Avatar: O Caminho da Água: Como foi gravar debaixo d’água – 13/11/2022 – Cinema e Séries

Avatar: O Caminho da Água: Como foi gravar debaixo d’água – 13/11/2022 – Cinema e Séries



The New York Times

James Cameron sabia a pergunta que eu realmente queria fazer sobre seu novo filme, “Avatar: O Caminho da Água”. “‘Por que você demorou tanto?’ Vamos lá, sem rodeios”, brincou o diretor.

É uma questão justa, já que, depois de “Avatar”, o grande sucesso de ficção científica de Cameron em 2009, que arrecadou quase US$ 3 bilhões (quase R$ 16 bilhões no câmbio atual) nas bilheterias e se tornou o filme de maior faturamento na história, uma continuação que nos devolva ao sedutor mundo alienígena de Pandora demorou demais para se materializar. Hollywood mudou tanto, nesse meio tempo, que a 20th Century Fox, estúdio que financiou “Avatar” e o grande sucesso “Titanic”, de Cameron, foi adquirido pelo grupo Disney logo depois de a continuação ter enfim entrado em produção, em 2017.

Portanto, o que causou toda essa demora? Em uma recente conversa por vídeo com o diretor e o elenco, Cameron confessou ter enrolado quanto à realização do filme por alguns anos, para se entregar à sua paixão pela exploração submarina em grande profundidade. Depois de construir um submarino projetado para levá-lo ao fundo da Fossa das Marianas, o lugar mais profundo do planeta, Cameron atingiu esse objetivo em março de 2012, mas não sem causar preocupação aos seus atores de “Avatar”.

“O que gente vivia pensando era que esperávamos que ele sobrevivesse para fazer um novo filme”, disse Sigourney Weaver.

E mesmo quando Cameron contratou uma equipe de roteiristas para mapear um segundo e terceiro filmes, “terminei com mais histórias do que esperava”, disse o diretor. Uma história inicialmente concebida como uma trilogia veio a incluir mais quatro filmes, o que exigiu trabalho considerável de pré-produção. Escrever os novos filmes levou quatro anos, e projetar os diferentes biomas, culturas e guarda-roupas requereu outros cinco.

Mas “Avatar: O Caminho da Água” reconhece que muito tempo se passou desde o primeiro filme. No novo episódio, o soldado Jake Sully (Sam Worthington) e seu grande amor, a alienígena de pele azul Neytiri (Zoe Saldaña), são pais de uma ninhada que inclui três crianças Na’vi, um menino humano que se torna parte da família e um órfão Na’vi adolescente, interpretado por Weaver, 73, com a ajuda da magia tecnológica da captura de movimentos. (É um personagem diferente daquele que Weaver interpretou no primeiro “Avatar”, e a expectativa é de que qualquer confusão potencial seja mitigada pela ousadia irresistível da escolha de elenco).

“Avatar: O Caminho da Água” também acrescenta novas estrelas, como Kate Winslet, que protagonizou o “Titanic” de Cameron, e incorpora diversas sequências submarinas que exigiram que o elenco filmasse embaixo da água e prendesse a respiração por minutos a fio. “No final de cada jornada de ‘Avatar’, você sai com a sensação de que sabe mais do que sabia antes, e isso é estimulante”, disse Saldaña.

Será que eles se sentem pressionados a reproduzir o impressionante sucesso do primeiro “Avatar”? “Você não pode permitir que forças externas o escravizem”, disse Worthington. “Você precisa só trabalhar, sem medo e da maneira mais verdadeira que puder”. Ainda assim, Cameron é realista: ele já rodou o terceiro filme e um pouco do quarto, mas sabe que sua capacidade de concluir uma franquia de cinco filmes depende do desempenho nas bilheterias de “Avatar: O Caminho da Água”, cuja estreia nos cinemas está prevista para 16 de dezembro.

“Se ganharmos algum dinheiro com [os filmes] dois e três”, disse Cameron, referindo-se às continuações, “tudo está mapeado. Os roteiros já estão escritos, os designs estão prontos. Basta acrescentar água”.

Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

Não é fácil voltar ao trabalho depois de fazer o filme de maior bilheteria de todos os tempos, mas, James, você já fez isso duas vezes. O que você aprendeu com aquilo que aconteceu depois de “Titanic” e pode ser aplicado à continuação de “Avatar”?

Cameron: Que não se pode pensar desse jeito. Se eu trouxesse esse fator para cada decisão que tomo, seria como tentar calcular se a cor que vai aparecer nas costas daquele Ilu vai aumentar ou não em US$ 10 milhões a bilheteria bruta mundial. Tenho que me lembrar constantemente de que o trabalho precisa me divertir, porque, caso contrário, você termina competindo contra você mesmo.

Ou seja, temos um James Cameron mais divertido?

Worthington: Sim, com certeza.

Cameron: Não falem todos ao mesmo tempo, pessoal.

Qual foi a maior diferença entre fazer o primeiro e o segundo filme?

Saldaña: Os desafios eram muito maiores. Eu era mais jovem no primeiro filme, não tinha filhos. Agora tenho três filhos.

Cameron: E Zoe e Sam agora fazem o papel de pais, 15 anos mais tarde. No primeiro filme, o personagem de Sam pula de sua criatura voadora e essencialmente muda o curso da história como resultado daquele salto de fé insano, quase suicida. E a personagem de Zoe dá um salto no escuro e presume que haverá folhas macias lá embaixo para amortecer sua queda. Mas, quando se é pai, as pessoas não pensam dessa maneira. Então, para mim, como pai de cinco filhos, o que pergunto é o que acontece quando esses personagens amadurecem e percebem que têm uma responsabilidade que vai além da própria sobrevivência.

Ter filhos mudou a maneira pela qual você assume riscos, em sua vida cotidiana?

Cameron: Sim, eu era bastante selvagem na minha juventude imprudente, e corri muitos riscos que não correria agora. Eu vejo um pouco dessa selvageria em meus próprios filhos, e há histórias que eu não conto a eles até que tenham uma certa idade. Mas, sem dúvida, toda a sua perspectiva muda quando você tem filhos.

Eu também quero fazer aquilo que outras pessoas não estão fazendo. Quando olho para todos esses filmes grandes e espetaculares —estou falando de vocês, Marvel e DC— não importa a idade dos personagens, todos eles agem como se estivessem na faculdade. Eles têm relacionamentos, mas na verdade não. Nunca deixam a aventura de lado por causa dos filhos. As coisas que realmente nos aprumam e nos dão poder, amor e um propósito? Aqueles personagens não as experimentam, e acho que não é assim que se faz cinema.

Worthington: Jim escreveu essa família de uma maneira fantástica, onde não é só vida e morte que estão em jogo, mas também temos conflitos bem domésticos. Os personagens têm com seus filhos aquelas brigas que as pessoas têm todos os dias –juntem suas roupas, comam direito. Mesmo que o mundo esteja em guerra. Para ser honesto, usei muito do que aprendi reagindo aos rapazes adolescentes no filme, e apliquei as lições em minha vida real, porque sou pai de três meninos –minha casa é um zoológico— e alguém tem que fazer o papel do mágico que os mantêm na linha.

James, mesmo antes de você ter filhos, muitos de seus filmes de ação exploravam essa dinâmica paterna. Estou pensando em Sarah Connor e seu filho, John, em “O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final” ou em Ripley e Newt em “Alien, o 8º Passageiro”.

Cameron: Acho que é uma questão de saber o que me interessa como escritor e diretor. A única coisa que aprendi é que você precisa de alguma coisa na qual os atores possam fincar os dentes, algo em que eles possam tirar proveito de sua experiência de vida. Eu sabia, enquanto escrevia, que Sam e Zoe tinham se tornado pais, e que isso repercutiria para eles, mas, se você estiver falando para um público jovem, deve oferecer a eles a validação de saber que, em outro planeta, daqui a 200 anos, as crianças continuam passando pela mesma porcaria pela qual estão passando aqui e agora.

