Desigualdade educacional: Como formar professores? – 15/09/2022 – Alexandre Schneider

Desigualdade educacional: Como formar professores? – 15/09/2022 – Alexandre Schneider


Em minha última coluna afirmei que fazer mais do mesmo não reduzirá a desigualdade educacional no Brasil —que aumentou antes da pandemia nas escolas públicas—, o que significa que o abismo entre os estudantes destas e os das escolas privadas deve ser ainda maior. Defendi que o foco da gestão pública deve ser na formação continuada de professores e prometi tratar do tema nesta coluna.

O desafio de proporcionar aprendizagens em profundidade e com qualidade para todas as crianças, jovens e adultos exige múltiplas ações, na sala de aula e fora dela. O cenário pós-Covid-19 apenas torna mais urgente essa tarefa. Em um país onde 37,8% dos lares com moradores de 10 anos ou menos sofre de insuficiência alimentar moderada ou grave não basta garantir que crianças e adolescentes comam bem na escola. É fundamental que se articulem políticas intersetoriais que fortaleçam eles e suas famílias.

Na sala de aula é preciso uma nova agenda, fundada na formação continuada dos professores, orientada em três pilares: avaliação diagnóstica e formativa dos estudantes, organização do currículo em ação e a oferta de devolutivas que apoiem a aprendizagem contínua dos estudantes.

Em um ambiente heterogêneo como a sala de aula pós-pandemia, os professores precisam saber de onde seus estudantes estão partindo. Para isso, além de utilizar os dados das avaliações padronizadas, devem saber elaborar instrumentos avaliativos —formais e informais— que acessem não apenas o conhecimento factual dos estudantes, mas competências globais que apoiam a aprendizagem como um todo.

O estado emocional dos estudantes, os saberes correlatos que eles construíram, seus gostos e preferências são informações essenciais para que o docente crie situações de aprendizagem significativas e que engajem as crianças em um contexto de escolarização que muitas vezes é desinteressante. Essa avaliação deve servir de base para o professor planejar suas ações e ser utilizada ao longo do processo de ensino para retroalimentar suas decisões pedagógicas.

O segundo pilar de uma formação continuada efetiva deve ser o do fortalecimento do conhecimento pedagógico do conteúdo dos professores, para que eles, diante dos contextos e das necessidades específicas de seu grupo de estudantes, possam organizar o currículo ação, ou seja, priorizar aspectos disciplinares centrais e selecionar materiais e atividades que apoiem a construção da aprendizagem em profundidade e com compreensão. Além de não fortalecer a ação docente, a seleção prévia ou priorização curricular de forma centralizada pode levar a um trabalho desprovido de sentido e desconectado da realidade dos estudantes, podendo resultar em aprendizagens superficiais e fragilizadas.

O terceiro pilar é o da ampliação da capacidade dos professores em oferecer devolutivas construtivas que apoiem as aprendizagens e o desenvolvimento da metacognição pelos estudantes. O mundo exige que a aprendizagem ocorra além dos muros da escola, de forma contínua e permanente. De um modo geral, professores não são formados para elaborar devolutivas efetivas aos seus estudantes, voltadas ao seu engajamento em aprender sempre. Ampliar a capacidade docente em oferecer este tipo de devolutiva é fundamental para que as escolas formem pessoas capazes de encontrar os caminhos apropriados para seguir aprendendo ao longo da vida.

Para desenvolver e fortalecer esses três pontos, a formação continuada que é ofertada aos professores não pode ser pontual, massificada e desprovida de interação. As pesquisas sobre práticas efetivas apontam para elementos centrais que devem ser incorporados nesse sentido: a formação deve ser de longa duração, com encontros espalhados ao longo do tempo, e coerentes entre si.

O foco da formação deve ser na área de ensino do professor, preferencialmente com o recorte da etapa/ano de atuação. Os professores precisam estar envolvidos em aprendizagens ativas e conectadas aos problemas reais que encontram em suas salas de aula, com múltiplas oportunidades para construir comunidades de práticas com seus pares.

Mudar o modelo de formação continuada de professores não é uma tarefa trivial e exige em primeiro lugar que os gestores acreditem na capacidade do corpo docente sob sua responsabilidade, compreendam suas necessidades reais de desenvolvimento profissional e atuem continuamente sobre elas. Isso é possível com uma boa articulação entre as redes públicas e as universidades, além do fortalecimento das estruturas de formação das secretarias de Educação.

Já antes da pandemia os instrumentos que garantiram a melhoria da aprendizagem em redes públicas no Brasil davam sinal de fadiga e não foram suficientes para evitar o aumento das desigualdades educacionais. É hora de apostar nos nossos educadores e dar-lhes todas as condições para que possam melhor cumprir com a árdua tarefa que terão pela frente. Criar um sistema robusto voltado ao seu desenvolvimento profissional é um dos principais movimentos nessa direção.


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