Duelo no mundo da fantasia: ‘Os Anéis de Poder’ vs. ‘A Casa do Dragão’ – 11/09/2022 – Cinema e Séries

Duelo no mundo da fantasia: ‘Os Anéis de Poder’ vs. ‘A Casa do Dragão’ – 11/09/2022 – Cinema e Séries



The New York Times

Comparações entre “A Casa do Dragão”, da HBO, e “O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder”, da Amazon –duas novas séries épicas de fantasia, ambas prequelas, ambas dotadas de orçamentos enormes e bases de fãs preexistentes– são provavelmente inevitáveis. E, de fato, a internet não perdeu tempo em aceitar o desafio. Mas será que deveríamos compará-las? Possivelmente não.

O autor de “Game of Thrones”, George R.R. Martin —cuja obra foi fortemente influenciada pelo autor original de “O Senhor dos Anéis”, J.R.R. Tolkien— quer paz no reino e nada mais. “Não é um combate mortal nem nada parecido” ele disse à revista The Hollywood Reporter. “Não queremos ser comparados a eles”. Ainda assim, pouca gente parece ser capaz de resistir ao impulso. E de que somos feitos, afinal, pedra de Valyrian?

Em lugar de comparar estatísticas setoriais –índices de audiência, orçamentos, etc.– a ideia é que comparemos aspectos em que existe sobreposição entre as duas séries. Qual das duas tem as espadas mais bacanas? Os melhores dragões? A heroína mais formidável? É verdade que as observações iniciais se baseiam apenas nos primeiros episódios (três até agora em “A Casa do Dragão”, dois em “Os Anéis de Poder”.) Mas já vimos o suficiente para iniciar a discussão. (Cuidado: alguns spoilers abaixo).


CREDENCIAIS DE CULTURA POP

Não é inteiramente justo comparar Tolkien a Martin, que é muitas vezes descrito como “o Tolkien americano”. Os dois autores não estão em competição. Martin se inspira em muito do que Tolkien fez, especialmente nas áreas de magia e construção de mundos; mas ele também expandiu as realizações de Tolkien. Tolkien vendeu mais livros do que Martin (ambos venderam dezenas de milhões), mas os trabalhos de Tolkien estão por aí há muito mais tempo.

Uma comparação melhor poderia envolver as adaptações anteriores de seus trabalhos: “Game of Thrones”, da HBO, para a qual “A Casa do Dragão” serve como prequela, e as versões cinematográficas de Peter Jackson para “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”.

Podemos afirmar que as primeiras temporadas de “Game of Thrones” foram de certa forma comparáveis aos três primeiros (e muito amados) filmes de Jackson, enquanto as temporadas posteriores se assemelham mais a “O Hobbit”, um trabalho mais polarizador. As duas franquias começaram muito bem, mas depois abusaram da paciência do espectador. Os fãs de Tolkien já estão encontrando motivos para reclamar, na nova série, mas eles tiveram muito mais tempo para superar suas queixas com relação aos filmes do hobbit. Se as audiências gigantescas registradas até agora para “A Casa do Dragão” servem como indicador, os fãs de “Game of Thrones” parecem dispostos a perdoar, ainda que não a esquecer. Mas ainda é cedo, e a reação dos fãs ao final de “Game of Thrones” foi realmente amarga; a franquia tem muito terreno a recuperar.

Vantagem: “Os Anéis de Poder”


HERÓIS

Como prequela, “Os Anéis de Poder” tem outra vantagem, porque alguns de seus personagens são imortais. O truque, claro, é que os novos atores têm que se equiparar àqueles que interpretaram encarnações anteriores dos personagens, alguns dos quais muito amados. Morfydd Clark, como a jovem aventureira Galadriel em “Os Anéis de Poder” (um papel interpretado no cinema por Cate Blanchett) faz isso muito bem.

