e gestão educacionais.

“Os professores de arte nessa época se voltavam mais à decoração das escolas, a fazer murais com babadinhos e florzinhas. A arte acaba perdendo importância. Era uma atividade, não uma disciplina escolar”, reforça.

Isso começou a mudar timidamente em 1996, com uma nova LDB, quando a disciplina passou a valer nota. Depois houve a criação dos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), que previam o ensino de arte visual, música, teatro e dança, do ensino infantil ao médio. Porém, foi somente com a promulgação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), em 2018, que essas diretrizes sobre o ensino da arte se tornaram obrigatórias, assim como o nome de ensino de artes.

A partir daí, a disciplina deixou de focar unicamente a reprodução de desenhos para inserir também a análise crítica e outras manifestações artísticas, como a dança, o teatro e a música, além das artes visuais.

“Hoje, o aluno passa por todo o processo de contextualização, estudo e pesquisa para então fazer uma reprodução daquilo que o sensibilizou”, explica Virgínia. “Não é reproduzir para sair uma cópia perfeita, não é mais essa a intenção, pois para isso a gente tem a fotografia.”

Essa mudança explica porque a professora Ana Paula de Jesus, 29, tem liberdade para trabalhar temas que vão do pintor Van Gogh (1853-1890) aos bailes black com os alunos.

Ela dá aula de ensino da arte para turmas de fundamental 2 e ensino médio em duas escolas estaduais no Capão Redondo, na zona sul de São Paulo.

Formada em história, Ana Paula sempre foi estimulada, desde a faculdade, a trabalhar de forma interdisciplinar. Logo, não foi um problema migrar de uma matéria para outra. “Comecei a usar a arte como um facilitador para que eles tivessem um olhar crítico. A arte também pode ser extremamente teórica e chata se você quiser”, diz.

Ela cita como exemplo a forma como trabalhou o teatro em sala de aula. Na parte teórica, as aulas discutiam como a falta de acesso fazia com que os alunos não se interessassem em ver um espetáculo teatral. Já na parte prática, partiam para a produção de uma peça, ainda tendo a discussão crítica como pauta.

“Coloquei para eles assistirem à palestra ‘O Perigo da História Única’, da Chimamanda [Ngozi, escritora nigeriana]. Queria que falassem da história única deles, o que existe além do que as pessoas conhecem dentro da periferia”, conta a professora.

“Acabei juntando a história com a arte. Você consegue trabalhar assuntos transversais, como a homofobia, o racismo e questões de gênero, que surgiam naturalmente pelo fato de ser a realidade deles”, complementa.

Literatura também é arte

Também formado em história, o escritor e arte-educador Rodrigo Ciríaco, 40, está há 16 anos levando os saraus para dentro das escolas públicas.

À primeira vista, a poesia parece estar mais ligada à matéria de língua portuguesa do que ao ensino da arte. Essa foi a primeira queixa dos colegas de Ciríaco quando ele começou a trabalhar a temática dos saraus no contraturno da primeira escola em que lecionou, em 2006.

“Para eles não era uma coisa simples aceitar que ia fazer um trabalho com literatura. Cheguei a ouvir algumas vezes: ‘Você quer tomar o nosso lugar?'”, conta. “Falava que não, não ia trabalhar com o que eles faziam. Queria trabalhar com literatura e poesia, mas olhando para ela como arte.”

Já a segunda resistência encontrada foi para explicar o que era a literatura marginal. O professor diz que, na época, ainda não havia inúmeros saraus pela cidade como hoje em dia. A Cooperifa e o Sarau do Binho, na zona sul, e o Pavio da Cultura, em Suzano, eram praticamente os únicos existentes.

“Quando falava que a gente trabalhava com autores da literatura marginal e periférica, a maior parte arregalava o olho e se assustava. Era muito mal vista. Chamavam de literatura de bandido, que fazia apologia do crime”, relembra.

O projeto, hoje chamado Pedagogia do Sarau, começou a se expandir a partir de 2012, quando Ciríaco iniciou uma formação para responder às dúvidas que recebia de outros professores. Atualmente, o curso é oferecido aos docentes da rede municipal de São Paulo por meio de uma parceria com a Secretaria de Educação.

Para ele, os saraus periféricos são os “novos modernistas”. “O movimento da literatura marginal periférica, principalmente os saraus, faz a democratização dessa arte”, defende.

“Se lá [em 1922, durante a Semana de Arte Moderna] eles estavam pensando em construir uma arte nacional brasileira, aqui estamos dando passo à frente, para que essa arte seja feita por todos.”

Essas possibilidades são alguns dos incentivos para estudantes como Eduarda, que abre o texto. Ela começou a se interessar pelo desenho aos 11 anos, quando descobriu que poderia trabalhar com arte. Também gosta de artesanato e teatro —este segundo presente na base do novo ensino de arte—, mas conta que nunca teve “oportunidade de aprender de fato”.



Se lá [em 1922, durante a Semana de Arte Moderna] eles estavam pensando em construir uma arte nacional brasileira, aqui estamos dando passo à frente, para que essa arte seja feita por todos

Já a Maria Lorena Cândido Silva, 8, gosta de artes principalmente pelo fato de ser uma matéria em que pode desenhar à vontade. “Às vezes, a professora deixa a gente fazer desenho livre”, comenta.

Moradora do Grajaú, na zona sul, a garota diz que quer trabalhar com desenhos quando ficar mais velha e já entende que a inspiração não acontece sempre. “Aos poucos, fui começando a mudar, agora estou com meus desenhos bonitos. Às vezes, não tenho muita inspiração, tenho que ficar pensando o que vou desenhar.”

A especialista Virginia Marcondes alerta que o colégio tem um papel primordial na descoberta desses talentos entre os alunos. “A escola tem que olhar e oferecer os meios e caminhos, abrir as portas aos fins de semana, promovendo interação com a comunidade.”

“Evidentemente, se o professor identificar alguma aptidão fora do normal, [deve] entrar em contato com a família e buscar na comunidade outras possibilidades para esse aluno”, detalha Virginia.

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