Empregada doméstica negra conta como sustentou 5 filhos durante a pandemia – 22/11/2021 – Ilustríssima

Empregada doméstica negra conta como sustentou 5 filhos durante a pandemia – 22/11/2021 – Ilustríssima


[resumo] Diarista, mãe de cinco filhos, dois deles portadores de deficiência, e moradora da periferia de Vitória, Lenir Rodrigues conta como conseguiu manter seu trabalho e sustentar sua família durante a pandemia, a despeito do descaso de parte do poder público e contando com uma rede de apoio quase toda feminina, relato que reflete a jornada de trabalhadoras domésticas em todo o país.

Conceição Evaristo foi reconhecida por sua obra quando já era idosa, ainda que tenha produzido ficção ao longo de toda sua vida. Seu olhar passa, de forma contundente, pela vivência da subalternidade.

Dá-se, pois, o que ela cunha por “escrevivência”: escrever a partir de seu corpo de mulher negra. Sua literatura de crítica social intersecciona gênero, classe e raça em simultâneo. De sua realidade, ela destaca Ponciás, Ditinhas e Marias brasileiras para personificar trabalhadoras domésticas, profissão que teve dos 8 aos 25 anos, enquanto estudava em paralelo.

Lenir Rodrigues não é escritora como Conceição. Ela interrompeu os estudos aos 10 anos, quando seu trabalho como faxineira se intensificou. Não por acaso, a classe das trabalhadoras domésticas do Brasil é formada majoritariamente por mulheres negras, e elas começam cedo na profissão.

Segundo o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em 2020, o número de trabalhadores domésticos no Brasil era de 4,9 milhões e, deste total, 4,5 milhões são mulheres —ou seja, 92%. Assim como Lenir, 65% delas são negras.

“Eu ajudava a mulher a limpar a casa desde pequenininha. Eu subia em um banquinho pra limpar as coisas. Sou pequenininha até hoje”, conta Lenir.

E é mesmo. Lenir, que está prestes a completar 43 anos, é uma mulher pequena e tão magra que lhe saltam as veias dos braços e das mãos. Seu cabelo curto, na altura dos ombros, é contido em um rabo de cavalo baixo. Parece ter sido moldado com alguma destreza, já que não se vê um fio sequer fora do enlace. Tampouco se veem fios brancos, de modo que chamá-la de dona Lenir parece beirar a indelicadeza.

Quando chegamos ao pé do morro onde ela vive, em Vitória (ES), vimos uma menina de vestido florido correr escada abaixo com a maior habilidade. Veloz. Não era uma criança, era Lenir. “Eu sou elétrica!”, ela diria mais tarde. “Eu não paro dentro de casa. Tô sempre fazendo alguma coisa na rua. Minha vizinha fala: ‘Lenir, não sei como suas pernas não doem’”, diz. Nós também não.

“Eu sempre fui ativa. Aí ela [a patroa da mãe] disse: ‘Maria, deixa essa menina comigo aqui!’. Aí, eu passei a ficar trabalhando com ela. Minha mãe lavava as roupas. Às vezes, eu que trazia as trouxas pra ela e levava. Mas não era muita coisa não, era meio expediente. Era tipo fazer uma companhia pra ela, mas ali ela foi me ensinando muita coisa”, relembra.

“Ela era uma mãe pra mim. Tudo o que eu pedia, ela me dava”, recorda-se Lenir da primeira patroa. “Ela morreu me chamando.”

No começo da vida, Lenir morava em um barraco quase caindo. O primeiro colchão ela pegou no lixo.

Lenir não foi casada com os pais de nenhum dos seus cinco filhos —Graciely, de 23 anos, Ângelo, de 21, Driely, 17, Nicolly Sarah, 10, e Marco, 8. Criou todos eles com o suporte de sua rede de apoio, sobretudo de sua mãe, dona Maria.