“A Casa do Dragão” poderia ter tomado um caminho semelhante se os showrunners estivessem dispostos a revisitar personagens duradouros como Melisandre (Carice van Houten) ou as Crianças da Floresta. Mas isso exigiria que os personagens fossem encaixados na história em lugares nos quais onde na verdade não se encaixavam.

Em lugar disso, “A Casa do Dragão” apela implicitamente aos espectadores para que identifiquem Rhaenyra (Milly Alcock) com Daenerys (Emilia Clarke) e, portanto, apoiem sua reivindicação do trono. Não é nem de longe uma causa tão nobre quanto a batalha de Galadriel para extinguir o mal supremo, ou mesmo a luta precoce de Dany contra a opressão. Rhaenyra quer apenas retomar sua herança, e talvez haja algo heroico em sua luta contra o patriarcado para consegui-lo, mas ela até agora não mostrou ser uma Galadriel, ainda que as perucas loiras deem aos Targaryen um jeitinho de elfos.

Vantagem: “Os Anéis de Poder”


ESPADAS

Dizem que a espada faz o homem —ou a mulher, ou o elfo. E às vezes uma espada lendária pode fazer mais para alimentar o medo e a submissão do que o braço que a empunha.

Em “Os Anéis de Poder”, provavelmente veremos algumas dessas famosas lâminas –a espada de Isildur (Maxim Baldry), por exemplo, conhecida como Narsil, carrega em si o peso do destino. Enquanto isso, o que podemos dizer sobre a empunhadura negra quebrada que Theo (Tyroe Muhafidin) guarda secretamente? É uma arma que parece capaz de se regenerar, e também de beber sangue. Ela se parece com a espada Anglachel, também conhecida como Gurthang, e isso certamente não nos diz nada de bom.

Em “A Casa do Dragão”, estamos em plena Idade do Ouro das lendárias armas valirianas. O rei Viserys (Paddy Considine) porta a poderosa espada real, Blackfyre, quando quer exercer autoridade, e tem nas mãos uma adaga que parece conhecida, quando exerce o dom da profecia. (Dadas as propriedades especiais do aço valiriano de que a adaga é feita, fica claro que ela também carrega um destino.) Daemon (Matt Smith), por sua vez, usa a esguia Dark Sister para abrir a estocadas seu caminho rumo à glória.

E há o Trono de Ferro, feito de incontáveis espadas, que pode facilmente derrubar um rei, com uma estocada bem dirigido. Reza a lenda que é assim que o trono “rejeita” os indignos de governar.

Um paralelo ao aço valiriano, no mundo de Tolkien, é o mithril, um metal raro e precioso encontrado apenas em Khazad-dûm e Númenor —ambos lugares visitados em “Os Anéis de Poder”. Diz-se que o mithril é mais forte que o aço, mas também mais leve —o que provoca uma pergunta óbvia: Por que ninguém pensou em fazer uma espada de mithril?

Vantagem: “A Casa do Dragão”

ÁRVORES MÁGICAS

No início, pelo menos em “Os Anéis de Poder”, havia as Duas Árvores de Valinor, crescendo lado a lado e mesclando seu brilho, até que o Senhor das Trevas, Morgoth, as envenenou. Depois, para piorar as coisas, Morgoth roubou os Silmaril, três joias que continham a luz remanescente daquelas duas árvores agora desaparecidas. Aprendemos também que uma muda de árvore presenteada continua a florescer mesmo no subsolo profundo de Khazad-dûm. Como? Por amor? Magia? (Há alguma diferença?) Há outras árvores significativas, além disso, algumas das quais simbolizam a amizade entre diferentes espécies. (Procure por uma delas se a série nos levar à capital da Númenor.)

Até o momento, as árvores brancas de a “A Casa do Dragão” são pouco mais do que um pano de fundo, uma fonte de sombra suave no bosque de deuses. Mas parece provável que as árvores estejam sendo utilizadas por alguém como uma espécie de sistema de vigilância “westerosi”. (Sabemos que há uma série de corvos de três olhos e “greenseers” em guarda permanente.) Provavelmente não descobriremos muito mais a esse respeito na atual temporada.

