De filas a falta de informação: passageiros sofrem em 1º dia de greve dos aeronautas

De filas a falta de informação: passageiros sofrem em 1º dia de greve dos aeronautas


O primeiro dia de greve dos aeronautas, profissionais que atuam no interior de uma aeronave, como o comandante (piloto), co-piloto, comissário de bordo, mecânico de voo, navegador e radioperador de voo, chacoalhou a malha aérea nacional ao longo das duas horas de paralisação realizadas nesta segunda-feira — das 6h às 8h.

O aeroporto de Congonhas, principal hub doméstico do país, foi o mais afetado e registrou 38 atrasos 5 voos cancelados por causa da paralisação. A partir de Congonhas, um nó se desdobrou pelos demais aeroportos do país travando o deslocamento de passageiros numa época do ano de alta demanda por voos devido à aproximação das férias e das festas de fim de ano, como Natal e Réveillon.

O mineiro Pablo Dorleto enfrentou dificuldades no Santos Dumont, aeroporto do Rio de Janeiro. Com voo marcado para voltar para Belo Horizonte, teve que aguardar duas horas para saber como tudo seria solucionado. A situação ficou mais grave porque estava na companhia do pai, que é obeso e tem hipertensão. “Ele tem dificuldade de andar e pressão alta. Acabou que a gente sofreu o transtorno de ter que remanejar e, para ele, que tem essa dificuldade, é bem mais complicado”, afirmou.

O aviso de problemas no voo, segundo Pablo, foi feito em cima da hora. “Eles falaram que o avião estava estragado e que iam arrumar outro avião. A gente ficou esperando umas duas horas e teve um remanejamento. Agora, a gente vai pegar um avião para outro estado e depois ir para o nosso estado para poder chegar em casa.”

Pablo Dorleto disse que os dois estavam de férias, e o voo não seria para cumprir algum compromisso agendado, mas ressaltou que, ainda assim, foi ruim enfrentar o transtorno por causa da condição do pai. “A gente estava de férias e compromisso a gente não tinha, mas é pela dificuldade do meu pai, que ele não dá conta de fazer estas trajetórias grandes. Tudo foi planejado, muito bem calculado. A gente pagou mais caro para não ter nenhum tipo de problema, acabou que a gente teve”, afirmou.

No Rio de Janeiro, foram 13 atrasos e seis cancelamentos no aeroporto Santos Dumont, segundo a Infraero, enquanto a concessionária do Aeroporto Tom Jobim (Galeão), a RIOGaleão, mencionou que três voos sofreram atrasos.

A Infraero, responsável por Congonhas e Santos Dumont, informou que está monitorando o movimento em todos os seus terminais e, caso necessário, adotará as medidas contingenciais previstas no Plano de Segurança Aeroportuário. A orientação da estatal é a de que os passageiros procurem informações sobre seus voos antes de se dirigirem aos aeroportos.

Foi o que fez a agente de saúde comunitária, Jéssica Alves de Lima, 36. Antes de ir ao aeroporto para embarcar a filha de 12 anos para Vitória, em um voo previsto para as 10h10, ela tentou se informar em todos os canais possíveis para ter certeza de que o voo estava mantido. Encontrou dificuldades e acabou obtendo a informação em cima da hora e, ao chegar no aeroporto, não foi possível embarcar.

“Fui afetada por falta de informação. Como foi divulgado que era pra vir só se tivesse certeza, acabamos saindo de casa mais tarde. Agora estamos aguardando para ver se conseguimos uma remarcação para hoje às 16h. Eu fiquei com receio de vir sem a informação correta e não conseguir embarcar e perder o valor que eu gasto para chegar até o aeroporto são R$ 110,00. E ao chegar aqui a empresa disse que de qualquer maneira era para eu ter vindo com três horas de antecedência mesmo sem informação”, disse.

Filas para remarcação de passagens e falta de informação foram a tônica do primeiro dia de manifestação dos aeronautas. A GRU Airport, concessionária do aeroporto de Guarulhos (SP), o maior do país, disse que no pico dos problemas pela manhã dez voos estavam atrasados simultaneamente. A empresa não divulgou o total de voos impactados.

Passageiros no Rio de Janeiro reclamaram do período escolhido para a paralisação e do atendimento prestado pelas empresas aéreas, que há meses têm elevado preços de passagens aproveitando a alta demanda e sob a justificativa de compensarem elevação de valores de combustíveis e outros custos.