“Eu não coloquei na Justiça [os pais das crianças], não fiz nada. Só coloquei nas mãos de Deus e pedi ‘Dai-me forças pra criar meus filhos’. A justiça vem do Senhor”, diz. Driely, a filha do meio, está grávida de Heitor. “Eu vou ajudar, mas eu, hein?! Tá tudo aí [as coisas do bebê], ela tomou conta do meu quarto já”, reclama.

Os filhos mais velhos de Lenir são jovens com deficiência. Ângelo tem alguma autonomia e mobilidade: levanta-se da cama, toma banho sozinho e caminha de um cômodo para outro. Já Graciely precisa de ajuda para se locomover. Devido à paralisação de alguns serviços na pandemia, não os de Lenir, Gracy, como gosta de ser chamada, teve seu tratamento ortopédico interrompido.

A casa da família Rodrigues, cuja estrutura foi condenada pela Prefeitura de Vitória, fica no finalzinho do morro, na parte mais alta que os incontáveis degraus da comunidade podem acessar.

Quando Ângelo e Gracy precisam subir ou descer de lá, Lenir se vê obrigada a pagar pela ajuda de homens da vizinhança. Em sua rede de apoio, a solidariedade tem gênero: feminino.

Por conta da limitação física e da falta de acessibilidade da residência, Ângelo e Graciely pararam de estudar na sexta e na sétima séries, respectivamente. Lenir, que também interrompeu cedo os estudos, é semianalfabeta.

“A vida a gente tem que segurar, de um jeito ou de outro, tocar a vida pra frente, porque, se olhar pra trás, nada se resolve”, reflete Lenir.

Profissão: cuidar

Quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a pandemia de Covid-19, em março de 2020, a estratégia de mitigação do vírus foi o distanciamento social. As configurações de trabalho foram ampla e rapidamente repensadas ao redor do mundo.

A atividade de empregada doméstica, contudo, é impossível de ser exercida à distância e, para muitos confinados, é tida como serviço essencial.

“Logo fui trabalhar, não tive pandemia, não. Foi a mesma coisa, a mesma rotina”, conta Lenir. Perguntada se a doença lhe causou medo, ela não hesita: “Eu fiquei com medo, né? Porque não é toda pessoa que aceita a gente na casa dela para trabalhar”.

Para Lenir, o medo diz respeito, na verdade, ao impedimento de trabalhar para garantir seu sustento e de sua família. Em março de 2020, ela fazia rodízio em três casas diferentes. Nenhum dos empregadores ofereceu pagamento para que ela ficasse em casa no momento agudo de contaminação.

Lenir recebeu o auxílio emergencial oferecido pelo governo federal, porque recebia o Bolsa Família. Segundo Ivete Pereira, presidenta do Sindicato das Empregadas Domésticas do Espírito Santo (Sindomésticas-ES), a estimativa é de que apenas 10% das trabalhadoras domésticas do estado tenham recebido auxílio emergencial.

Lenir faz parte dos 45% de trabalhadoras domésticas que são chefes de família, segundo o Dieese (pesquisa com base em 2017). A família também conta com duas cestas básicas mensais doadas pela prefeitura, além do apoio de ações da comunidade, como do Instituto Serenata D’Favela.

Para uma diária de faxina, ela cobra R$ 100, mas o montante acumulado ao final do mês não cobre todas as contas da casa. “Dá pra dar um pouquinho a cada um, só pra amenizar a história. Aí, no outro mês, dá mais um pouquinho”, explica.

Seis dos sete dias da semana de Lenir são iguais. De segunda a sábado, ela se levanta de uma curta noite de descanso, dá banho e veste a filha mais velha.

Em seguida, dá o café da manhã a ela, enquanto prepara o almoço da família, que será servido mais tarde por dona Maria ou uma vizinha. É dona Maria também a responsável por aprontar Marco e Nicolly para a escola vespertina, porque Lenir trabalha até por volta das 17 horas.

À tarde, os jovens com deficiência fazem companhia um ao outro em casa. Antes que o dia caia, Lenir está de volta à sua casa para “repetir tudo o que fez o dia inteiro no trabalho”, conta, achando graça.