Vantagem: “Os Anéis de Poder”


DRAGÕES

Os dragões são a arma de guerra decisiva. No prólogo de “Os Anéis de Poder”, vemos o malvado Morgoth fazer uso pioneiro das bestas aladas em uma batalha.

Uma de suas montarias parece ser Ancalagon, o Negro, um modelo óbvio para outro gigante conhecido, Balerion, o Pavor Negro, cujo crânio preservado é objeto de reverência em “A Casa do Dragão”. Os dragões de Tolkien não são animais de estimação; seria desaconselhável montar neles para um voo de turismo. E eles terão um papel mais sério a desempenhar na história quando os anões receberem suas joias de poder.

Mas, para resolver a questão central que divide as duas franquias, qual delas tem os melhores dragões? Sabemos, por conta da tagarelice de Smaug em “O Hobbit: A Desolação de Smaug”, que os dragões de Tolkien são conscientes e atenciosos. Se encontrados individualmente, eles têm sérias capacidades intelectuais. Em grupo, porém, seus números escassos durante a Segunda Era da Terramédia não permitem compará-los à horda incandescente de “A Casa do Dragão”.

O Syrax de Rhaenyra e o Caraxes de Daemon são apenas os primeiros desses animais a serem mostrados na série –mas há toda uma armada de dragões que não vimos até agora.

Vantagem: “A Casa do Dragão”


IDIOMAS INVENTADOS

Já que Tolkien era linguista na realidade e criou seu próprio idioma elfo (chamado quenya), “Os Anéis de Poder” começa em clara vantagem diante de “A Casa do Dragão”, nessa categoria.

Martin (nos livros) e David Peterson, o criador das línguas usadas em “A Casa do Dragão”, fizeram valentes esforços para alcançar algo próximo ao que Tolkien conseguiu, principalmente com o alto valiriano, a língua materna dos governantes Targaryen. Se julgássemos cada série exclusivamente pela arte de suas línguas, o quenya de Tolkien certamente sairia ganhando.

Mas “Os Anéis de Poder” desperdiça essa vantagem por mal utilizar o quenya, quando os elfos falam uns com os outros, ou o khuzdul, entre os anões, pelo menos nos dois primeiros episódios. Ouvimos Elrond (Robert Aramayo) murmurar algumas palavras em idioma elfo para si mesmo, quando está escrevendo alguma coisa, mas ele retorna para a língua comum segundos depois.

Em contraste, “A Casa do Dragão” usa o alto valiriano para estabelecer uma relação entre um tio e uma sobrinha Targaryen, e os atores o falam tão fluentemente que o vínculo parece real.

Vantagem: “A Casa do Dragão”


LINGUAGEM, ÉPOCA

Ambas as séries são baseadas em material pré-existente. Em “A Casa do Dragão”, a origem é a história imaginada por Martin no livro “Fogo e Sangue”. Já “Os Anéis de Poder” usa principalmente apêndices de “O Senhor dos Anéis”, que são essencialmente esboços da histórias.

As duas séries tiveram que inventar bastante, para preencher lacunas narrativas, e aqui “A Casa do Dragão” se beneficia do envolvimento direto de Martin, um dos criadores do programa. Além disso, os roteiristas de “A Casa do Dragão” parecem muito mais conscientes de como usar diálogos e cenas para agitar as conversas de cafezinho dos espectadores e reativar a velha fábrica de memes de “Game of Thrones”. O “eu nunca brinco quando falo de bolo” dito por Rhaenyra foi um pouco forçado, mas as pessoas ainda estão comentando sobre o assassinato por cesariana no episódio um.

Já “Os Anéis de Poder” até agora não devolveu a carne ao cardápio, rapaziada –e tampouco está servindo um segundo café da manhã. Mas sabemos que podemos contar com Daemon Targaryen como fonte de .GIFs.

Vantagem: “A Casa do Dragão”

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original