Cacaso buscou na canção um mergulho na vida que não encontrava na poesia – 27/12/2021 – Ilustríssima

Cacaso buscou na canção um mergulho na vida que não encontrava na poesia – 27/12/2021 – Ilustríssima


[resumo] Um dos expoentes da poesia marginal, Cacaso foi sobretudo um letrista de canções em suas breves quatro décadas de vida. Pesquisador analisa como o autor, que morreu em 27 de dezembro de 1987, tornou-se um dos principais padrões da formação lírica da MPB e encontrou na música popular o que não mais identificava na poesia, a “capacidade de falar de dentro da vida”.

Ao longo da década de 1970, Antonio Carlos de Brito, o poeta Cacaso, estabeleceu um modo de escrita poética que ficaria para a posteridade com a alcunha de “poesia marginal”.

Como poeta e professor, Cacaso não só entrou na onda como também ajudou a defini-la: poemas curtos, anotações breves, fragmentos líricos, flashes instantâneos, versos de “efeito imediato”, diria seu contemporâneo Paulo Leminski.

A posteridade consagrou o termo “marginal”, que abrangia a obra não só de Cacaso e Leminski, mas também de Chacal e outros que entraram no mesmo balaio, como Waly Salomão, Ana Cristina César e Francisco Alvim.

Tal classificação ainda gera discussões —o que seria o “poeta marginal”? Quais desses nomes citados de fato viviam, como em geral se pensa dos autores que faziam parte do movimento, de vender livros mimeografados nas portas dos bares, cinemas e teatros da zona sul do Rio de Janeiro? O próprio Cacaso é que não.

Aliás, sua produção poética não foi uma constante, muito pelo contrário; deu-se basicamente em dois momentos distintos de sua carreira artística. Já sua trajetória como letrista de canções manteve-se de forma ininterrupta ao longo de seus breves 43 anos de vida (1944-1987).

Ela começou timidamente, ainda na sua juventude, e culminou, 20 anos depois, num gigantesco cancioneiro, dando voz a dezenas de parceiros e cantores da música popular brasileira.

Oficialmente a carreira do Cacaso-letrista começa antes da carreira do Cacaso-poeta. Foi em 1965 que pôs, pela primeira vez, letra numa melodia inacabada de seu colega do Colégio Andrews, Maurício Tapajós, e deu a ela o título “Carro de Boi”. No mesmo ano, a canção seria gravada pelo conjunto vocal Os Cariocas.

Dois anos depois Cacaso publicaria o seu primeiro livro de poemas, “A Palavra Cerzida”, no qual, de acordo com José Guilherme Merquior (amigo do poeta e prefaciador do livro) percebe-se claramente uma qualidade cabralina. Logo Cabral, o poeta que não gostava de música.

O fiasco da recepção de sua estreia poética (“O livro nunca foi lido, nunca foi comprado por ningué/ […] Foi uma coisa tão inexistente na minha vida, a publicação do livro, que eu tinha sensação de ser editado e não ser”, diria o poeta, décadas depois) fez com que Cacaso deixasse de lado a poesia durante anos.

Nesse meio tempo, a lista de parceiros e gravações musicais crescia. Através do amigo Hermínio Bello de Carvalho, conheceu Elton Medeiros, com quem compôs alguns de seus primeiros sambas, e Paulinho da Viola, que assim como Elizeth Cardoso cantou muitos dos versos escritos pelo poeta.

Cacaso, porém, ainda não tinha plena confiança na sua carreira de letrista e, paralelamente, decidiu ingressar na vida acadêmica, que lhe garantiria um sustento fixo mensal. Foi nessa época que conheceu outro grande amigo e poeta, Francisco Alvim, que relembra:

“Ouvi de Cacaso que a poesia não estava dando pé. Ninguém lia, ninguém gostava e, reconhecia, o que se estava escrevendo era, de fato, de se gostar ou ler. Cada vez se sentia menos próximo da lira e mais acercado do violão. A música popular não perdera aquilo que a poesia deixara de lado: a capacidade de falar de dentro da vida. Mas por uma razão ou por outra, sua participação como letrista na música popular àquela época (que retomaria, anos mais tarde, com redobrado vigor e êxito) já não lhe satisfazia tanto e ele se sentia meio desempregado”.

“A capacidade de falar de dentro da vida”, como diz Chico Alvim, foi algo que Cacaso soube aplicar sem maiores dificuldades formais dentro da música popular, enquanto na poesia, nas suas duas específicas ebulições, optou por trabalhar com certa rigidez.