Sigourney, como você reagiu quando soube que faria o papel de uma menina ranzinza de 14 anos, com ajuda de um sistema de captura de movimentos?

Weaver: Lembro-me de que quando Jim enfim tomou a decisão, ele disse que “você pode fazer esse papel, porque é tão imatura”. “Ninguém além de mim sabe disso, mas sei que em seu coração você só tem 14 anos”. E eu acho que Jim tem cerca de 16 anos, o que quer dizer que o chute dele não está assim tão errado. Mas foi incrivelmente empolgante liberar a adolescente interior, porque ter 14 anos não é só diversão. Acho que todos nós nos lembramos de como as coisas podem ser doloridas, às vezes, e como elas parecem injustas no momento em que acontecem. Se você está interpretando alguém tão sensível quanto uma garota de 14 anos que perdeu suas raízes, há um mundo de aventuras que você pode ter na pele dessa personagem.

Zoe, como foi interpretar a figura materna de Sigourney Weaver?

Saldaña: Meu Deus, havia momentos em que eu dizia “lá está aquela adolescente que que simplesmente me odeia”. Fui filha antes de me tornar mãe, e me lembro daqueles momentos com minha mãe quando me sentia completamente confusa e incompreendida.

Filmes como “Aquaman” e a versão “live action” de “A Pequena Sereia” que está para sair acontecem embaixo da água, mas na verdade não submergem os atores. “Avatar: O Caminho da Água” o faz, e os atores tiveram que aprender a segurar a respiração por diversos minutos para filmar algumas das sequências subaquáticas. O que você ganha ao fazer isso de verdade?

Cameron: Oh, eu não sei, talvez o fato de que parece verdade? Vamos lá! Se você quer que pareça que as pessoas estão debaixo da água, então elas precisam estar debaixo da água. Não é um salto gigantesco —se você estivesse fazendo um western, aprenderia a montar a cavalo. Eu sabia que Sam foi surfista, mas Sig, Zoe e os outros não eram particularmente orientados ao oceano. Por isso fui muito específico sobre o que seria necessário, e convidamos os melhores especialistas do mundo para falar com eles sobre o assunto.

Saldaña: O primeiro passo é fingir até conseguir. Você diz ao chefe que “sim, com certeza, estou muito entusiasmada”, e depois é um horror completo, e você não para de pensar em como vai fazer para passar por aquilo. Na melhor das hipóteses, você sai com uma capacidade novinha em folha, mas eu estava com medo. Eu venho de gerações de pessoas das ilhas, e a única coisa que as pessoas não sabem sobre a vida nas ilhas é, que se você é de ilhas que foram colonizadas, uma grande porcentagem das pessoas não sabe nadar. O folclore nos ensina a amar o oceano como se fosse uma deusa, mas você o teme.

Quanto ao assunto de prender a respiração, quais foram seus tempos?

Saldaña: Sou muito competitiva, mas tínhamos uma atriz, ganhadora do Oscar, no elenco, que passou sete minutos sem respirar.

Você está falando de Kate Winslet?

Weaver: Jesus, sim, sete minutos.

Vocês tinham alguma ideia de que ela era capaz de fazer isso?

Cameron: Não, e ela também não sabia! Mas Kate é um demônio em termos de preparação, e ela praticou mergulho livre como o traço em torno do que poderia construir sua personagem. A personagem de Kate é alguém que cresceu embaixo da água, como um Na’vi adaptado ao oceano —eles são fisicamente muito diferentes dos Na’vi da floresta, e quase poderiam ser classificados como uma subespécie. Portanto, ela tinha que estar totalmente calma debaixo d’água, e acabou se tornando uma mergulhadora natural.

Saldaña: Eu consegui chegar a quase cinco minutos. Isso é um grande feito.

Cameron: Cinco minutos é excelente. Sig fez seis minutos e meio.

Weaver: Para a surpresa do professor! Ele disse que eu precisava me livrar do meu instinto mamífero, o de me assustar quando meu rosto estava na água. Por isso, você dedica diversos minutos a colocar seu corpo de volta naquele elemento, e a deixar que aqueles sentimentos de pessoa da terra se dissolvam.