“É uma fila gigantesca para ter boa informação, saber o que eles vão fazer para nós. Está bem complicado”, disse à Reuters Carolina Campos, que faria conexão no Rio de Janeiro nesta segunda com destino a Belo Horizonte.

“As opções apresentadas são horríveis por parte da empresa. Infelizmente, no dia a dia, o atendimento não é bom e às vésperas das festas de fim de ano o passageiro passa por momentos constrangedores”, adicionou Juliana Barbosa, que teve o voo para São Paulo cancelado pela greve.

A Latam disse pela manhã que “boa parte” de sua operação encontrava-se normal e confirmou “alguns impactos pontuais em alguns voos”, sem detalhar. A Gol afirmou que todos os voos previstos foram operados, mas que houve “alguns atrasos”, também sem dizer quantos. A Azul não comentou.

Atrasos foram registrados na maioria dos aeroportos onde ocorreu a greve. Até 12h, o aeroporto de Brasília teve um total de 24 decolagens atrasadas, disse a concessionária Inframerica. Além disso, três voos que chegariam à cidade foram cancelados, um deles para uma manutenção não programada, afirmou.

No aeroporto de Confins, próximo a Belo Horizonte, a BH Airport disse que dois voos foram atrasados.

Já a Fraport, concessionária dos aeroportos de Porto Alegre e Fortaleza, não informou quantos voos foram impactados. Administrador do aeroporto de Viracopos, em Campinas, o consórcio Aeroportos Brasil não respondeu a questionamentos.

(Shutterstock)

O que passageiro deve fazer?

Os passageiros, com voos marcados a partir desta segunda, devem ficar atentos aos seus direitos. “Se houver algum tipo de impacto para o passageiro, como atrasos ou cancelamentos dos voos, o que se aplica é a Resolução n° 400/2016, da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac)”, explica Marco Antonio Araújo Junior, advogado especialista em direito do consumidor.

A resolução estabelece que as companhias aéreas devem informar imediatamente aos passageiros pelos meios de comunicação disponíveis que o voo atrasou ou foi cancelado, além de prestar por escrito (se solicitada pelo passageiro) a informação sobre o motivo do atraso ou cancelamento.

As empresas também devem prestar assistência material aos passageiros que estão no aeroporto (elas são obrigadas a satisfazer certas necessidades, de acordo com o tempo que os clientes esperam para embarcar):

  • Superior a 1 hora: as companhias devem fornecer facilidades de comunicação, como linha telefônica ou internet;
  • Superior a 2 horas: alimentação, de acordo com o horário, por meio do fornecimento da própria refeição ou então por meio de vouchers;
  • Superior a 4 horas: hospedagem, somente em caso de pernoite; e traslado de ida e volta do aeroporto até o local de acomodação.

Caso o passageiro esteja em um aeroporto que fica na cidade em que reside, a hospedagem não será necessária e a empresa poderá fornecer somente o traslado. Para Passageiros com Necessidade de Assistência Especial (PNAE) e seus acompanhantes, a empresa deve fornecer hospedagem independentemente da exigência de pernoite, a não ser que se o passageiro e o acompanhante concordarem com a substituição por acomodação em local que atenda suas necessidades.

Em atrasos superiores a 4 horas e também nos casos de cancelamento, a empresa ainda deve oferecer alternativas para reacomodação em outros voos, reembolso ou execução do serviço por outra modalidade de transporte. Os PNAEs têm prioridade na reacomodação.

O que os aeronautas exigem?

A categoria dos aeronautas reivindica aumento salarial real de 5% e melhores condições de trabalho, incluindo respeito ao acordo coletivo entre outros pontos.

“Tivemos atrasos em algumas operações e esse vai ser o normal até que haja uma nova negociação. Nós passamos dois meses e meio em negociação com as empresas. Nós tivemos duas propostas que foram recusadas”, disse a jornalistas o presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Henrique Hacklaender.

O sindicato das companhias aéreas informou que Tribunal Superior do Trabalho (TST) determinou que seja mantido o efetivo de 90% dos aeronautas em serviço (operando os aviões) durante o período da greve.

(Com informações de Agência Brasil, Reuters e Estadão Conteúdo)

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