Digam o que disserem, sou louca por Lula – 18/11/2022 – Marilene Felinto

Digam o que disserem, sou louca por Lula – 18/11/2022 – Marilene Felinto


Quase corri para falar com Barack Obama, o ex-presidente norte-americano, que esteve aqui na Filadélfia no sábado anterior à eleição de meio de mandato, que ocorreu em 8 de novembro.

Coincidência estar na Filadélfia ao mesmo tempo que Obama, ele que veio a um comício para fortalecer a campanha do Partido Democrata e incentivar a população a votar.

Pensei em correr, encontrar um meio de me aproximar dele no evento e perguntar: “Senhor Obama, ‘o cara’ acabou de ser reeleito à Presidência no Brasil. O que acha disso?”.

Em 2009, em almoço na cúpula do G20, Obama se referiu a Lula como o presidente mais admirado do mundo. Apertou a mão do brasileiro e disse: “This is my man, right here, I love this guy” (Esse é o cara, bem aqui, adoro esse cara).

(Essa admiração foi ratificada em 2021, quando José Rodríguez Zapatero, ex-premiê da Espanha, se referiu a Lula como seu “professor”, um “mestre em redução de desigualdades” sociais. “Aprendi com ele”, disse Zapatero, “que o mais importante na vida é trabalhar pelos outros, não renunciar nunca, não se resignar jamais. Homens como Lula é que vão escrever o século 21”).

Nossa. Quase corri, como se fosse uma jornalista atrás de um “furo” de reportagem. Quase fiz alguns telefonemas estratégicos, para conhecidos e amigos de esquerda em Nova York, com acesso a gente no poder. Digam o que disserem, Obama é uma figura emblemática, e a eleição dele é épica, tem a mesma importância que a de Dilma Rousseff no Brasil: um preto na Presidência do país segregacionista; uma mulher na Presidência do país feminicida. Digam o que disserem.

Achei que seria uma oportunidade e tanto… Eu, bem louca, gritando da plateia: “Mr. Obama, ei, o Lula foi eleito, você viu, lá? O que achou, por favor?”. E quase com o mesmo entusiasmo com que eu me bandeava para esses lados do hemisfério Norte para entrevistar norte-americanos na minha juventude. Foi assim nos anos 1990, quando entrevistei para esta Folha o cineasta supernarcisista Spike Lee em Nova York, pauta minha, esforço meu sozinha.

Correr para o evento com Obama… cavar outro “furo” desse tipo. Mas primeiro era preciso atravessar a sensação de estar boiando na academia estrangeira (essa verdadeira Disneylândia que são as universidades americanas, como bem disse Heloisa Buarque de Hollanda, de tanto dinheiro que têm). Boiando, porque não tenho perfil acadêmico. Então, sofro com o discurso quantitativo-estatístico, tenho preguiça de pensar, pouco afeita às exatidões das pesquisas.

Aqui se fala em técnicas metodológicas como “modelagem multinível”, “análises longitudinais de dados”, “teoria ecossocial” etc. Além de que, conheci também aqui o que se chama de “solidariedades feministas negras transnacionais”. Redes de pertencimento às quais me sinto não apenas alheia como também excluída.

Fui convidada para a Universidade da Pensilvânia como “intelectual escritora visitante”, mas literatura importa menos, mundo afora hoje, do que os temas da democracia no Brasil e do nosso tóxico racismo de cada dia.

Vencendo a preguiça da adaptação aos códigos estrangeiros, superando muito devagar a estranheza, o desconforto, muita dificuldade com a automatização e a digitalização de tudo (sou uma pária digital), superando o intrincado preenchimento de dezenas de formulários e questionários online, identificações rígidas, por logins, senhas, cartões magnéticos etc., era correr atrás de Mr. Obama, por Mr. Lula.

Era preciso acreditar, correr para abordar Barack Obama. Estava a meio caminho de seguir para o evento democrata… Mas foi quando olhei para a paisagem deste além-mundo estrangeiro e parei, paralisada. Fui retrocedendo, no passo e no tempo, voltando… O que era furo foi virando um orifício de agulha.

Pois a cidade veio justo ali me relembrar: quando eu tinha uns 9 anos, minha mãe nos reuniu (os cinco filhos) na sala e leu em voz alta o que ela chamou de um currículo fantasioso do meu pai, ele que inventava currículos na tentativa de conseguir empregos melhores.

Antes da leitura, ela nos alertou para que nunca fizéssemos aquilo, mentir como meu pai mentia, inventar coisas que não aconteceram: no currículo, ele escrevera que tinha feito um curso de piloto de avião na Filadélfia!

Isso mesmo: Filadélfia, onde hoje estou. Nunca me esqueci do nome desse lugar. Meu pai sonhava ser piloto de avião. Isso parece ficção, mas é a pura verdade. Aconteceu. Acontece.

O improvável furo de reportagem abriu as portas dessa antiga memória dolorosa. E confesso: sou louca por Obama; sou louca por Lula. Mais louca ainda, porém, por esses esbarrões do destino, essas puras verdades que são quase ficção. Digam o que disserem.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar cinco acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original