‘Encanto’ pode ser minucioso, mas será que consegue retratar todo um país? – 14/03/2022 – Cinema e Séries



The New York Times

“Encanto” no começo não se passaria na Colômbia.

A semente da ideia para o longa de animação da Disney remonta a 2016, quando Jared Bush e Byron Howard, os diretores de “Encanto”, ainda estavam trabalhando em “Zootopia: Essa Cidade É o Bicho”. Eles sabiam que desejavam contar uma história sobre família –e sobre como os integrantes de uma família podem ter dificuldade para aprender a conhecer uns aos outros. E então eles se perguntaram: onde um filme como esse poderia se passar?

É nesse ponto que Natalie Osma e Juan Rendon, dois cineastas colombianos que estavam trabalhando no documentário “Imagining Zootopia”, sobre a realização do filme, entraram na história. “Quando estávamos tentando descobrir que perspectiva adotar e como mostrar todas as maravilhas e as divisões da América Latina de uma maneira que parecesse real”, disse Bush, “eles disseram que [a Colômbia] é a encruzilhada do continente. Tudo que você puder imaginar existe lá”.

Osma e Rendon se tornaram membros do Colombian Cultural Trust, um grupo de 10 especialistas –historiadores e antropólogos, biólogos e botânicos– dedicado a verificar os detalhes do filme.

“Encanto” recebeu elogios por sua acurácia cultural. E muitos colombianos, e americanos de origem colombiana, amaram o filme. Mas seu lançamento também deu origem a um debate; o que um filme é e não é capaz de capturar quanto a um país?

Quer se trate da dinâmica racial que existe hoje ou do forte senso de identificação local, em um país pouco menos de 10 vezes menor que os Estados Unidos, o retrato do filme quanto a assuntos nuançados e importantes provocou discussões intermináveis entre as pessoas de ascendência colombiana.

“Achei o filme charmoso”, disse o escritor e editor Camilo Garzón. “E bonito. Ao mesmo tempo, ficou aquém do que deveria em termos de representação pura e simples”. Ele explicou que “no espírito do meliorismo americano, essa crítica tem por objetivo tornar as coisas melhores, mas não significa necessariamente que eu não tenha gostado do filme”.

A Colômbia, localizada no ponto em que a América do Sul e a América Central se encontram, tem mais de 50 milhões de habitantes, e sua rica herança cultural reflete influências de populações indígenas, da colonização europeia, de populações africanas escravizadas e, mais tarde, da imigração.

Em Hollywood, o país vem sendo usado principalmente para contar histórias sobre drogas, traficantes de drogas e violência –conhecidas como “narconovelas”—, e é por isso que “Encanto” tem tanta importância. O país jamais tinha recebido um tratamento semelhante da parte de um grande estúdio de cinema americano.

O filme, indicado a um Oscar como melhor longa de animação este mês, acompanha a história da família Madrigal. Muitos anos atrás, Alma Madrigal fugiu de seu lar para escapar dos conflitos armados. Ela conseguiu salvar seus três filhos pequenos mas perdeu o marido. Devastada, a matriarca se apegou a uma vela que iluminava seu caminho, e essa vela ganhou poderes mágicos. Sua magia imbui os integrantes da família de dons mágicos quando eles chegam à adolescência –exceto no caso de Mirabel, a neta mais jovem de Alma.

Em 2018, Bush, Howard, o produtor musical executivo Tom MacDougall, o compositor Lin-Manuel Miranda (autor de oito canções para o filme), e o pai de Miranda, Luis Miranda Jr., creditado como consultor de roteiro, visitaram a Colômbia por duas semanas em uma viagem de pesquisa.

O percurso começou na ensolarada Cartagena, na costa do Caribe; depois, eles passaram por San Basilio de Palenque, a cerca de 90 minutos de distância; visitaram a capital, Bogotá, e seus arredores; e foram a Bucaramanga, a cidade dos parques. Em Barichara, ouviram o bambuco, um ritmo tradicional da região, que inspiraria a canção “Waiting on a Miracle”. Terminaram a viagem no Eje Cafetero, a região de cafeicultura colombiana, passando por Salento e pelo Vale de Cocora. As altas palmeiras do vale seriam uma presença forte no visual do filme.

O processo de pesquisa continuou durante os cinco anos de produção. Um grupo de empregados latinos da Disney, conhecido como “Familia”, foi formado para oferecer perspectivas pessoais que ajudariam a dar forma ao filme. Diversas versões da história foram exibidas, em cerca de oito ocasiões, disse Yvett Merino, uma das produtoras de “Encanto”. A “Familia”, da qual ela faz parte, assistiu a todas elas, e leu os rascunhos de roteiro.

“Eu brinco que eles eram como uma família verdadeira, porque nos diziam o que pensavam”, disse Merino. “E quando não gostavam de alguma coisa, expressavam essa opinião com toda força”.

Mas o oposto também era verdade: os membros do Colombian Cultural Trust apresentaram uma lista de coisas que eles achavam que precisavam ser incluídas, como um histórico de conflito e de busca de refúgio.

Em 2016, o governo colombiano assinou um acordo de paz com a maior organização de guerrilha do país, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o que supostamente prenunciaria o final de um conflito que durou mais de meio século e deixou mais de 220 mil mortos.

