Como os diferentes setores da economia brasileira devem se recuperar nos próximos meses (e as lições dos outros países)

Como os diferentes setores da economia brasileira devem se recuperar nos próximos meses (e as lições dos outros países)


(Getty Images)

SÃO PAULO – A primeira metade de 2021, mesmo que não tenha números fechados, foi considerada surpreendentemente positiva para a recuperação da economia do Brasil, ainda que haja muitos desafios para superar a pandemia do coronavírus. Para o segundo semestre, a expectativa é de continuidade da recuperação com a expectativa de aceleração da vacinação, que ainda anda a passos lentos, além do país ser guiado também pela melhora da economia internacional, impulsionando as commodities.

Os últimos dados da economia, com destaque para os números do primeiro trimestre – que subiu 1,2% na comparação com os últimos três meses de 2020 -, levaram diversas casas a revisarem as suas projeções econômicas para cima, com alta de até 5,5% para 2021. A resiliência da economia foi apoiada em juros reais baixos, ampla oferta de crédito, níveis elevados de poupança, recuperação do emprego formal, forte crescimento global e adaptação às medidas de restrição.

Conforme ressaltam os economistas do Bradesco, apesar de indústria, comércio e serviços ainda estarem sujeitos a restrições sanitárias, os números desses setores têm se mostrado melhores do que o esperado. A retomada, apesar das medidas de distanciamento ainda presentes, também tem ocorrido de forma mais célere. A projeção dos economistas do banco é de alta de 5,2% do PIB do Brasil neste ano.

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Os serviços de saúde seguem se beneficiando da reabertura e do avanço dos beneficiários de planos de saúde. Os procedimentos eletivos foram interrompidos temporariamente durante a 2ª onda de Covid 19 em diversos estados, mas já foram retomados. Além disso, o número de beneficiários de planos de saúde vem se elevando, acompanhando a recuperação do emprego formal.

O setor de educação, por sua vez, está em recuperação, mas a captação de alunos ainda é um desafio, avaliam os economistas. No ensino básico, a demanda tem apresentado alguma melhora e, como consequência, os ajustes das matrículas e as renegociações de parcelas cessaram. No ensino superior, a captura de alunos ainda é um grande desafio, mas a recuperação da atividade e do emprego devem impulsionar o segmento nos próximos trimestres, ainda que de forma gradual, aponta o Bradesco.

Quando as economias pelo mundo devem se recuperar?

O Itaú também aponta que a vacinação está permitindo o controle da pandemia pelo mundo, destacando o desempenho de outros países. Entre as grandes regiões, o controle ocorreu primeiro na China, depois nos EUA, posteriormente na Europa e agora deve avançar em mercados emergentes. Nos EUA, o pico da pandemia foi em janeiro/fevereiro. O contágio começou a recuar com 20% da população vacinada em fevereiro. Agora, com mais de 67% da população vacinada com ao menos uma dose, o número de mortes por Covid está nas mínimas.

A Europa segue a mesma dinâmica, com dois meses de diferença ante os EUA, e vê recuo consistente da pandemia desde abril, quando a vacinação atingiu pelo menos 20% da população. Na China, a vacinação acelerou somente nos últimos dois meses. Mas o controle da pandemia ocorreu com a eficácia das medidas de contenção do vírus (testagem em massa, rastreamento de contatos e isolamento) no segundo trimestre de 2020.

Já os demais países emergentes devem começar a ver benefícios de sua vacinação no terceiro trimestre de 2021. Países como Brasil possuem um mix diverso de vacinas e estão no limiar dos níveis de vacinação que geraram melhora nos EUA e Europa, aponta o banco. Outros países também devem começar a ter ganhos. A disponibilidade global de oferta de vacinas está subindo e, partir de agora, novas doses serão destinadas principalmente para países emergentes, avalia a equipe de análise econômica, com aproximadamente 6,4 bilhões de doses na segunda metade do ano.