Saldaña: Eu estava na Europa, nadando no Mediterrâneo com meu marido e nossos filhos, e transmiti as lições aos meus meninos —eles aprenderam a nadar embaixo da água. Consegui fazer isso porque me rendi a algo, mas não foi maravilhoso desde o início, preciso dizer.

Cameron: Agora vem tudo à tona!

Worthington: Que trauma!

Desde que o primeiro filme foi lançado, as questões ambientais se tornaram ainda mais urgentes. Como “Avatar: O Caminho da Água” fala sobre isso?

Worthington: No primeiro filme, Jake Sully diz: “Abra seus olhos. Mais cedo ou mais tarde, você tem que acordar”. É isso que ele faz no filme —acorda para aquele mundo, para aquela outra cultura— e eu acho que “Avatar: O Caminho da Água” é sobre proteger tudo isso.

Cameron: No primeiro filme, você termina com um sentimento de indignação moral sobre a destruição de uma única árvore. Temos algo muito semelhante em “Avatar: O Caminho da Água” e, pelo que vimos do público de teste, as pessoas sentem essa mesma indignação moral. Será que isso se traduz de alguma forma prática, mesmo que minúscula, quando as pessoas saem do cinema, em termos da forma como pensam sobre o mundo, sobre a natureza, sobre nossa responsabilidade para com o meio ambiente? Talvez, não sei.

Weaver: Você abriu nossos olhos, no primeiro filme, mas o segundo, porque ele trata dos oceanos e estamos tendo uma crise com os oceanos, eu sinto que é muito mais transformador. Se nosso objetivo é nos tornarmos parte da campanha da World Surf League e proteger 30% do oceano até 2030, eu realmente sinto que este filme vai ajudar a avançar no caminho desse objetivo. O que é reforçado pelo fato de que o 3D colocará o espectador em Pandora, na água.

Cameron: Jacques Cousteau disse que “ninguém protege o que não ama”. Ele sabia que a maneira de levar as pessoas a amar o oceano é mostrá-lo a elas em toda sua beleza, complexidade e grandeza. Estamos perdendo as baleias, estamos perdendo os golfinhos, estamos perdendo os tubarões. Estamos perdendo os recifes de coral devido à dissolução atmosférica [dióxido de carbono] no oceano. As pessoas olharão para trás daqui a 100 anos e dirão: “Tínhamos todas essas coisas, e as desperdiçamos”. Então, isso está [no filme], mas de uma forma muito orgânica, como parte da narrativa. O aviso está nas entrelinhas.

O primeiro “Avatar” foi um grande avanço no uso da tecnologia 3D. O que você acha sobre o que aconteceu com o formato nos anos que se seguiram?

Cameron: Acho que os estúdios estragaram tudo. Para economizar 20% no custo de criação do 3D, eles adotaram a pós-conversão para 3D, o que tirou a técnica das mãos do cineasta no set e a colocou em algum processo de pós-produção que produz um resultado ruim. Eu acho que o novo filme “Avatar” vai redespertar o interesse pelo 3D na produção primária, que é o que eu pessoalmente acredito ser a forma correta de fazê-lo. Para mim, você ou faz ou não faz um filme em 3D, mas não tente aplicar essa técnica ao filme depois de pronto para cobrar mais caro pelo ingresso.

Saldaña: E, veja, você quer ganhar muito dinheiro ou quer fazer algo de que se orgulha verdadeiramente e que resiste ao teste do tempo?

Cameron: Preciso escolher?

Saldaña: É uma infelicidade, mas as pessoas escolheram a máquina de fazer dinheiro, a pós-conversão. E nem todos os diretores são como Jim, com o nível de comprometimento que ele tem. Essa é a diferença entre um projeto que é apenas um sucesso de bilheteria e algo que é verdadeiramente especial, e eu gostaria que mais diretores entendessem o fato. Se eles criassem um pequeno curso na DGA [sindicato americano dos diretores]…

Cameron: Eu lecionaria!

Tradução de Paulo Migliacci

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