“Pediram-nos muitas vezes que não desconsiderássemos esse aspecto, porque era parte da história do país”, disse Bush. “Ao tratar dele, também é possível ver a incrível resiliência dos colombianos”.

Garzón nasceu em Bogotá e se mudou para os Estados Unidos aos 18 anos. “É bonito ver coisas diferentes e pensar que isso faz com que você se sinta em casa”, ele disse. “E ao mesmo tempo, não é exatamente meu lar, porque meu lar não se pareceria com aquilo”.

Ele contrastou o “pueblo” que cerca a casa encantada dos Madrigal com a cidade de Macondo, criada pelo escritor Gabriel García Márquez como cenário para seu romance “100 Anos de Solidão”. Os dois lugares são fictícios, mas acredita-se que Macondo foi baseada em Aracataca, a cidade de infância de García Márquez, e que o “pueblo” seja um amálgama de lugares na Colômbia.

“Isso diminui a importância dos lugares, diminui a importância da geografia”, disse Garzón, que criticou a locação genérica do filme em um artigo para a publicação online Intervenxions, do Latinx Project, Universidade de Nova York.

Ele também viu uma família cujos integrantes pareciam muito diferentes uns dos outros mas viviam em harmonia –sem jamais falar sobre como a raça afeta suas vidas.

Segundo Garzón, isso é pouco realista. É uma representação da Colômbia projetada de um ponto de vista americano. Mas ao longo do filme, ele começou a perceber o retrato da família e comunidade como um ideal a que aspirar –quer essa fosse a intenção dos realizadores, quer não.

Aiko Hilkinger, roteirista de animação colombiana descendente de alemães e japoneses, considera que “Encanto” é visualmente bonito, deslumbrante. O filme se parece com a Colômbia, ela afirmou. Mas, ecoando Garzón, disse que o que viu nele não parecia seu lar. E ela expressou essa opinião em um artigo para a revista Remezcla.

“Por conta da falta de pessoal colombiano em posições decisórias e de influência ativa no filme, especialmente quanto à direção e roteiro, a sensação não é a de que o filme seja colombiano”, afirmou Hilkinger. “Não parece que a cultura colombiana e o povo colombianos estejam sendo retratados de uma maneira que seja autêntica quanto à Colômbia”.

Hilkinger disse que sua sensação era a de que o filme foi feito mais para latinos nascidos ou que vivam nos Estados Unidos do que para pessoas nascidas ou que vivam na Colômbia. Ao mesmo tempo, porém, ela ama o fato de que jovens latinos estejam se vendo na tela, e se conectando a personagens parecidos com eles.

Lina Britto, professora associada de história latino-americana e caribenha na Universidade Northwestern, concordou com as críticas sobre o senso de lugar e sobre raça. “Mas acho que esperar algo assim de um filme como esse seria como não entender o alfabeto com o qual eles estão escrevendo a história”, ela disse. “E esse alfabeto é o alfabeto do realismo mágico”.

A professora, que nasceu na Colômbia, disse que a acurácia não é necessariamente uma preocupação ou um objetivo, no realismo mágico. Ela disse que a premissa do filme, a de que os Madrigal receberam poderes mágicos como resultado de terem conseguido superar uma tragédia, poderia abrir um diálogo sobre a história e a realidade da Colômbia de um modo artístico.

“Cada personagem tem seu talento único”, disse Britto, “que é produto de cada um deles transmutar o trauma em algo único e em algo que possa ajudar os outros, e não apenas a eles mesmos”.

Britto vê cada um desses dons ou talentos como uma forma de justiça e de reparação –o que, ela disse, é “absolutamente crucial” para a Colômbia no momento atual, em que o acordo de paz entre o governo e as Farc ameaça se desfazer. Mas ela vê esperanças para o futuro na coragem da jovem protagonista, Mirabel, e na receptividade dos jovens espectadores.

“Foi a audiência, e a capacidade de percepção, a inteligência e a mente aberta da nova geração”, disse Britto, “que levaram pessoas mais velhas –os produtores e criadores– a escolher um caminho mais ousado”.

Na Colômbia, “Encanto” foi o filme de maior bilheteria em 2021. De acordo com Angélica Mayolo, a ministra colombiana da Cultura, quase quatro milhões de pessoas viram o filme nos cinemas, o que gerou mais de US$ 10 milhões (R$ 50,5 mi) em bilheteria. (Uma porcentagem dessa arrecadação, totalizando cerca de US$ 560 mil [R$ 2,8 mi], é destinada ao Fundo de Desenvolvimento Cinematográfico colombiano, que ajuda cineastas locais a desenvolver roteiros, produzir filmes e em outras atividades.)

“Para mim, a maior vitória ou o maior sucesso para ‘Encanto’ –além das três indicações ao Oscar– está na maneira pela qual o mundo vê a Colômbia”, disse Mayolo. “Já não somos vistos como o país dos grandes traficantes de drogas. Agora somos vistos de um modo mais positivo”.

Mayolo apontou para as mais de 16 empresas realizando produções no país no momento –entre as quais a Netflix, com “100 Anos de Solidão” e “Freelance”, estrelado por John Cena e Alison Brie– como prova da maneira pela qual a visão do mundo sobre a Colômbia está mudando.

Ela acrescentou que “não podemos negar nossa história e nosso conflito. Mas o que desejamos realmente reafirmar é o nosso novo momento”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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