Declínio da religião no Ocidente levou a moralismo estridente na política – 23/10/2022 – Álvaro Machado Dias

Declínio da religião no Ocidente levou a moralismo estridente na política – 23/10/2022 – Álvaro Machado Dias


Durante a Revolução Francesa, a Assembleia Nacional foi espacialmente dividida entre os que apoiavam a ideia de que o rei deveria preservar alguns direitos e os que achavam que nenhum deles deveria ser mantido. Estes sentavam-se à esquerda do presidente do fórum; aqueles, à direita. Como os olhos do mundo estavam voltados para a França, o eixo direita-esquerda tornou-se rapidamente conhecido.

O fato de representar uma maneira simples e intuitiva de organizar as ideologias políticas, isto é, ideais, princípios e preferências sobre como a vida em sociedade deve ser, tornou-lhe hegemônico, conforme narrou Pierre Nora.

Diversos autores apresentam a dicotomia político-ideológica essencial pela oposição de visões e interesses daqueles que colocam em primeiro lugar o problema da desigualdade em relação àqueles que colocam o das amarras à maximização individual e ao progresso pelo mercado.

O italiano Norberto Bobbio dizia que “liberais nunca consideraram a desigualdade um mal em si, mas sim um efeito colateral da economia produtiva” (Bobbio, 1996, p. 117). Intelectuais de direita dizem que a esquerda ignora como funcionam os impulsos motivacionais humanos e o próprio mercado. Chamemos a projeção que se forma a partir desta oposição de eixo das estratégias de manejo dos recursos escassos.

Esta visão primordialmente econômica das ideologias políticas diverge do que autores como Samuel Huntington (1977) dizem: “no mundo moderno, a religião é uma força central”.

O contraste não é sinônimo de problema insolúvel, mas da importância da inclusão de mais um alicerce na representação político-ideológica, opondo a defesa da tradição, conectada à religiosidade, ao liberalismo nos costumes. Chamemos este de eixo da abertura à alteridade e transformação dos costumes.

A ideia de representar as ideologias em dois eixos não é nova. David Nolan (1969), por exemplo, criou um diagrama famoso para localizar as correntes políticas sob esta inspiração. Seu modelo possui formato de cruz, o que não significa que a relação entre os dois eixos seja sempre de intersecção.

No Brasil, por exemplo, é comum existir um alinhamento (logo, paralelismo e não intersecção) entre apoio ao Estado forte, orientado à redução da desigualdade, e liberalismo nos costumes. Assim foi durante o regime militar, conservador nos costumes e liberal na economia, combatido por grupos de mentalidade oposta.

Outra coisa que os adeptos do modelo de Nolan deveriam considerar é que a relevância de cada eixo varia de acordo com o momento. Por exemplo, durante o período FHC e primeiro governo Lula, o eixo dos recursos escassos dominou o debate público, ao passo que agora este vem sendo dominado pelo dos costumes.

Um bom termômetro disso é o fato de que intelectuais liberais (por exemplo, do grupo Livres) e empresários (como João Amoêdo) declararam apoio a Lula, fazendo alusão ao conjunto de características que Fábio Py chama de cristofascismo de Bolsonaro.

A convergência de preferências sob os eixos ideológicos não é exclusividade nossa.

Uma pesquisa recente, conduzida em 33 países, concluiu que pautas econômicas e de costumes se alinham mais do que se desalinham nas principais economias do Ocidente. Por exemplo, quem se opõe ao Estado de Bem-Estar Social tem mais chance de apoiar a pena de morte.

Porém, o mundo é mais amplo do que isso e precisa ser tomado em sua totalidade. O maior estudo já feito sobre o tema debruçou-se sobre amostras de 99 países e concluiu que “não apenas nós não encontramos a típica relação direita vs. esquerda, cultural e econômica, como podemos observar que uma pequena correlação negativa entre estas dimensões é mais comum” (p. 1062).

Nos países que se mantiveram capitalistas durante o século 20, há uma pequena correlação entre tolerância à desigualdade e intolerância à mudança; por outro lado, nos países que eram/são comunistas, a tendência se inverte e intolerância à mudança tende a estar mais alinhada à valorização da igualdade por meio do Estado.