Se nos anos 1960, quando, sob forte impacto da leitura juvenil dos mestres do modernismo brasileiro, Cacaso deu lume ao seu “A Palavra Cerzida”, na década seguinte, trocando completamente de uniforme poético e até mesmo de fisionomia (o Antônio Carlos de Brito que se vê de cabelos curtos penteados e sem óculos na contracapa de seu primeiro livro deu lugar ao famoso Cacaso cabeludo, com óculos de John Lennon, que entraria para a posteridade), assumiu ideologicamente a cartilha da poesia dita marginal.

Ele não só se colocou como par geracional de Chacal, Charles Peixoto, Guilherme Mandaro e outros tantos que compuseram a polifônica antologia “26 Poetas Hoje” (1975), organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, como também foi seu principal teorizador, defensor e responsável por levar para a academia a nova poesia que irradiava a partir do Rio de Janeiro.

A sua produção poética desse período possui uma qualidade diversa da anterior, tem a capacidade de “falar de dentro da vida”, porém ainda sob determinadas regências coniventes ao meio em que foram produzidas. Em vários dos seus cadernos da época, Cacaso ia esboçando e solidificando uma espécie de poética como:

“Para mim escrever é algo extremamente difícil, significa revelar uma verdade qualquer, mais ou menos próxima da minha vida, que me custa muito fazer. Se minha poesia tiver qualquer valor literário, isso se deu unicamente a essa imperiosa necessidade de falar da matéria vivida, de tematizar uma experiência que estava para virar poesia – linguagem”.

Enquanto ainda lidava com as possíveis formulações da poesia marginal, com as querelas acadêmicas e demais polêmicas literárias, a carreira musical de Cacaso, alheia a tudo isso, parecia decolar de vez, já na segunda metade dos anos 1970.

O sucesso radiofônico e televisivo de “Dentro de Mim Mora um Anjo” (parceria de Cacaso com Sueli Costa), a regravação de Milton Nascimento de “Carro de Boi” e a frutífera parceria com Edu Lobo pesaram na balança quando decidiu abandonar de vez a sua tese de doutorado em literatura brasileira na USP e estabelecer-se como artista e intelectual independente, tendo como principal fonte de renda os lucros gerados pelos direitos autorais de suas canções.

A indústria fonográfica brasileira crescia exponencialmente e, até o final da década de 1970, cantoras como Elis Regina e Nana Caymmi e parceiros como Lourenço Baeta, Novelli, Nelson Ângelo, Zé Renato, Eduardo Gudim, entre outros, batiam ponto no famoso apartamento de Cacaso na avenida Atlântica, em Copacabana.

Nos anos 1980, o poeta ganhou novos intérpretes e dividiu canções com outros grandes nomes da música brasileira: Toquinho, Djavan, João Donato, Francis Hime, Tom Jobim, Miúcha, Joyce, Elba Ramalho, Jaques Morelenbaum, Olívia Byington, Rosa Emília e até Moreira da Silva.

Em 1985, tudo parecia deslanchar. Uma reunião da poesia de Cacaso, “Beijo na Boca e Outros Poemas” era finalmente lançada por uma editora de peso, a Brasiliense. Chico Buarque o convidou para comporem juntos, “sem formalidades”, conforme escreveu em seu diário. Havia ainda uma imensa quantidade de projetos relacionados à canção, seja no cinema, escrevendo musicais e peças teatrais com seus parceiros mais frequentes —e até mesmo um esboço de um primeiro disco próprio. A gigantesca demanda foi inesperadamente interrompida no final de 1987, com a morte precoce de Cacaso.

A servir de intermezzo, alguns parágrafos sobre o método que Cacaso desenvolveu para a composição de suas letras, conforme se vê em seus manuscritos. Ao lado esquerdo da folha em branco, o poeta invariavelmente dispunha o alfabeto inteiro, de A a Z, verticalmente, e passava um bom tempo matutando quais palavras poderiam rimar com uma palavra específica da letra que já havia surgido.

Por exemplo, no rascunho de uma parceria com João Donato, “Canavial”, Cacaso buscava uma rima para a palavra “nagô”. Recorreu às iniciais do lado esquerdo da folha e começou a listar —na letra A: “avô”, na letra B: “babalaô”, na letra C: “cocoricô”; letra I: “isquindô”, T: “tricô, R: “robô”. O mesmo fez com as possíveis rimas de “canavial”: “berimbau”, “mal”, “quintal”, “nau”, “sal”, capinzal”.