Segundo os economistas Guilherme Martins, Laura Pitta e Matheus Franciscão, todos os países desenvolvidos devem recuperar o nível do PIB de 2019 em 2021, enquanto que, para os emergentes, esse momento varia, podendo ser até a metade de 2022. Entre os desenvolvidos, Austrália e Nova Zelândia tiveram uma recuperação mais rápida, já tendo retornado ao nível pré-Covid nos primeiros três meses deste ano, Estados Unidos e Noruega no segundo trimestre, enquanto Japão, Canadá e demais europeus devem atingi-lo somente no segundo semestre.

Já entre os emergentes, a retomada dos níveis anteriores à crise é bem mais heterogênea: enquanto China, Turquia e Índia já retornaram em 2020, temos outros tais como México, República Tcheca e África do Sul, que devem voltar somente no próximo ano.

Para além do nível do PIB, os países desenvolvidos devem apresentar recuperação completa e retornar à tendência pré-pandemia entre o terceiro trimestre de 2020 e primeiro trimestre de 2022, mas os emergentes podem levar até depois de 2023 para voltarem à tendência. No Brasil, a expectativa é de que o PIB retorne à tendência pré-vírus em 2023 ou depois. Isso vale também para Colômbia e Chile, além dos países emergentes asiáticos cujas economias dependem muito do turismo. Por outro lado, os países emergentes da Europa (Polônia, República Tcheca e Hungria) voltam à tendência pré-pandemia em 2022, uma vez que acompanharam o ritmo de vacinação da Zona do Euro.

Na avaliação dos economistas do Itaú, a severidade da pandemia (medida em termos de óbitos per capita) explica uma pequena parte da diferenciação da recuperação entre países.

Para eles, dois outros fatores explicam melhor o ocorrido. O primeiro deles é a maior velocidade da vacinação, que implica em retorno mais rápido à normalidade econômica.

Já o segundo fator é o tamanho (e espaço) do estímulo fiscal. “Há uma correlação positiva entre a expectativa do PIB ao fim deste ano em relação à tendência com o tamanho do estímulo fiscal, mostrando um efeito positivo dos pacotes adotados, que resultam em menor queda e/ou recuperação mais forte. Porém, nota-se que para um mesmo tamanho de estímulo, o crescimento foi em média, superior nos mercados desenvolvidos que nos emergentes, mostrando que além das quantias dispendidas, o espaço para política fiscal (que se espera ser maior entre os desenvolvidos) tem papel relevante. Estímulos fiscais em economias maduras têm menos impacto sobre condições financeiras, ao passo que, em países emergentes, o aperto das mesmas tende a amortecer, ao menos parcialmente, o efeito das medidas fiscais expansionistas”, apontam.

Caso Brasil e riscos no radar

Para o Itaú, que projeta alta de 5,5% do PIB do Brasil em 2021, no caso doméstico, o avanço da vacinação deve permitir um retorno à normalidade econômica no quarto trimestre, com a expectativa de que toda a população acima de 18 anos esteja com a primeira dose aplicada em novembro.

“Apesar da dependência da chegada de insumos e imunizantes prontos do exterior, que geram periódicos gargalos de curto prazo, há cerca de 600 milhões de vacinas compradas com previsão de entrega até o fim do ano, frente a uma população acima de 18 anos de 158 milhões de pessoas”.

O principal risco adiante é o surgimento de variantes do vírus que afetem a eficácia das vacinas aqui aplicadas. Entretanto, a disponibilidade de vacinas no segundo semestre será mais diversificada, com tecnologias diversas e com indicações iniciais de que as mesmas podem se adaptar a novas variantes.

Ainda do lado dos riscos, para 2021 os economistas ainda avaliam possíveis restrições na oferta de energia elétrica por conta da crise hídrica como entrave à evolução da atividade.

Com relação à crise hídrica, o Bradesco vê ainda como baixo o risco de racionamento, chance que pode aumentar em 2022 caso as condições hidrológicas permaneçam desafiadoras em 2022. Em estudo, a XP apontou chance de apenas 3% de racionamento nos próximos doze meses.

