Candidatos estão longe do caráter humano ideal, mas só um defende atrocidades – 14/09/2022 – Henrique Gomes

Candidatos estão longe do caráter humano ideal, mas só um defende atrocidades – 14/09/2022 – Henrique Gomes


Temporadas eleitorais pedem um texto sobre ética. É nesta época que precisamos pensar sobre o que seria “o caráter humano ideal” ou “o dever moral”; se a ética fosse uma ciência, esses seriam seus focos.

A ética, no entanto, é usualmente denominada parte da filosofia: uma área de inquérito e argumento racional, que não necessariamente se adequa ao rigor empírico esperado de uma ciência ou ao seu poder de previsão. O inquérito ou a principal pergunta da ética é sobre como devemos viver.

Há diferentes abordagens para uma resposta. Entre elas, uma das mais tradicionais é o consequencialismo, segundo a qual o que torna uma ação certa ou errada são suas consequências. Por que não roubar o pirulito de uma criança? Porque a criança sem aquele pirulito ficaria mais triste que você —pressupondo que você seja um adulto normal sem obsessão por pirulitos.

O mais famoso experimento mental usado para ilustrar o consequencialismo é o “trolley problem” (dilema do bonde). Neste cenário, há um bonde chegando a uma bifurcação: de um lado, há uma pessoa amarrada nos trilhos; de outro, há cinco pessoas. Supondo que você tenha o controle sobre qual caminho será tomado, haveria uma obrigação moral de conduzir o trem ao lado com o menor número de vítimas? O consequencialismo diz que sim.

O dilema do bonde e o roubo do doce da criança trazem à tona problemas morais com consequências de futuro imediato, mas há também as possíveis consequências a longo prazo: se muitos adultos roubassem pirulitos de crianças, as crianças se tornariam adultos desconfiados, descrentes no seu semelhante, o que, em uma cadeia causal inexorável, levaria todas as instituições democráticas à bancarrota.

Se o leitor viu nesta última frase um salto dedutivo injustificado, apontou um dos maiores problemas do consequencialismo: é muito difícil —na verdade, impossível— prever todas as consequências de nossas ações. Na maior parte das vezes, não temos a menor ideia do que elas seriam a longo, e nem mesmo a médio, prazo. Como agir então?

A grande filósofa inglesa Philippa Foot, criadora do dilema do bonde, argumenta que, em última análise, o que produz as melhores consequências são ações “virtuosas”. Aqui, as virtudes não são hábitos cotidianos; são traços de caráter, no sentido de que são centrais para a personalidade de alguém e como ela é como pessoa. Uma virtude é um traço que torna seu possuidor uma pessoa boa, e um vício é aquele que torna seu possuidor uma pessoa má.

Voltando para as eleições. Há, com razão, muitos argumentos consequencialistas sendo levantados por ambos os lados. Entre esses, os que ganham mais destaque são aqueles sobre a economia. Quem será melhor nesse quesito a longo prazo? A questão me parece complexa, envolvendo diversos fatores, inclusive alguns fora de nosso alcance, como a conjuntura internacional.

Diante dessa nebulosidade, Foot diria que a clarividência é difícil, e, estatisticamente, o que traz os melhores resultados são frequentemente as melhores virtudes.

Claro que os principais candidatos estão longe do que a maioria de nós reconheceria como sequer aproximando “o caráter humano ideal”’. Mas só um deles ridiculariza a falta de ar de quem teve Covid, compara quem procura os restos mortais de familiares com cachorros, diz que a ditadura não matou gente suficiente, que uma deputada não merecia ser estuprada por não ser atraente, que seus filhos não namorariam negras porque foram bem-educados etc.

Eu entendo que o desânimo é grande e que bate muita vontade de se abster. Mas, nesta eleição, fique com Foot e não vote com os pés.


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