Até qualquer dia, Folha – 17/11/2022 – Alexandre Schneider

Até qualquer dia, Folha – 17/11/2022 – Alexandre Schneider


Convidado para a equipe de transição do presidente Lula, ao lado de educadores, ativistas e ex-gestores de diversas matizes, aceitei. Por esse motivo deixo de escrever nesse espaço, que ocupei por três anos e alguns meses.

Leitor desde criança, pude me relacionar com a Folha “dos dois lados do balcão”: como gestor público e como colunista. Em ambos os casos testemunhei seu real compromisso com a liberdade de expressão e a independência editorial.

Sou grato ao jornal pela oportunidade e aos leitores por suas críticas e sugestões. Também agradeço aos setoristas de educação da casa. Por duas vezes secretário da maior rede municipal do Brasil, seu trabalho possibilitou com que eu corrigisse erros cometidos rapidamente.

Em um país desigual e injusto como o Brasil, os políticos, gestores públicos, representantes de fundações empresariais e de defesa da educação, jornalistas e até mesmo muitos professores não têm filhos ou parentes matriculados na escola pública. Os estudantes matriculados na escola pública, seus responsáveis e professores não têm voz na formulação e implementação de políticas educacionais ou para apontar falhas.

O Brasil tem mais de 3,5 mil escolas sem banheiro, 8,5 mil sem água potável e cerca de 36 mil sem coleta de esgoto. Este ano foi marcado pela descoberta de tenebrosas transações que levaram à prisão de um ministro da educação, por dezenas de milhares de alunos fora da escola no início do ano letivo em São Paulo, pela falta de professores em 20% das aulas no ensino médio no estado, e pela contratação de estudantes de pedagogia para dar aulas no lugar de professores formados.

Nenhuma dessas notícias chegaria a quem não está no chão da escola pública sem o esforço e trabalho duro dos setoristas de educação da Folha.

Assim como a imprensa livre e independente, a educação pública, laica e de qualidade para todos é um dos pilares da democracia liberal. Após quatro anos em meio à névoa provocada por discussões extravagantes, a futura equipe do Ministério da Educação (MEC) deverá atuar para fortalecer o caráter ético, republicano e de coesão social da educação pública, o que só será possível se o norte da próxima gestão for o da redução das desigualdades educacionais.

Atuar para reduzir as desigualdades educacionais requer a adoção de uma série de ações estruturantes, da formação inicial de professores à construção de uma carreira docente que os valorize, do bom uso dos recursos públicos à sua ampliação nas áreas em que for necessário e possível, da boa estruturação de currículos à formação continuada de professores para que sejam capazes de implementá-los respeitando o contexto dos seus estudantes, dentre outras.

Reduzir as desigualdades educacionais demanda, sobretudo, a compreensão de que muitas vezes os sistemas educacionais permitem ou atuam para sua manutenção. Exige que não percamos nossa capacidade de indignação ao ver crianças e jovens fora da escola, escolas sem professor, estudantes assistindo vídeos ao invés de aulas e o dinheiro público escorrendo pelo ralo em projetos duvidosos.

Lembremos o grande Anísio Teixeira, e suas frases que deveriam estar presentes no MEC e em todas as secretarias de educação do País.

“Suspiramos pela democracia, mas nunca lhe quisemos pagar o preço. O preço da democracia é a educação para todos. É a educação que faz homens livres e virtuosos”.

Foi um enorme prazer escrever no jornal que leio desde criança, e que ajudou a despertar meu interesse pela política e pela cultura. Até breve.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar cinco acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original