Ela tem o período da noite para organizar a casa, além de seguir com os cuidados dos filhos, cozinhar e servir o jantar. Nas noites de terça, sexta e domingo, ela frequenta a igreja pentecostal Resgatando a Alma, na intenção de encontrar “libertação e livramento” para a família.

Quando foi decretada a pandemia, seus filhos mais novos passaram a fazer as atividades da escola em casa. Toda a família se mobilizou para acompanhar os menores nas tarefas, o que interferiu na dinâmica do lar. “Os meninos [mais velhos] ensinavam, mas eu ensinava também”, conta.

A rotina era descer até a escola, buscar as apostilas e ajudá-los quando possível. Sobre a possibilidade de aulas on-line, Lenir é enfática: “Do on-line eu entendo nada, e a prefeitura deu nada”, referindo-se a tablets ou computadores que poderiam ter sido disponibilizados aos alunos.

Lenir, tal qual Conceição Evaristo, teve uma mãe lavadeira de roupas. Hoje, dona Maria tem 70 anos e é aposentada. Ela lavou roupas por muitos anos, mas conheceu o período em que a máquina de lavar se popularizou e não havia mais razão para se contratar o serviço de terceiros.

Passamos pela porta de sua casa, na parte baixa do morro. A brevidade do diálogo foi imposta por sua timidez, mas o acanhamento foi fugaz. Não demorou muito até que ela se aproximasse da porta de entrada da casa de sua filha, trazendo bermudas lavadas e cheirosas para o neto Ângelo.

Quando mais nova, dona Maria lavava as roupas à mão e “passava tudinho”. Enchia longos varais esticados entre uma árvore e outra no morro. “Viemos de Nova Venécia [município ao norte do Espírito Santo, de aproximadamente 50 mil habitantes] pra cá, pra ver se aqui a situação melhorava, mas ela acabou perdendo um filho”, desabafa Lenir.

“Ele morreu ‘aguado’, porque não tinha leite pra dar a ele”, acrescenta. Dona Maria veio para Vitória com cinco crianças. Na capital, teve outras quatro.

A função da empregada doméstica está diretamente ligada ao cuidado: são elas que organizam, limpam e mantêm o equilíbrio das casas em que trabalham. E, entre “os que cuidam, há mais mulheres, mais negras/os e mais indivíduos das camadas mais pobres da população”, como afirma a pesquisadora Flávia Biroli na obra “Gênero e Desigualdades: Limites da Democracia no Brasil” (2018, Boitempo).

“Eu não consigo ficar parada. Se eu almoçar e deitar 10 minutos, pra mim já é o suficiente”, conta Lenir. Embora seu dia a dia seja sempre muito movimentado, sua rotina de sono é curta.

Ela vai pra cama de madrugada, por volta das 2h, e acorda às 7h. Por quê? É que ela fica vendo televisão e perde a hora. Seu gosto por cinema é bem específico: animações. O título favorito é “Alvin e os Esquilos”, mas também há lugar para o ogro Shrek e as princesas de “Frozen”. “Eu pego as crianças, Nicolly e Marco, e pode esquecer nós lá dentro [do quarto]”, confessa.

De todo um universo de sonhos que poderia escolher, o que Lenir elege foge do comum: não é ascender.

Ela quer descer alguns degraus, no sentido literal, para uma casa mais baixa no morro. “Onde tem acesso a carro. Ficar no [morro] Quadro, onde facilita mais a minha vida. Até a deles [de Ângelo e Gracy]. Se fosse um lugar plano, dava pra eles darem uma volta na rua, ver o movimento”, diz.

Sua generosidade é indissociável do cuidado com sua família —e sonhar sem incluí-los jamais seria possível para esta mulher.


Esta reportagem foi feita com o apoio do Laboratório de Histórias Poderosas Brasil, uma iniciativa de Chicas Poderosas, comunidade internacional e organização sem fins lucrativos que busca fomentar o desenvolvimento de mulheres e pessoas LGBTQI+ em meios de comunicação e criar oportunidades para que todas as vozes sejam ouvidas. O Laboratório recebeu apoio da Open Society Foundations.

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