“(…) Nossos dados sugerem que (1) não é típico que atitudes culturais e econômicas estejam alinhadas na dimensão esquerda-direita, (2) é mais comum que visões culturais de direita sejam acompanhadas por pontos de vista econômicos de esquerda (e vice-versa)”.

O fato destas associações ideológicas serem de um jeito aqui e de outro no leste europeu sugere que estes eixos sejam essencialmente independentes.

As bases profundas das ideologias políticas

As linhas de força ou eixos do pensamento ideológico podem ser decompostas em dimensões ainda mais fundamentais, incluindo algumas que nos precedem.

Isso é diretamente verdadeiro para o manejo coletivo de recursos escassos, essencial a todas as espécies sociais; e indiretamente para a abertura à transformação, que é um modo de pensamento que encontra ecos na dicotomia entre exploração e reiteração para a maximização do acesso a esses recursos, a qual foi moldada por pressões evolucionárias.

A natureza ubíqua dos desafios delineados desta maneira faz com que alguns fatores, capazes de influenciar posicionamentos ideológicos, obedeçam lógicas evolucionárias.

Em 2012, um estudo com gêmeos monozigóticos, dizigóticos e não pareados, criados pelos mesmos pais e por pais separados, concluiu que “fatores genéticos específicos determinam similaridades familiares em dois aspectos essenciais da orientação política das pessoas, tanto entre quanto dentro de uma mesma geração” (p. 642).

Em 2014, foram publicados os resultados da genotipagem de 12 mil pares de gêmeos, de diferentes nacionalidades. Segundo os autores, “a influência genética nas ideologias políticas é sistemática, sendo transversal ao tempo e às culturas” (p. 292).

Experimentos mais modernos mostraram que alguns genes são seletivamente importantes em aspectos específicos dos alinhamentos ideológicos espontâneos, tanto do ponto de vista econômico quanto moral.

Em 2015, um estudo apontou que o gene do receptor de dopamina DRD4 influencia o desconto marginal atribuído à continuidade e, assim, ao conservadorismo. Conforme demonstrado, as variantes presentes no genoma afetam a postura a priori, na infância e vida adulta, no Ocidente e no Oriente. O mesmo pode ser dito de outros receptores dopaminérgicos (e.g., DRD2) e serotonérgicos.

É importante notar que genes não levam à síntese de programinhas cerebrais cuja execução inscreve ideias na consciência. O efeito se dá pelas moléculas e circuitos que influenciam a nossa sensibilidade à repetição e ao prazer, ao medo, ao apetite ao risco, à empatia e à motivação, que formam tecidos psíquicos na infraestrutura das ideologias políticas.

Assim, é possível encontrar os mesmos efeitos ignorando os genes e olhando diretamente para o cérebro. Por exemplo, o tamanho da amígdala cerebral, área ativada pelo que dá medo, prevê intolerância à mudança, sem dizer muita coisa sobre a intolerância à desigualdade.

O mesmo pode ser dito da responsividade neurológica de áreas ligadas ao processamento de desgosto, como algumas porções da ínsula, e à resolução de conflitos, como o córtex cingulado, maior em pessoas menos moralistas.

No eixo econômico, o nível de oxitocina e de testosterona circulante, bem como o funcionamento de córtex pré-frontal medial e outros, influenciam a formação de crenças envolvendo o manejo de recursos escassos em contextos sociais. É possível manipular estas inclinações farmacologicamente, gerando mudanças comportamentais, com efeitos nas escalas de atitudes ideológicas.

A inversão de entendimento

O fato de que as linhas de força ideológicas são decomponíveis em aspectos infraestruturais transmissíveis pela via das moléculas e dos hábitos recomenda que façamos uma inversão conceitual.

Ao invés de apenas assumirmos que atores políticos constroem posicionamentos para moverem apoios a seu favor, também devemos considerar que as posições ideológicas disputam a hegemonia dos cérebros e da cultura.

O princípio é vê-las como horizontes existenciais que competem para surgir simultaneamente de dentro e à frente de cada um de nós, enquanto políticos, amigos. Assim, as leis e tudo mais são instrumentalizados para que isso aconteça.

Abordar o momento político por este ângulo leva à formulação de uma questão essencial: por que o eixo dos costumes adquiriu preponderância e, nele, a posição conservadora se tornou o grande núcleo de atração, tal como evidenciado pela carta aos evangélicos que Lula publicou em e pela força mais ampla do bolsonarismo?