Criando essa espécie de dicionário íntimo, referente ao tema específico suscitado pela música em questão, o poeta resolvia, a seu modo, mais uma estrofe, mais uma canção. Com as rimas prontas, surgiam finalmente os versos, que poderiam ser utilizados ou não, com as rimas intercaladas.

No manuscrito de “Canavial”, tem-se: “vento da nação nagô / sopra no canavial / quero ter o seu amor / quero ver quebrar o pau”, ou ainda, “Meu galo cocoricô / só que lá no meu quintal”. Quando demorava em resolver o verso, Cacaso preenchia os espaços em branco das folhas com diversas caricaturas: de amigos, de personalidades famosas, de gente que nunca existiu.

Depois de resolvido o primeiro rascunho, punha-se diante da máquina de escrever e passava a limpo o que tinha conseguido até então. Porém, mesmo a folha já datilografada não escapava a novas anotações. Entre as dezenas de folhas datilografadas com letras, encontradas em seu arquivo, há a primeira versão de “Lambada de Serpente”, parceria com Djavan, ainda não totalmente pronta.

Ali, os versos “veneno de serpente / a paixão me enfeitiçou” são corrigidos à caneta, com a palavra “lambada” aparecendo como sugestão ao “veneno”, e “a traição” tomando o lugar de “a paixão”, já rabiscada. Resolvidas as questões, Cacaso datilografava mais uma última vez e marcava mais um encontro com seu parceiro (ou, por vezes, daria um telefonema) para mostrar, satisfeito, o resultado.

Cacaso é um dos mais prolíficos letristas da história da música brasileira e, desde sua morte, seu cancioneiro tem sido revisitado com certa regularidade. A ideia de reunir, num mesmo volume, sua obra poética e sua obra musical, como na “Poesia Completa”, editada em 2020 pela Companhia das Letras, já data de algum tempo.

Em 1982, na primeira edição de “Mar de Mineiro”, mais da metade do livro foi preenchido com as letras de suas principais composições até então. Cacaso desejava, ao atingir a maturidade dos 40 anos, ser entendido como o polígrafo que era, não abusando do letrista (ou do poeta) em detrimento do crítico, ou o contrário.

Outros projetos de livro que pretendiam juntar as diversas facetas de sua escrita foram apontados em documentos que agora estão no seu acervo mantido no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, da Fundação Casa de Rui Barbosa. Infelizmente não saíram do papel.

E é lá, em meio aos seus últimos escritos, que se pode encontrar uma possível resolução do Cacaso-teórico sobre toda a prática bem-sucedida do Cacaso-letrista. Se escrever poesia era “algo extremamente difícil” que significava “revelar uma verdade qualquer” próxima da experiência pessoal, o que lhe custava muito fazer, a canção, por sua vez, exercia a “capacidade de falar de dentro da vida”, como disse Chico Alvim, por um viés universal.

Cacaso demoraria alguns anos para escrever no caderno suas ideias sobre tal “capacidade”. A resolução está no conto inacabado chamado “Doutor Caneta”, personagem que soa como síntese da obra de Cacaso: “brasileiro, trabalhador, sem vaidade […], um personagem de Lima Barreto”, que libertaria a subjetividade, conferindo “cidadania” à individualidade de cada sujeito.

Ou seja, a profissão do Doutor Caneta seria escrever “os textos dos humildes”, dos pragmáticos aos “mais ligados à área dos sonhos”, “servindo de porta-voz, transformando o indivíduo desamparado em cidadão”.

E arremata: “A metáfora de todo escritor: todo escritor escreve por quem não escreve. Fala por quem não fala. Usar a palavra é dar a voz, deixar passar, ceder a vez. (Chico Alvim é um tipo de Dr. Caneta). É o estilo de todos. A voz de todos”.

Não há lugar mais flagrante na obra de Cacaso onde dá voz a todos, onde “cede a vez”, do que na feitura de suas letras. O desinteresse em aplicar ali, na grande maioria das vezes, a sua própria voz, tão própria em “A Palavra Cerzida” e “Mar de Mineiro”, e dar lugar à criação de vozes genéricas, em diálogo com “brasileiros” e “desamparados”, é o pleno exercício da prática da canção popular.

Prática essa que construiu a identidade sonora da sociedade brasileira —e logo grande parte do que é reconhecido como o seu caráter ao longo do século 20.

Cacaso, portanto, ao trabalhar com alguns dos mais relevantes artistas da música do Brasil de seu tempo, tornou-se um dos principais padrões da formação lírica da MPB. É de se notar que, ao longo da nossa história cultural, essa é uma posição que não foi delegada a muitos. O mérito é todo de Cacaso.

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