Os economistas do Bradesco ressaltam ainda que mesmo em um cenário hidrológico menos agudo, há um potencial impacto baixista sobre a atividade econômica. Em comparação às demais fontes de energia, as usinas termelétricas contribuem com menor valor agregado à produção e, assim, seu mero acionamento impacta negativamente o componente “Produção e distribuição de eletricidade, gás e água” na indústria.

“De acordo com os nossos cálculos, um acréscimo de 10 pontos percentuais na participação das usinas termelétricas na geração total reduz em cerca de 0,2 ponto por trimestre o índice agregado do PIB, na comparação interanual. Nesse sentido, mesmo que um quadro mais agudo de racionamento não se materialize, esse é um risco em caso de acionamento prolongado destas usinas ao longo do ano”, apontam.

Enquanto isso, o maior impacto a ser sentido deve ser na inflação. O Bradesco ressalta ser válido destacar que o aumento de custos não é repassado ao consumidor apenas via bandeiras tarifárias, mas, também através de reajustes tarifários anuais das distribuidoras de energia. Dessa forma, os reajustes das distribuidoras podem ser mais elevados no próximo ano, considerando o repasse de custos ao consumidor.

Cabe destacar que o último relatório Focus, que mostra a projeção dos economistas para os principais indicadores da economia, projetou a inflação deste ano ultrapassando os 6% – a 6,07% ante 5,97% da semana anterior – superando muito o teto da meta oficial, de 3,75% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou menos. Para 2022 o cálculo para a inflação teve leve ajuste para baixo de 0,01 ponto percentual, a 3,77%, contra meta de 3,50% também com margem de 1,5 ponto.

A expectativa, em meio à inflação mais alta, é de que a Selic vá para 6,5% ao final deste ano, enquanto a projeção é de elevação a 6,75% no próximo, patamar considerado “neutro” para a atividade (nem levando a condições estimulativas nem contracionistas).

Porém, algumas casas, como o Credit Suisse, veem que a retomada associada à forte alta de preços ao produtor e câmbio depreciado devem manter a inflação em patamares elevados, levando o Banco Central a elevar a taxa básica de juros para 7,25% ao ano ainda em 2021, patamar este que teria impacto negativo na atividade.

Fiscal também segue gerando cautela

O Credit Suisse, cabe ressaltar, revisou recentemente a sua projeção para o PIB para avanço de 5,5% em 2021, também esperando que a aceleração do programa de imunização, reabertura da economia e termos de troca favoráveis impulsionem a atividade após a forte contração de 4,1% em 2020.

Os economistas do banco suíço também apontam que os ventos favoráveis ​​de preços de commodities acentuadamente mais altos e a inflação estão levando o PIB nominal para cima. A relação entre dívida bruta e o PIB esperada para o fim do ano é de 82%, muito mais baixo do que a razão de 89% do ano passado. Por outro lado, déficits primários não deverão se transformar em superávits até 2026, e o fiscal continuará sendo o principal ponto fraco do país em meio a preocupação de muitos investidores rumo às eleições presidenciais de 2022.

O possível aumento dos gastos em meio à proximidade do ano eleitoral, vale destacar, também está no radar dos economistas como um possível risco. Na avaliação dos economistas da XP em seu último relatório mensal de conjuntura econômica, o risco para frente pode voltar a ser o fiscal se a proximidade do ciclo eleitoral elevar a pressão por gastos populistas ou acima do teto constitucional. “Se isso acontecer junto com uma mudança na postura da política monetária nos países desenvolvidos, podemos assistir a volatilidade voltar aos mercados”, aponta a equipe de análise da XP, que possui projeção de alta de 5,2% do PIB para esse ano.

Um outro fator a ser monitorado de perto pelos investidores é o processo de alta dos juros nos Estados Unidos, que antecipou a sinalização de alta de juros de 2024 para 2023 e, a depender das sinalizações futuras, pode levar à redução de atratividade dos investimentos nos emergentes, caso do Brasil.

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