Para responder isso é preciso levar em consideração que a disseminação não é local, mas ocidental. Já estava presente na eleição do Trump em 2016, a partir de posicionamentos organizados em torno do que chamo de rechaço do passe livre para entrar ilegalmente nos Estados Unidos, transar sem camisinha e abortar, sair do armário, usar drogas, banheiro unisex ou fazer da universidade pública um local de depravação, como sinalizado pelos mais recentes cortes de verbas a que assistimos pouco surpresos.

Essas são pautas que revelam a luta expansiva do impulso moralizante, usando como principal pivô de disseminação os evangélicos, em oposição à maioria dos católicos, agnósticos, ateus e praticantes de outras religiões.

Trata-se de uma relação de conveniência: o cristofascismo é um subtipo ideológico multidimensional, cuja faceta explicitamente antidemocrática é a que mais brilha para os que se opõem a ele; em contraste, o contingente que lhe dá suporte pela via dos vetores moralizantes, ignorando a imoralidade preconizada e exercida, é muito maior do que o contingente dos que o fazem porque têm tara por canhão.

A minha tese é que o motivo mais profundo para tanto seja o fato de que, numa esfera mais ampla, o mundo ocidental está se tornando menos religioso e mais secularizado, o que não é bom prognóstico para o espírito moralizante, que dá o tom no extremo do eixo das transformações.

Não há religião que cresça tanto quanto o grupo dos que não proferem nenhuma fé, na Europa, nos Estados Unidos e em diversos países da América Latina.

Nos Estados Unidos, um estudo do Pew Research mostrou que 90% das pessoas se diziam cristãs em 1970, mas só 64% falavam o mesmo em 2020. Neste ritmo, o país será de minoria cristã antes de 2070, quando a maioria será de pessoas sem religião.

No país, o protestantismo está caindo mais rapidamente do que o catolicismo, o que permite uma leitura alternativa do Make America Great Again, criado por Reagan e usado por Trump. Na Europa, o aumento dos sem religião foi ainda maior, ao passo que a religião mais afetada foi o catolicismo, que também lidera a perda de fiéis na América Latina.

De acordo com a última pesquisa do Latinobarómetro (2020/21), os sem religião cresceram 6% entre 2010 e 2020. No mesmo período, os evangélicos se tornaram 4% mais comuns no Brasil. Isso contrasta com o crescimento de 15% da década anterior.

Em São Paulo e no Rio, os jovens (16-24 anos) sem religião já superam católicos e evangélicos. A dinâmica demográfica indica que isso deve se tornar realidade nacional em algumas décadas, o que, aliás, é esperado para todo o continente.

Pesquisa do Datafolha indicou que os evangélicos estão indo menos aos templos do que há 6 anos e que a taxa dos que contribuem financeiramente caiu 14% no período, sendo que a dos católicos manteve-se estável, porém em níveis mais baixos.

Isso tudo tem levado a um aumento da competitividade pelas mentes e pelos espaços na cultura que as religiões podem ocupar, à qual os evangélicos vêm respondendo de maneira particularmente agressiva pela sua própria natureza doutrinária, mais flexível, descentralizada e missionária.

A agressividade “comercial” dá força a posicionamentos extremos no eixo da transformação, já que isso permite maior instrumentalização política. O caso mais emblemático é o da reversão do direito constitucional ao aborto pela Suprema Corte americana. Um golaço do impulso moralizante, que deve aumentar as gravidezes indesejadas e a pobreza, o que, por sua vez, aumentam a religiosidade.

Nesta toada, os discursos religiosos vão se tornando puramente horizontais, mirando o retrovisor dos costumes. Nem um “a” é dito enquanto se olha para cima; nem um minuto é perdido com a espiritualidade ou qualquer coisa que efetivamente se relacione com os mistérios da existência e angústias da finitude.

A ironia é que a conversão da religião em instrumento do impulso moralizante, articulado pela política, intensifica a secularização; a lógica talibã é normatizada como parte do debate público sobre a organização social, enquanto os princípios originários da filiação religiosa, que dizem respeito às angústias da experiência humana, são esquecidos de uma vez.

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