Contar bem para contar melhor – 07/12/2022 – Sérgio Rodrigues

Contar bem para contar melhor – 07/12/2022 – Sérgio Rodrigues


Contar uma história é uma ação totalmente diferente de contar quantos dias faltam para a posse do novo presidente da República, certo? Não exatamente.

Mas como assim, se um verbo pertence ao mundo da arte narrativa, parente dos contos —de fadas ou não—, e o outro vigora no domínio da matemática e tem a ver com contas, inclusive aquela que o garçom nos apresenta no fim do jantar?

Que um contar não tem nada a ver com o outro, tratando-se mesmo de opostos, é algo em que, desde a escola, aprendemos a crer sem nem parar para refletir.

Afinal, a humanidade parece se dividir naturalmente em duas partes: de um lado o pessoal que tem facilidade para contar por escrito como foram as férias, do outro quem se dá melhor fazendo aquelas contas em que alguém tem doze laranjas, chupa três, vende cinco e termina com…

Como se sabe, a primeira metade da turma parece destinada desde cedo a “fazer humanas”, e a segunda, a “fazer exatas”. Então, como é possível que um contar não seja o oposto do outro?

Pois não são. Na verdade, nem sequer são dois verbos: contar é um só verbete nos dicionários de português, com diferentes acepções —entre elas, “relatar o enredo ou detalhes de história, caso, conversa etc.” e “fazer a conta de, computar, calcular” (Houaiss).

Se contar é um verbo único, resta explicar de que forma se diferenciou do vovô latino “computare”, este totalmente calculista —como se vê, o mesmo que viria a dar por via culta em nosso computar.

Acontece que o caminho erudito, mediado pela escrita, não é o único pelo qual as línguas se transformam. Na verdade, muito mais animada e criativa é a via popular, e ao se enfiar por ali “computare” mudou muito.

Ele, que tinha apenas sentidos ligados a calcular, perdeu uma sílaba e ganhou novas camadas semânticas na boca do povo ao passar pela máquina de mastigar, engolir e digerir o latim que deu origem na Idade Média às línguas neolatinas, o português na rabeira.

Virou “contare” em italiano, “compter” em francês e “contar” em espanhol, com grafia igual à nossa. Em todas essas línguas, o acréscimo do sentido de narrar parece ter chegado junto com a própria palavra.

Diz o filólogo catalão Joan Corominas, referência da etimologia românica: “A acepção derivada ‘narrar, relatar’ (…) é tão velha em castelhano como a outra”. O que parece apontar para uma ampliação semântica ocorrida ainda no latim vulgar.

Mas como o contar-calcular teria evoluído para o contar-narrar? De forma natural, eu diria, como duas etapas do mesmo processo cognitivo que nos faz dar conta do mundo.

Para contar bem uma história é preciso primeiro apurar bem os fatos. Um estilo narrativo sedutor terá pouco valor se não estiver a serviço de dados confiáveis —ou, no caso de mitos, lendas e histórias fictícias como um todo, dignos de fé ou de crédito emocional.

O solo comum às duas acepções principais de contar inclui operações da inteligência como organizar, aquilatar, relatar, relacionar, esmiuçar, hierarquizar, discriminar.

É por isso que os diversos braços do negacionismo que marca nosso tempo investem no apagamento de dados, cancelando censos e desacreditando instâncias fiscalizadoras, como forma de sustentar suas histórias mentirosas.

Primeiro é preciso fazer as contas: 690 mil brasileiros morreram na pandemia. Depois contamos às novas gerações a história de um governo genocida que está com os dias contados.


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